Wilton Junior/ Estadão
Wilton Junior/ Estadão

Entenda por que a inflação continua alta, mesmo com aumento dos juros e o dólar em queda

Números divulgados neste início de ano mostram IPCA acima do esperado pelo mercado; previsões para o ano têm subido e estão bem acima do teto da meta do BC

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2022 | 10h45

RIO - A taxa de juros já está acima dos dois dígitos, o dólar acumula uma queda de quase 10% neste ano e a economia anda em marcha lenta. Mesmo assim, a inflação brasileira não dá sinais de trégua. A cada dia surgem novas projeções para o IPCA, o índice oficial de inflação do País, este ano - e as revisões são sempre para cima. 

Na terça-feira, 22, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revisou sua previsão para a inflação em 2022 de 4,9% para 5,6%. No último Relatório Focus, divulgado na segunda-feira, 21, pelo BC, a projeção para o IPCA avançou pela sexta semana consecutiva, para 5,56%, ante uma estimativa de 5,15% há apenas um mês. A meta do BC para este ano é de 3,5%, com intervalo tolerância entre 2% e 5%. No ano passado, o IPCA avançou 10,06%, ante uma meta de 3,75%, chegando quase ao dobro do teto de tolerância, de 5,25%. 

Segundo analistas, essas previsões têm como base as altas recentes nos preços de commodities (como petróleo e minério de ferro), dos bens de consumo industriais e dos alimentos, que mantêm a inflação pressionada. Mas os números podem ser ainda piores, uma vez que ainda não consideram os riscos decorrentes dos rumos da política fiscal durante um ano eleitoral e do agravamento das tensões entre Rússia e Ucrânia. Um eventual conflito poderia pressionar mais o valor de produtos como o petróleo, com reflexo sobre a gasolina, segundo economistas.

“Havendo uma guerra, provavelmente isso vai ter uma repercussão negativa no preço do barril (de petróleo), que já vem avançando, já está na casa de US$ 100, e que pode pressionar mais ainda por reajuste doméstico. Ainda que o real tenha se valorizado, e não foi uma valorização qualquer, isso não vai impedir reajuste nos preços dos derivados do petróleo, porque ele avançou muito mais”, apontou André Braz, coordenador dos Índices de Preços do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre/FGV).

“Nós começamos o ano com projeção de 5,5% para o IPCA, agora está em 6%. Uma das coisas é a pressão de custos que vêm do atacado e que podem chegar ao varejo. Por exemplo, a gente teve uma surpresa com relação ao cenário de petróleo, mais pesado do que se imaginava. A perspectiva de um conflito entre Rússia e Ucrânia, tomara que não ocorra, mas evidentemente o petróleo subiria ainda mais. Não estou colocando no cenário, mas é um risco. Petróleo já ficou mais pesado do começo do ano pra cá do que se imaginava, o mesmo vale para minério de ferro, que agora está perdendo um pouco de força em dólar, mas mostrou recomposição importante”, disse Fábio Romão, economista da LCA Consultores.

Os números das altas de preços divulgados neste início de ano pelo IBGE mostram que esse é um problema importante. O IPCA-15, prévia da inflação de fevereiro, divulgado nesta quarta-feira, 23, ficou em 0,99%, acima das previsões do mercado. Em janeiro, o IPCA ficou em 0,54%, a maior elevação para o mês desde 2016. A taxa acumulada em 12 meses até janeiro acelerou a 10,38%.
 

“Meu número para a inflação deste ano é de 5,8%, e não acho que minha revisão vá parar por aí. Vai depender da condução de algumas tarifas públicas, para as quais não temos muita previsibilidade para o futuro. A primeira delas é a energia, que provavelmente vai ter uma bandeira tarifária menos onerosa a partir de maio, mas não sei qual bandeira vai finalizar o ano, se amarela ou vermelha patamar 1, e isso faz toda diferença”, apontou André Braz, acrescentando também ter dúvidas sobre os reajustes que serão aplicados nas passagens de ônibus e na gasolina.

O Ipea lembra que o cenário atual no País combina pressões persistentes de commodities, cadeias produtivas desreguladas ainda como reflexo da pandemia de covid-19 e problemas climáticos afetando o cultivo de alimentos e o custo da energia. Segundo Maria Andréia Parente Lameiras, uma das autoras da Carta de Conjuntura publicada pelo Ipea na terça-feira, caso haja um agravamento do conflito entre Rússia e Ucrânia, a projeção para a inflação de 2022 deve aumentar. “Essa convergência da inflação para o centro da meta só vai acontecer lá para 2023 mesmo”, previu.

Efeito do dólar em queda 

A valorização recente do real em relação ao dólar pode ajudar a conter uma piora nas projeções para a inflação, segundo o economista-chefe da corretora Necton Investimentos, André Perfeito. Ele projeta um IPCA de 5,7% este ano, seguido de alta de 4% em 2023. Ele também crê que o temor de economistas sobre a situação fiscal do País tenda a arrefecer, qualquer que seja o vencedor do próximo pleito à Presidência da República, incluindo os possíveis candidatos Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva. Ou seja, embora o cenário seja de elevadas incertezas, Perfeito vê possíveis contribuições de baixa ao longo do ano.

“O dólar está caindo, isso pode ajudar a atenuar movimento de alta de commodities, atenuar outros problemas no setor de bens industriais. Vejo a inflação ainda preocupante. O Banco Central não vai conseguir cumprir a meta este ano mais uma vez, mas acho que, ao longo das próximas semanas, os economistas talvez tendam a revisar não para baixo, mas vai parar de piorar (de subir projeção de inflação)”, avaliou Perfeito.

Analistas do mercado financeiro estimam que a taxa básica de juros, hoje em 10,75%, ainda suba a 12,25% ao ano, conforme a mediana obtida pelo último Boletim Focus. Economistas lembram, porém, que a política monetária tem efeito limitado sobre o cenário inflacionário do momento, uma vez que os aumentos persistentes de preços decorrem mais de choques de oferta do que de demanda.

“Quando você tem um cenário inflacionário em que grande parte é choque de oferta, a potência da política monetária fica mais reduzida. Neste momento, o aumento na taxa de juros serve muito mais para ancorar expectativas futuras do que para resolver o problema atual. Porque não adianta mexer em juros se você tem o barril de petróleo crescendo sem parar, se você tem pressão de commodities. Agora, (o aperto monetário) serve no sentido de que você consegue atrair mais dólares, mais investimentos, então isso ajuda a sua taxa de câmbio, e serve para ancorar expectativas”, concluiu Lameiras, do Ipea.

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