JF Diório/Estadão
JF Diório/Estadão

Entenda por que a sua inflação é diferente da do IBGE

Perfil de consumo e região onde consumidor mora influenciam na variação de preços do orçamento individual

Anna Carolina Papp, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2018 | 09h44

Depois de bater dois dígitos em 2015, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) vem, nos últimos anos, caminhando numa trajetória de expressiva desaceleração.  Você, porém, pode se perguntar por que muitas vezes não sente esse alívio no bolso. Como isso é possível?

Isso acontece porque a inflação, que nada mais é do que a variação de preços, não é igual para todo mundo. Cada um tem a própria variação de preços, de acordo com o perfil de consumo e até da região em que habita.

Para calcular o IPCA, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) monta uma cesta com cerca de 450 produtos e serviços, com itens de alimentação, habitação, vestuário, saúde, transportes, entre outros. Logo, é muito difícil que a inflação individual bata exatamente com a oficial - isso porque, além de  levar em consideração quais itens compõem a cesta de produtos de uma família, é preciso avaliar quais deles pesam mais no orçamento mensal.

Gastos de cada um

Uma família com crianças, por exemplo, comprometerá uma parte maior do orçamento com mensalidade escolar; já um casal de idosos desembolsa mais com medicamentos. Quem mora próximo ao trabalho gasta muito menos com transporte do que quem tem de atravessar a cidade todo dia. 

Assim, a inflação diverge muito por estilo de vid a– que, por sua vez, está intrinsecamente relacionado ao perfil de renda. Por isso, há índices diferentes que tentam captar essas nuances.

A inflação dos mais pobres

O Índice de Preços ao Consumidor - Classe 1 (IPC-C1), calculado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mede a variação de preços de uma cesta de produtos e serviços  para  famílias com renda mensal entre 1 e 2,5 salários mínimos (de R$ 954 a R$ 2.385).

A FGV identifica o perfil de consumo das famílias com menor poder aquisitivo  por meio de pesquisas de orçamentos familiares e, a partir disso, dá peso maior no indicador aos produtos mais comprados por elas.

"As famílias mais pobres gastam muito mais com alimentos, pois gasta-se mais com subsistência, já que a renda limitada não permite diversificação da cesta", explica André Braz, pesquisador do Ibre/FGV.

Exemplo: em julho de 2017, o IPC-C1 teve alta de 0,25% – abaixo do observado em junho, quando houve avanço de 1,52%. O dado, porém, ficou acima do IPC-Br, que seria a "inflação oficial" medida pela FGV. Ou seja: os preços subiram no mês para toda a população, mas subiram mais entre os mais pobres.

Os itens que pesaram mais no orçamento dessas famílias foram conta de luz (5,75%) e leite longa vida (10,04%). Já os alimentos, que em junho haviam disparado por causa da greve dos caminhoneiros, em julho desaceleram e trouxeram alívio no bolso. O preço da cebola, por exemplo, recuou quase 40%; já o do tomate caiu 25%.

 

Inflação por faixa de renda

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) também faz um recorte por diferentes perfis no Indicador Ipea de Inflação por Faixa de Renda.

Em junho de 2017, por exemplo impacto da greve dos caminhoneiros sobre os preços dos alimentos penalizou as classes mais pobres da população. As famílias de renda muito baixa tiveram inflação de 1,5% – mais que o triplo da observada em maio. No caso das famílias mais ricas, também houve aceleração da inflação em junho, menor (1,03%).

"Além da greve dos caminhoneiros, que teve um impacto direto no preço dos alimentos, também temos uma pressão dos efeitos do câmbio, o que também afeta mais o custo de vida do mais pobre", observa Braz.

 

Ele explica que, quando o dólar sobe, aumenta o preço das rações animais, compostas por itens como soja, uma commodity  cotada em dólar – o que faz aumentar o preço das proteínas, como o frango, por exemplo.  Também aumento o preço do trigo, que é importado, encarecendo pães, biscoitos, entre outros.

Além dos alimentos, os reajustes nas tarifas de energia também pesaram no bolso das famílias mais pobres.  Nas camadas mais altas da população, a pressão adicional veio do preço dos combustíveis.

"Enquanto as famílias de renda mais baixa gastam, aproximadamente, 23% do seu orçamento com alimentos no domicílio, e 6% com energia elétrica, as mais ricas despendem, respectivamente, 10% e 2%", observa Maria Andréia Parente Lameiras, técnica do Ipea. "No caso dos combustíveis, entretanto, observa-se o contrário: os mais pobres comprometem 2%  do seu orçamento com este item, e os mais ricos, 8%", diz.

Desaceleração

No acumulado de 2017 até junho, porém, a inflação de baixa renda manteve uma trajetória de alta menos acentuada que outras classes.  No ano, acumula alta de 2,49%, ante 2,78% da alta renda. Já em 12 meses avançou 3,44% ante 4,99% nas famílias de maior poder aquisitivo.

"Essa desaceleração vem acontecendo porque, em 2017 e 2018, a oferta de alimentos foi muito regular, diferentemente do que a gente viu em 2015 e 2016. Não houve quebra de safra, por exemplo, o que ajudou a manter mais baixos os preços dos alimentos", explica Braz. 

"A grande preocupação agora é com a questão cambial: a alta do dólar pode queimar a gordura que a gente acumulou, voltando a prejudicar aqueles que não tem proteção: os mais pobres."

 

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