Entenda a origem da crise e até quando ela deve permanecer

Professor do curso de Economia da USP explica a dimensão da crise e traça os cenários possíveis para o Brasil

Cláudia Ribeiro, do estadao.com.br,

17 de março de 2008 | 17h37

A crise que afeta o mercado financeiro nos Estados Unidos e arrasta os negócios no mundo todo tem o foco na saúde do sistema bancário norte-americano. A origem do problema são as hipotecas. Com o baixo juro nos Estados Unidos - praticados entre 2001 e meados de 2004 - e as boas condições de financiamento, muitas pessoas compraram imóveis e se endividaram.   Veja também: BCs injetam recursos para socorrer bancos Crise no mercado global está maior, diz diretor-gerente do FMI JPMorgan compra o Bear Stearns por US$ 236 milhões Entenda a crise nos Estados Unidos   O sobe e desce do dólar  Veja os efeitos da desvalorização do dólar JPMorgan e Fed intervêm para socorrer seguradora dos EUA    Mas o juro subiu, a economia desaqueceu e a inadimplência aumentou. Os bancos que emprestaram dinheiro começam a mostrar o rombo. Além disso, o preço dos imóveis caiu. Pagando uma prestação mais alta e com o valor do bem menor, os norte-americanos reduziram o consumo. Isso deve influenciar de forma negativa as economias no mundo todo.   O professor do curso de Economia da Universidade de São Paulo e coordenador da pós-graduação, Carlos Eduardo Soares Gonçalves, explica a dimensão da crise e traça os cenários possíveis para a economia brasileira:   1- Até quando os bancos norte-americanos podem divulgar suas perdas com a crise das hipotecas nos EUA? Os bancos norte-americanos podem mostrar prejuízos até seis meses depois que eles foram efetivamente assumidos. Ou seja, um calote entra para o balanço do banco até um semestre depois. Contudo, isso não significa que, após a divulgação de todas as perdas, a crise tenha passado. O fato é que esta crise é 'virulenta'. Isso significa que todos os setores da economia são contaminados pela crise do crédito no sistema bancário norte-americano. Por exemplo, se uma pessoa está com dificuldades para pagar a sua prestação imobiliária, ela vai reduzir o consumo. Com isso, vai comprar menos roupas, menos combustível, menos calçados, não vai viajar, não vai investir etc. Essa é a conseqüência da crise do mercado imobiliário sobre a economia real e não é possível dizer até quando isso vai e em qual profundidade.   2- O Federal Reserve se reúne nesta terça-feira. O que o banco central dos Estados Unidos pode fazer para solucionar o problema? Ele tem ferramentas para isso? O banco central americano deve cortar o juro básico em 1 ponto porcentual. Com isso, a taxa deve cair para 2% ao ano. Mas esta ferramenta do Fed tem ação limitada. Quem está com dificuldade para pagar suas contas não vai consumir mais. Contudo, poderá se endividar mais para pagar empréstimos antigos. E aí reaparece o risco que foi a origem da crise atual nos Estados Unidos. Empréstimos com taxas baixas e com alto risco de calote. Para a crise americana, portanto, o mais importante não é a redução dos juros, mas sim a oferta de liquidez (recursos). Esta ferramenta já foi adotada pelo Fed, em uma ação conjunta com outros BCs mundiais, quando ele ofereceu US$ 200 bilhões na troca de títulos na semana passada. Isso sim poderá contribuir para a melhora das condições para os bancos e consumidores.   3- Até agora, o Brasil sofreu muito pouco com a crise nos EUA, exceto pela forte queda da Bovespa. Isso pode mudar? Quando e por quê? O Brasil está em condições melhores, com alto volume de reservas. Para o País, a situação vai começar a piorar se o preço das commodities cair. O comércio exterior depende muito destes produtos. Se a demanda externa diminuir, em função de um desaquecimento econômico, o preço das commodities vai cair. E, neste ponto, dependemos muito da China, de como o mercado lá vai se comportar. Mesmo para o mercado financeiro isso é importante, já que as maiores empresas da Bolsa - Petrobras e Vale - vendem commodities e, se o preço cair, as ações também vão cair.   

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