Leonardo Augusto/Estadão
A aérea diz estar em contato com a Boeing, aguardando instruções para a resolução do problema Leonardo Augusto/Estadão

Entenda como a nova crise do 737 Max, da Boeing, afeta a brasileira Gol

Companhia aérea é a única no País a usar o modelo, no qual aposta fortemente para reduzir custos; em nota, Gol disse que novo problema afeta apenas uma aeronave da companhia, que teve voos suspensos

Juliana Estigarríbia, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2021 | 14h00

A Boeing informou nesta sexta-feira, 9, sobre a ocorrência de um novo problema elétrico em um grupo específico de aeronaves 737 Max. Além do desafio adicional para a fabricante norte-americana, que ainda luta para superar acidentes aéreos envolvendo a família de aviões, o anúncio gera impacto sobre a Gol, que aposta fortemente no 737 Max para o futuro. 

A Boeing recomendou a 16 clientes ao redor do mundo que verifiquem um possível problema elétrico antes de prosseguir com a operação. A recomendação consiste em checar "se existe espaço de aterramento suficiente para um componente do sistema elétrico".

A fabricante não informou quais são esses clientes, mas a Gol é a aérea que mais opera 737 Max no Brasil, com sete unidades. Em nota, a brasileira informou que o problema afeta apenas uma aeronave da frota da companhia. "Seguindo os princípios de segurança que regem a nossa companhia, decidimos realizar proativamente a suspensão dos voos desta aeronave", disse a Gol, em nota. 

A aérea diz estar em contato com a Boeing, aguardando instruções para a resolução do problema, e que "somente retornará a aeronave afetada para o serviço após a certeza de que todas as ações corretivas tenham sido aplicadas e validadas pela fabricante, sempre em coordenação com as autoridades dos Estados Unidos e a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC)."

A manifestação da Gol parece ter acalmado os investidores. As preferenciais da companhia, que chegaram a cair quase 3%, logo na abertura, já subiam mais de 1% por volta das 13h30 desta sexta-feira.

Impacto deve de curto prazo, diz analista

O analista da Guide Investimentos, Henrique Esteter, pondera que o impacto para a Gol deve se restringir ao curto prazo, especialmente se o problema afeta um número reduzido de aeronaves da frota. Além disso, o cenário de pandemia e a queda drástica da demanda também acabam tornando a parada de operação para reparos "propícia".

"As companhias aéreas têm hoje uma capacidade ociosa grande, e se há um momento que esse reparo poderia acontecer é agora, pois o prejuízo tende a ser reduzido."

Apesar do impacto aparentemente restrito à Gol, o novo problema da Boeing pode afetar a confiança do mercado (e dos passageiros) para voar em aeronaves da família 737. Ao final de dezembro de 2020, a Gol informou em balanço financeiro que possuía 95 pedidos firmes para aquisição de aeronaves 737 Max. No documento, a companhia afirmou que "o 737 MAX proporciona à Gol vantagens substanciais".

Crise de confiança?

De acordo com o presidente da Comissão de Direito Aeronáutico da Ordem dos Advogados do Brasil ¬– seção São Paulo (OAB-SP), Felipe Bonsenso, os acidentes envolvendo o 737 colocam um holofote permanente na família de aeronaves. "Qualquer problema acaba virando uma questão muito maior para esses aviões."

Segundo Bonsenso, ajustes em aviões são comuns. Entretanto, problemas recorrentes causam outro tipo de desafio. "Problemas recorrentes afetam a confiança do passageiro e as companhias aéreas podem até acabar desistindo de comprar o 737 MAX", afirma o especialista.

Por outro lado, em meio à pandemia e à profunda crise econômica que as companhias aéreas enfrentam, um novo problema com as aeronaves da Boeing pode ser uma forma de clientes como a Gol negociarem preços com a fabricante, de acordo com uma fonte do setor, que prefere não se identificar. "A Gol tem agora um novo argumento para renegociar termos dos contratos do 737", explica. 

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Boeing volta a ter problemas com avião 737 MAX

Aeronave havia recebido autorização para voltar a voar em novembro; dois modelos do MAX caíram em 2018 e 2019, matando 346 pessoas

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2021 | 10h50
Atualizado 09 de abril de 2021 | 23h10

Pouco mais de quatro meses após ter autorização das autoridades regulatórias americana e brasileira para voltar a voar, o avião 737 MAX, da Boeing, voltou a apresentar problemas técnicos. A fabricante de aeronaves orientou 16 companhias aéreas a não operarem o modelo.

Segundo informações da Boeing, o problema não seria em todas as unidades do MAX e a recomendação é que essas 16 empresas verifiquem se "existe espaço de aterramento suficiente (nas aeronaves) para um componente do sistema elétrico". A companhia não informou quantos aviões podem apresentar o problema, que seria de produção - e não de engenharia. 

No Brasil, a Gol opera o MAX e um avião da frota da empresa está entre os que podem ter falha.  Nos EUA, a Southwest confirmou que 30 de suas 58 aeronaves do modelo receberam a notificação. 

Os 737 MAX ficaram sem operar no mundo todo por 20 meses após dois acidentes com o modelo matarem 346 pessoas. Após investigação, o Congresso americano concluiu que os acidentes foram resultado de falhas da Boeing e do Federal Aviation Administration (órgão dos EUA semelhante à Agência Nacional de Aviação Civil brasileira).

"Eles (os acidentes) foram o terrível resultado de uma série de suposições técnicas incorretas dos engenheiros da Boeing, uma falta de transparência por parte da administração da Boeing e uma supervisão grosseiramente insuficiente da FAA", afirmou o relatório do Comitê de Transporte e Infraestrutura da Câmara americana. 

Nesta sexta-feira, 9, a Boeing informou estar trabalhando "em estreita colaboração com a Administração Federal de Aviação dos EUA (FAA) nesta questão de produção" e que está "informando especificamente nossos clientes impactados e forneceremos orientações sobre quais as medidas corretivas adequadas".

Em nota, a Gol afirmou que foi informada de que o problema está relacionado ao sistema elétrico e que suspendeu os voos da aeronave. "A Gol está em contato com a Boeing, aguardando instruções para a resolução do problema e somente retornará a aeronave afetada para o serviço após a certeza de que todas as ações corretivas tenham sido aplicadas e validadas pela fabricante, sempre em coordenação com as autoridades FAA e Anac."

Ações

Após o anúncio de problemas técnicos em algumas aeronaves do 737 Max, a Boeing registrou queda de 1,02% em sua ações comercializadas na Bolsa de Nova York. Para uma fonte do setor aéreo, a retração relativamente baixa indica que o mercado aposta que o problema não será tão grave. Os papéis da fabricante americana de aeronaves encerraram o dia cotadas a US$ 252,36, o que significa um recuo de 26% na comparação com o período pré-pandemia. No pior momento, eles chegaram a ser comercializados a US$ 95.

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