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Entidades criticam 'currículo engessado'

Confederações da indústria e conselho de engenheiros defendem mudanças no ensino

LILIAN PRIMI, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2013 | 02h09

O ritmo do desenvolvimento tecnológico cria novos desafios ao mercado de engenharia, seja no campo da formação ou no da produção. Segundo o presidente da Confederação Nacional de Engenharia (Confea), José Tadeu da Silva, hoje existem mais de 300 títulos de engenharia, um número que tende a crescer nos próximos anos.

"A expectativa do mercado mundial é de que as dez engenharias que serão essenciais daqui a dez anos ainda não foram criadas", diz. Ele conta que a expectativa estratégica do Japão, que exporta inovação, é de que em 2030, 60% do PIB virão de produtos que hoje ainda não foram inventados.

"Esse cenário não aceita um currículo engessado como o nosso. É preciso flexibilizá-lo", argumenta. No que é seguido pelo diretor de inovação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Paulo Mol.

A proposta em discussão, oferecida tanto pela indústria quanto pelo Confea, é criar uma matriz única, que pode ser complementada por uma eleição de disciplinas feitas pelo próprio aluno, de acordo com á área de interesse e as competências que deseja obter.

A vice-diretora do Centro de Ciências Exatas e Tecnologia da Universidade Federal de São Carlos (UFScar), Sheyla Mara Baptista Serra, diz que todos os cursos de engenharia do País foram revisados em 2005, para redistribuição das disciplinas básicas e inclusão de programas práticos nos primeiros anos. "Atendemos à sugestão dos próprios alunos, mas alguns professores acham que falta maturidade de aprendizado", afirma.

A Escola Politécnica da USP também passa por mudanças profundas no currículo de seus cursos, que deverão facilitar o trânsito dos alunos pelas diversas modalidades da engenharia, formando profissionais mais generalistas e um pouco menos especialistas. A nova grade valerá a partir do próximo ano e será implementada aos poucos.

Formado em engenharia de mineração pela Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e hoje trainee da Vale Fertilizantes no complexo mineroquímico de Araxá (MG), Frederic Yann Armache Braga, de 23 anos, pensa que as flexibilizações propostas pelo Confea podem ser úteis para tornar os dois primeiros anos mais atraentes. Mas ele tem objeções.

"É realmente maçante essa fase, mas acredito que seja necessária. Não tanto por conta do necessário embasamento teórico, mas para garantir o amadurecimento do estudante", diz.

Após a maratona dos dois primeiros anos, segundo Braga, o estudante consegue absorver o conhecimento de forma mais rápida e aprende a estudar.

Matemática. O fraco ensino de matemática nos ciclos fundamental e médio é a principal causa apontada para evasão - outro grande problema dos cursos de engenharia. E as universidades já trabalham para resolver a questão, dando reforços e trazendo matérias mais básicas para os primeiros anos.

Braga conta que dos 25 alunos que iniciaram o curso com ele na Ufop, apenas 16 se formaram. "Um índice considerado bom. Geralmente, a evasão é maior." Segundo ele, muitos de seus colegas realmente chegaram à universidade sem conhecimentos básicos.

"Há grande diferença na bagagem que cada um tem. Tive sorte, porque meu professor de matemática era também meu tio, muito bom e muito próximo", conta. Outra causa da evasão é o financiamento do período de estudo, longo no caso da engenharia e sem possibilidade de se conciliar trabalho e estudo como ocorre com outras carreiras.

"Estamos testando a concessão de bolsas de estudo, para financiar alunos que não têm condições financeiras para bancar o curso de graduação", diz Mol.

Ele conta que há quem defenda o mesmo processo dos cursos de medicina, que preveem um período de residência, para os estudantes aplicarem, sob supervisão, o que aprenderam . "Muitas vezes os engenheiros chegam às indústria imaturos e com dificuldades de se adaptar ao ambiente funcional."

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