Entenda a Selic

Hoje o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu manter a taxa básica de juros Selic em 16,5% ao ano. Descontando-se a inflação, prevista para o ano 2000, de 6%, a taxa de juro real está em torno de 10,5%. A Selic é a taxa básica de juros da economia. Seu patamar é importante porque a orientação do Copom acaba influenciando as demais taxas de juros, incluindo as destinadas aos empréstimos de pessoas físicas, como o crédito ao consumidor e o cheque especial. Quando a Selic sobe, as outras taxas tendem a sofrer um aumento. Quando ela cai, todas as outras, mais cedo ou mais tarde, devem seguir a tendência.A chamada taxa Selic é o juro de um dia para negócios com títulos públicos federais. O Copom define então uma taxa básica de referência para estes negócios. Naturalmente, o governo tenta praticar uma taxa próxima desta referência, nos negócios que realiza diariamente no mercado, com horizonte de curto prazo. Mas é o mercado que vai aceitar ou não as taxas indicadas pelo governo. Nos negócios de longo prazo o risco aumenta, porque há menos clareza do que vai acontecer na economia neste período, e por isso as taxas costumam ser maiores.Os juros cobrados do consumidor e nos empréstimos para pessoas físicas são maiores do que a taxa básica Selic. Na prática, são muito maiores (veja na seqüência matéria comparando os custos dos empréstimos com a Selic). Os bancos e financeiras argumentam que os juros são altos no Brasil principalmente porque falta dinheiro para crédito e há grande risco de inadimplência (quando o tomador não honra seu compromisso). Na prática, as margens de ganho das instituições financeiras com estes empréstimos também são elevadas.Por que o governo não reduz os juros drasticamente?O governo altera a taxa de juros como instrumento de política monetária. A meta do governo é que não haja inflação. Se a renda subir demais e muito rápido, os consumidores procurarão comprar mais, e, na falta de mercadorias, os preços subirão. Efeito semelhante acontece quando a oferta de crédito é farta e barata - porque isso estimula o consumo. Por isso, uma taxa de juros mais alta segura o avanço dos preços, porque se evita um descompasso entre a oferta e a procura de produtos.Quando o governo percebe que há risco de inflação, eleva os juros. É o que tem feito o governo dos EUA desde junho de 1999. Essa medida torna o crediário mais caro, impedindo o consumidor de gastar tanto, e também encarece o crédito das empresas, que não podem expandir a produção com tanta facilidade, desacelerando a economia.Muitas vezes, uma crise externa pode forçar a elevação dos juros, quando o País precisa atrair investidores estrangeiros. Foi o que aconteceu no Brasil nas crises da Ásia (1997) e da Rússia (1998). Agora, porém, está ocorrendo o inverso. Os investidores estrangeiros estão trazendo o dinheiro para o Brasil mesmo com os juros mais baixos, porque o País tem recuperado sua credibilidade.Viés: neutro, de baixa ou de altaAlém de definir a meta de juros, o Copom define o viés da taxa. Normalmente, a taxa só pode ser modificada em uma reunião do Comitê. Mas, se na reunião os membros definem uma tendência, mas preferem esperar algum tempo para implantar a mudança, podem estabelecer o chamado viés.Com viés de baixa, o presidente do Banco Central fica autorizado a reduzir a taxa quando achar conveniente. No caso do viés de alta, é o contrário: ele pode aumentar a taxa sem autorização do Copom. Se o Comitê define viés neutro, a taxa não pode ser alterada até a reunião seguinte. Foi o caso desta reunião de hoje. Ou seja: a taxa básica Selic somente poderá ser alterada na próxima reunião do Copom, em 19 e 20 de setembro.

Agencia Estado,

23 de agosto de 2000 | 18h18

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