Entenda a polêmica que gira em torno do ‘parcelado sem juros’

 Alguns economistas costumam dizer que o famoso "parcelamento sem juros" é como jabuticaba, só tem no Brasil. E, apesar de alguns executivos do setor de cartões discordarem com o argumento de que alguns países já usam a modalidade, o fato é que em nenhum outro lugar a expressão é tão famosa e atrai tantos consumidores. E quem é que resiste?

Ligia Tuon, de O Estado de S. Paulo,

28 de setembro de 2012 | 18h33

"Parcelamento sem juros não existe na maioria dos países e, quando existe, é oferecido de maneira muito menos enfática. Aqui, mais da metade das transações está dentro deste padrão", afirma José Tosi, da consultoria de gestão de pagamentos Witbusiness.

O consultor conta ainda que, no Brasil, o parcelado sem juros começou para substituir o cheque pré-datado e para impulsionar o mercado de linha branca, que antes dependia de empréstimo pessoal. "A questão é que nem sempre o parcelamento é totalmente livre de juros", destaca Tosi.

Veja quem paga o que:

Lojas - Os lojistas muitas vezes oferecem parcelamento sem juros. Mas, na prática, isso não existe, já que o preço para pagamento à vista é sempre menor. "Assim como não existe almoço grátis", completa Tosi. Ou seja, os juros estão embutidos no preço.

Nesta conta, os lojistas podem considerar a desvalorização do dinheiro até o final do pagamento das parcelas e as taxas que ele tem de pagar à operadora do cartão de crédito e credenciadoras. Ele pode também incluir no valor do produto os juros que ele terá de pagar ao banco, se optar por receber a quantia parcelada para o cliente de uma vez só.

Credenciadoras - A principal receita dessas instituições, como Cielo, Redecard e Santander, é com a comissão que cobram do lojista pelas transações feitas no cartão.

Bancos - Os bancos são os detentores do dinheiro da transação. E, se o cliente opta por pagar o valor mínimo da fatura, é a instituição que recebe os juros da operação. O risco de calote também é das instituições.

Consumidor - Quando parcela uma compra, o cliente arca com os juros da operação (‘camuflados’ ou não no valor total), e deve, ainda, pagar juros altíssimos, se entrar no rotativo do cartão de crédito, que já chegam a ser maiores que 300% ao ano.

Pressões do governo

Justamente por conta de os juros do cartão terem atingido patamares tão elevados, é que o governo tem pressionado os bancos para reduzirem as taxas cobradas ao consumidor. No entanto, o argumento de algumas instituições é que isso não será possível se o "parcelamento sem juros" continuar sendo tão longo (hoje ele chega a 12 ou até 18 vezes). Isso porque, na opinião de parte do setor, a modalidade acaba provocando elevação das taxas, por serem um risco que é coberto pelas parcelas de quem está no rotativo.

Como o Estado já noticiou nesta semana, até o momento, somente o Itaú Unibanco propôs cobrar uma taxa extra de lojistas que vendem parcelado, sem a cobrança de juros do consumidor. O Bradesco e as instituições públicas são contrários.

Mas a polêmica é: o risco é de fato uma condicionante tão forte para que o nível dos juros brasileiros fiquem tão distantes assim dos praticados no exterior? "Em países como Estados Unidos e Alemanha as taxas do rotativo ficam na casa dos 0,5% ao mês ou 6% ao ano. É uma diferença e tanto", explica Adriano Gomes, professor do curso de Administração da ESPM.

Os últimos dados divulgados pelo Banco Central mostram que, nas operações com atraso de 15 e 90 dias, o porcentual de inadimplência do cartão caiu pelo quinto mês seguido e o estoque das dívidas no setor ficou estável em agosto em relação a julho. Além disso, temos que todos os porcentuais estão abaixo dos verificados na média do crédito livre total para pessoas físicas, o que significa que as dívidas no cartão perderam participação.

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