Entenda a crise dos combustíveis e o corte de gás

Para analistas, a metáfora do "cobertor curto" define bem o cenário atual

Agência Estado ,

31 de outubro de 2007 | 20h49

O racionamento de gás natural imposto pela Petrobras no final de outubro revela o nível de aperto que vive o setor energético brasileiro. Para analistas, a metáfora do "cobertor curto" define bem o cenário atual, em que não há gás suficiente para atender o setor elétrico e a indústria ao mesmo tempo. A situação, dizem especialistas, deteriorou-se ainda mais após a nacionalização do setor de petróleo na Bolívia, que inviabilizou a expansão do Gasoduto Bolívia-Brasil (Gasbol). Veja também:Petrobras diz que já normalizou abastecimento de gásPetrobras envia mais gás a distribuidora no Rio após liminarComgás negocia fornecimento com grandes clientesConsumidores do Rio e SP não sofrem com a falta de gás Preço do gás natural deve subir, diz presidente da PetrobrasGoverno culpa distribuidoras pelo corte de gás Um estudo dos analistas da Tendências Walter Vitto e Bruno Selvaggi mostra que, excluindo a demanda das térmicas, o consumo de gás cresceu 5,9% nos oito primeiros meses do ano, enquanto a oferta caiu 1,2%. A Petrobras já promovia uma espécie de "racionamento branco", evitando a conexão de novos clientes à rede e, por isso, mantinha a situação sob controle. No entanto, a seca rigorosa dos últimos meses evidenciou o desequilíbrio entre oferta e demanda. Na terça-feira, quando a redução no fornecimento de gás foi iniciado, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) determinou o despacho de cinco térmicas a gás nas regiões Sudeste e Centro-Oeste e da usina de Araucária, na região Sul. Ao todo, as térmicas a gás geraram 1,8 mil megawatts (MW) médios durante o dia, consumindo um volume de gás natural superior aos 8 milhões de metros cúbicos. O despacho das térmicas é determinado pelo custo marginal de operação do sistema elétrico (CMO), valor que, na prática, precifica a água dos reservatórios das hidrelétricas brasileiras. Esta semana, o CMO superou os R$ 230 por megawatt-hora (MWh), superior ao custo de operação das térmicas. Tal situação é comum esta época do ano, quando os reservatórios das hidrelétricas estão vazios e tem como objetivo preservar alguma água para gerar energia no ano seguinte. Em 2006, o Brasil só não enfrentou racionamento semelhante porque a Petrobras declarou indisponibilidade das térmicas por falta de gás natural. O ONS teve, assim, que despachar usinas mais caras, como as movidas a óleo diesel. Naquela época, o nível dos reservatórios das regiões Sudeste e Centro-Oeste chegou a 42%. Na última terça-feira, estava em 52%. Por força de um termo de compromisso assinado com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a Petrobras teve de redirecionar gás para a geração de energia.  Previsões A expectativa é que o ritmo de queda no nível dos reservatórios diminua nas próximas semanas, pois há previsão de chuvas sobre as principais barragens brasileiras, nos rios Grande e Paranaíba, responsáveis por 70% da capacidade de armazenamento de energia da região. Se isso ocorrer, o CMO volta a cair e as térmicas a gás deixam de ser necessárias.  Especialistas alertam para a repetição do problema no ano que vem, caso a Petrobras não consiga ampliar a oferta de gás natural. O parque térmico brasileiro foi projetado a partir da possibilidade de expansão do Gasbol, inviabilizada pela crise com a nacionalização na Bolívia. A estatal busca outras fontes de gás no mercado externo, que poderia ser importado na forma liquefeita (GNL). A previsão é que o primeiro navio, com capacidade de 6 milhões de metros cúbicos por dia, chegue em maio de 2008. Outra alternativa em estudo pela empresa é a instituição de um contrato chamado de "firme-flexível" de gás. O modelo prevê a substituição do fornecimento a indústrias por combustíveis alternativos, como o óleo combustível, durante o período de seca nas hidrelétricas, quando o gás é destinado às térmicas. A Petrobras arcaria com os custos da substituição. Situação para os consumidores A possibilidade de racionamento não foi descartada. Isso vai depender da situação dos reservatórios de água. O fato é que, se as usinas hidrelétricas têm água para produzir energia, as termelétricas não precisam ser acionadas, o que garante o fornecimento de gás para o mercado. As distribuidoras de gás, entretanto, já garantiram que o fornecimento para consumidores residências e para o comércio não dever ser afetado. Caso haja racionamento, são as indústrias quem mais sentirão.

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