Tiago Queiroz/Estadão - 9/6/2020
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Entenda o que é recessão técnica e o que ela significa para a economia brasileira

Classificação indica a situação em que a atividade econômica de um país, medida pela variação do PIB de um trimestre sobre o período imediatamente anterior, registra duas quedas seguidas

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2020 | 09h13

RIO - Além de recorde histórico negativo, o tombo de 9,7% do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre, na comparação com os três primeiros meses do ano, marcou o segundo trimestre seguido de retração. A economia está, portanto, em “recessão técnica”, mas, antes mesmo de o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgar os dados, o Codace, comitê independente da Fundação Getulio Vargas (FGV) que se dedica a marcar os ciclos da economia, já havia registrado o início de uma recessão no primeiro trimestre.

É uma situação atípica, mas os impactos da pandemia de covid-19 logo mostraram que a economia entrou em recessão. Normalmente, os órgãos econômicos independentes que analisam ciclos, como o Codace/FGV, no Brasil, ou o NBER, nos Estados Unidos, levam mais tempo para datar o início das recessões.

O que é recessão técnica

Por causa dessa demora, em análises de conjuntura de curto prazo, os economistas lançam mão da ideia de “recessão técnica”. A definição é simples: é a situação em que a atividade econômica, medida pela variação do PIB de um trimestre sobre o período imediatamente anterior, registra duas quedas seguidas. Só que o termo passa longe dos estudos acadêmicos da teoria econômica e não é encarado como um conceito por pesquisadores.

O que é recessão

A teoria econômica usa o conceito de “recessão”. Segundo o economista Paulo Sandroni, no Novíssimo Dicionário de Economia, recessão é a “conjuntura de declínio da atividade econômica, caracterizada por queda da produção, aumento do desemprego, diminuição da taxa de lucros e crescimento dos índices de falências e concordatas”.

Para o Codace, é “um período de queda generalizada na atividade econômica, com efeitos negativos sobre a maioria dos setores e pessoas em uma economia”, de acordo com Paulo Picchetti, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV e um dos membros do comitê independente.

O NBER define “recessão” como o período entre um “pico” (nível máximo antes de começar a cair) e um “vale” (nível mínimo antes de começar a subir) no ciclo da atividade econômica. Em seu site, o instituto privado, fundado em 1920, informa que não usa a regra das duas quedas trimestrais do PIB para determinar recessões porque considera outros indicadores, como a renda real, emprego, dados mensais e a profundidade da queda na atividade.

Então, da onde vem a ideia de “recessão técnica”? Tudo começa com uma tentativa, de economistas americanos, de identificar quando começa uma recessão - sem esperar pela análise mais cuidadosa, e demorada, de comitês como o Codace e o NBER.

A origem do termo estaria num artigo de 1974, de Julius Shiskin, que foi economista-chefe do Escritório do Censo dos Estados Unidos e professor da Universidade Rutgers, sustentam os economistas Lakshman Achuthan e Anirvan Banerji, cofundadores do Instituto de Pesquisa do Ciclo Econômico (ECRI, na sigla em inglês), em artigo de maio de 2008, publicado no site CNN Money.

Para Achuthan e Banerji, a caracterização de recessões como dois trimestres de queda no PIB é uma “ideia simplista”. O texto de Shiskin, publicado no jornal The New York Times, oferece uma lista de condições que “quase qualquer um pode usar” para definir uma recessão econômica. A primeira condição da lista é justamente registrar duas quedas trimestrais no PIB. Shiskin cita ainda o tamanho da queda no emprego não agrícola e a difusão dessa queda por diferentes setores, mas “ao longo dos anos o resto das regras de alguma forma foi deixado de lado, sobrando apenas a ‘dois trimestres de PIB em queda’”, escrevem Achuthan e Banerji. Para eles, a lista de Shiskin é uma “regra de bolso” e, como tal, “está longe de ser perfeita”.

Tanto o artigo de 1974 quanto o de 2008 foram escritos em momentos em que informações conjunturais da economia americana sugeriam que uma recessão estava em curso - todos se preocupavam em confirmar a ocorrência. Assim, usar a classificação da “recessão técnica” ajuda a dar uma reposta mais rapidamente.

A crise provocada pela covid-19 é diferente, porque não há dificuldade em determinar o início da recessão nas economias de todo o mundo, que pararam por causa da pandemia. A decisão do Codace/FGV de anunciar a recessão antes mesmo de termos os dados oficiais do segundo trimestre se seguiu a movimento semelhante do NBER, que, três semanas antes do comitê brasileiro, soltou comunicado registrando o início de uma recessão nos Estados Unidos em março.

Se foi fácil apontar quando a recessão da covid-19 começou, não basta que a economia volte a crescer para que um País saia do ciclo recessivo. O ineditismo da crise causada pela pandemia é tamanho que, provavelmente, o PIB do terceiro trimestre registrará avanço também recorde, na comparação com o segundo trimestre. Na média, economistas do mercado esperam alta de 5,35% no PIB do terceiro trimestre, conforme pesquisa do Projeções Broadcast feita antes da divulgação dos dados nesta terça-feira, 1º. Se confirmada, será a maior alta da série histórica do IBGE, iniciada em 1996, mas, provavelmente, será insuficiente para recuperar as perdas já registradas, diz Pichetti, membro do Codace/FGV.

“A recuperação pode até parecer rápida, mas será um efeito estatístico. Quando olhamos de tendência, a economia vai estar voltando muito lentamente”, afirma Pichetti.

Por isso, segundo o pesquisador, não será fácil determinar o fim da atual recessão. O Codace/FGV deverá esperar por mais dados, talvez para além do fechamento do ano, para ter mais certeza sobre a firmeza da recuperação.

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