Entenda a queda nos preços do petróleo e suas conseqüências

Os preços do petróleo caíram fortemente nas últimas semanas, prejudicados pela crise financeira mundial e pela redução do consumo nas nações desenvolvidas. Além disso, os últimos relatórios mostram um crescimento nos estoques da commodity. Desde julho, quando atingiu o recorde de US$ 145,29, o barril de petróleo já perdeu mais de metade de seu valor. A queda prejudica a busca pela estabilidade que produtores e executivos de petróleo dizem precisar para investir no longo prazo. A forte perda vista nas últimas semanas fez com que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) antecipasse sua reunião de novembro e anunciasse, no dia 24 de outubro, um corte de 1,5 milhão de barris por dia na produção do cartel. A preocupação de produtores e executivos é de que o forte declínio nos preços poderia provocar cortes de investimentos e reduzir os lucros. "Eu acredito que o preço baixo é um dano real para o futuro da produção", afirmou o Ministro de petróleo do Irã, Gholamhossein Nozari. O ministro do Petróleo da Nigéria, Odein Ajumogobia, declarou à agência Dow Jones após a decisão do cartel que "as nações da Opep dependem das receitas com petróleo e, diante da queda dos preços até agora, estamos muito preocupados".  Alguns países produtores, de fato, se tornaram extremamente vulneráveis às oscilações dos preços do óleo, cuja receita determina o equilíbrio, ou não, de suas contas nacionais. Uma análise da Thomson Reuters e PFC Energy, divulgada neste mês, mostrou que as estabilidades financeiras do Irã e da Arábia Saudita não são afetadas enquanto o preço do barril não cair abaixo de US$ 55; a da Nigéria, abaixo de US$ 68; e a da Venezuela, abaixo de US$ 95. Os países que detêm maiores reservas cambiais serão, inicialmente, os menos atingidos, mas, se os preços não se recuperarem no médio prazo, mesmo eles terão de diminuir drasticamente suas importações e seu nível de consumo, para evitar a deterioração de seus balanços de pagamentos. Países que dependem da receita do petróleo para custear programas de alívio de graves problemas sociais, como a Venezuela e a Rússia, também serão muito afetados. A Venezuela, onde o petróleo representa 75% das exportações, é particularmente vulnerável. A estatal PDVSA, que tem financiado as extravagâncias políticas do governo de Hugo Chávez, este ano já tomou US$ 3,5 bilhões de duas tradings japonesas, mais US$ 4 bilhões do governo chinês, rolou um empréstimo de US$ 1,1 bilhão obtido com investidores franceses e negocia um novo crédito, entre US$ 1 bilhão e US$ 4 bilhões, com a suíça Glencore, especializada em commodities. A maior parte dessas operações será quitada com petróleo, constituindo-se, em verdade, em antecipação onerosa de receita. O governo autoritário corre o risco de sofrer forte abalo, pois as reservas cambiais são de apenas US$ 38 bilhões, segundo fontes oficiais. Com reservas 15 vezes maiores, de US$ 556 bilhões, segundo dados do dia 17 de outubro, a Rússia terá folga para se ajustar à queda, mas sua dependência do petróleo também é enorme. Das exportações totais de US$ 237 bilhões, no primeiro semestre, dois terços, US$ 159 bilhões, vieram das vendas de óleo bruto, gás natural e derivados de petróleo. O superávit comercial de US$ 200 bilhões dos últimos 12 meses e o superávit de US$ 100 bilhões na conta corrente do balanço de pagamentos dependeram quase totalmente do petróleo. Os diagnósticos da Opep e da IEA coincidem num ponto: a demanda tende a cair no curto prazo. E a queda será tão mais intensa quanto maior for a recessão nos países industrializados. A queda dos preços do petróleo tem pouco impacto imediato sobre o Brasil, que ganha como importador da commodity e perde com eventual redução dos dividendos da Petrobrás pagos à União. Mas, se o preço do barril se mantiver na casa dos US$ 60, ou cair mais ainda, os planos de exploração da camada pré-sal terão de ser revistos.

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