REUTERS/Kevin Lamarque
REUTERS/Kevin Lamarque

Entidades globais se unem para frear avanço de protecionismo de Trump

Pressionados, FMI, OMC e Banco Mundial lançam defesa pela abertura de mercados, mas admitem que liberalismo precisa ser acompanhado por políticas sociais, garantias de renda e treinamento

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2017 | 15h47

GENEBRA - Depois de 20 anos de um discurso aparentemente unânime entre os países ricos sobre a necessidade de uma abertura comercial como forma de garantir maior renda e competitividade a uma economia, o FMI, Banco Mundial e a OMC são obrigados a se unirem para tentar frear o discurso protecionista de Donald Trump e em outros países desenvolvidos. O temor é de que, se a onda protecionista ganhar terreno, é a própria recuperação da economia mundial que pode estar ameaçada. 

Pressionados por uma retórica anti-comércio e eleições onde a insatisfação popular tem sido atendida por populistas, as três entidades publicam nesta segunda-feira um raro documento comum em que reconhecem os problemas e que, de fato, "o comércio deixou muitos indivíduos e comunidades para trás". Mas alertam que não será fechando fronteiras que as dificuldades serão solucionadas e que, de fato, foi o comércio que alavancou o crescimento global por décadas.

Nos EUA, Donald Trump venceu as eleições atacando o livre comércio e prometendo dar uma resposta à parcela da população "esquecida" pela globalização. No Reino Unido, parte dos eleitores que apoiaram o Brexit também justificaram a decisão por conta da abertura "indiscriminada" das fronteiras, enquanto grupos de extrema-direita pela França, Holanda e Alemanha insistem que, se chegarem ao poder, vão rever as regras comerciais. Por décadas, o receituário dessas mesmas entidades era questionado por ongs e protestos a cada reunião ministerial. 

Mas foi a chegada ao poder de grupos que abertamente falam em fechar as fronteiras que levou o FMI, OMC e Banco Mundial a tentar esclarecer que, se o comércio pode gerar prejuízos, erguer barreiras não os vai solucionar. Ou seja, a receita proposta por Trump apenas vai aprofundar a crise para esses grupos.

"O comércio é um instrumento poderoso para aumentar o crescimento e melhorar os padrões de vida. Ele tem sido um dos motivos da prosperidade", disse Christine Lagarde, gerente do FMI, num evento nesta segunda-feira em Berlim. 

O local para o lançamento não é um acidente. A Alemanha de Angela Merkel tem se apresentado como a maior resistente de que políticas protecionistas e espera usar sua presidência no G-20 para frear o avanço dessa retórica.

Se as entidades estimam que a tecnologia é a real responsável por perdas em certos setores, o avanço da onda protecionista também obrigou as entidades a calibrarem seus discursos. "Os ajustes ao comércio podem trazer perdas humanas e econômicas", indicaram, apontam que, em algumas situações, esses efeitos são "duros" e "prolongados".

"O comércio tem impactado de forma negativa grupos de trabalhadores e algumas comunidades", diz o texto. "Evidências recentes sobre o efeito da concorrência da importação em empregos industriais em certos lugares da Europa e EUA demonstram quão duro tais impactos podem ser na ausência de outras políticas", alerta, indicando que os efeitos negativos não dependem apenas da abertura, mas também da saúde da economia, regras do mercado de trabalho e políticas de proteção social.

"Está claro que algumas partes do mundo sofreram o impacto da competição de importações", disse. "Isso exige uma resposta de políticas, mas uma resposta que também reconheça que o comércio é apenas um dos fatores contribuindo para mudanças econômicas, ao lado de tecnologia e inovação", defendez

Social - Para o FMI, OMC e Banco Mundial, os danos da abertura podem ser revertidos com políticas sociais que possam permitir que os setores afetados não sejam abandonados, garantia de renda para os desempregados e salário para "estabilizar famílias de trabalhadores no curto prazo até que aqueles quer perderam seus empregos possam voltar ao trabalho". 

 "Uma política trabalhista ativa podem ter um papel importante", indicou. Tais medidas teriam de incluir o treinamento de milhões de pessoas para que possam atuar em novas áreas, além de flexibilidade e ainda um sistema de proteção social. Outra medidida solicitada é a de usar o sistema de educação dos países para "preparar trabalhadores para demandas que possam mudar". "Medidas que visem comunidades duramente afetadas podem também ser avaliadas", disse. 

"Lidar com essas comunidades de uma forma rápida e compreensível é crítico, já que os efeitos podem ser enraizados nos grupos, levando a resultados ainda mais duros e prolongados", admitiu. 

As entidades também defendem a maior integração no mercado global de setores como a agricultura, além de serviços e comércio digital. "Para o futuro, mitigar custos dos ajustes comerciais precisa ser uma parte integral das reformas comerciais para evitar soluções sociais e econômicas caras", indicou.

Ganhos. Apesar do reconhecimento, as entidades insistem que foi a abertura comercial que trouxe maior produtividade, maior concorrência, preços menos e melhoria no padrão de vida de milhões de pessoas. "Estima-se que o comércio reduziu em dois terços o preço da cesta de consumo de uma família de renda baixa nos países ricos", disse, apontando inclusive para ganhos sociais.  

Para provar os ganhos gerados pelo comércio, o estudo aponta o caso do Brasil. "As reformas comerciais no Brasil entre 1988 e 1990 trouxeram uma melhoria de produtividade ampla e generalizada entre as empresas", indicou. Segundo o documento, a produtividade teria aumentado em 6%, algo similar no setor laboral. 

Mas, caso políticas complementarem tivessem sido adotadas para permitir uma maior mobilidade de capital, a realocação do mercado de trabalho depois da liberalização comercial teria ocorrido em quatro anos. E não 14 anos, como acabou ocorrendo.   

 "O desafio diante de nós é o de apoio os trabalhadores de hoje e treinar aqueles de amanhã, enquanto temos de garantir um sistema comercial mais inclusivo", disse o diretor-geral da OMC, Roberto Azevêdo.

"O comércio tem tido um impacto muito positivo na vida de milhões de pessoas em décadas recentes. Eu reconheço que existem preocupações muito reais. Mas a resposta não é a de lutar contra o comércio, o que nos afetaria a todos", defendeu. 

"O comércio precisa ser parte da solução e precisamos garantir que os benefícios cheguem a um número maior de pessoas", disse. De acordo com o brasileiro, se colocado dentro de um pacote de políticas, o comércio "continuará a criar empregos".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.