REUTERS/Adriano Machado
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Entidades pedem que mulheres sejam indicadas para vagas no Cade

No total, seis vagas serão abertas no órgão neste ano, duas delas após a saída de conselheiras mulheres, mas nenhum nome feminino aparece entre os cotados até agora

Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2019 | 15h28

BRASÍLIA - Entidades que representam mulheres na área de comércio internacional e concorrência enviaram uma carta ao presidente Jair Bolsonaro e a ministros e parlamentares pedindo que profissionais mulheres sejam consideradas para as vagas abertas no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade)

A carta foi escrita depois de o Estadão/Broadcast publicar no último domingo, 12, que o presidente considera os nomes dos economistas Pedro Florencio, Fernando Meneguin e Guilherme Resende, do advogado Marcos Gleich e do procurador de Justiça Arnaldo Hossepian, para vagas abertas no Cade. 

No total, seis vagas serão abertas no órgão neste ano, duas delas após a saída de conselheiras mulheres, mas nenhum nome feminino aparece entre os cotados até agora. Sem quórum para julgamentos, o conselho tem hoje apenas três integrantes, sendo uma mulher, a conselheira Paula Farani Azevedo.

“Observa-se uma elevada prevalência da iniquidade de gênero no órgão. De fato, apesar do largo quadro de mulheres profissionais que se especializaram na matéria nos últimos anos, o CADE só teve uma presidente e 10 conselheiras desde sua criação em 1962”, afirma o documento.

A carta foi assinada pelas associações Women Inside Trade e Women in Antitrust e por profissionais mulheres como advogadas, professoras, diplomatas e funcionárias de organismos internacionais e dos setores público e privado.

Além de Bolsonaro, receberam o documento os ministros da Economia, Paulo Guedes, da Justiça, Sérgio Moro, e os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP) e da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM - RJ), além de outros parlamentares.

A presidente do Women Inside Trade, Renata Vargas Amaral, diz ter “convicção” de que há nomes de mulheres capacitadas para os cargos. “Não há razão para a lista do presidente Bolsonaro contar apenas com nomes masculinos para os postos a serem ocupados”, afirmou.

Primeira e única presidente mulher a ocupar a presidência do Cade, a diretora-presidente da Tendências Consultoria, Elizabeth Farina, lembra que existem várias mulheres atuando na área de economia e direito e que o governo não pode partir de indicações masculinas automaticamente.

“Para as indicações, é muito importante considerar essa diversidade. Não é porque a mulher é melhor ou pior, é relevante ter uma cultura que dê espaço para mulheres e homens, com suas capacidades e características diferentes. Você perde isso quando canaliza tudo apenas para homens”, disse.

A ex-conselheira do Cade, Polyanna Vilanova, que deixou o órgão em julho, também reforçou que um ambiente heterogêneo é primordial para desenvolver a área da concorrência. “Tenho certeza que as indicações para as vagas abertas no Cade serão estritamente técnicas, o que me leva a crer ser impensável não considerar as brilhantes mulheres em atividade no antitruste para a ocupação de, no mínimo, umas das vagas”, ressaltou.

A secretária de Fazenda do Estado de Goiás, Cristiane Alkmin, que era conselheira do Cade até janeiro, disse que não ver razão para a diversidade que havia no órgão até o ano passado, quando havia três conselheiras mulheres em um tribunal de sete integrantes, não continuar. “Há tanto mulheres competentes como homens no setor antitruste brasileiro, que tem uma diversidade de economistas e advogadas que certamente poderiam honrar o cargo”, completou.

As ex-conselheiras do Cade, Leonor Clodovil e Lúcia Helena Salgado também defenderam a indicação de mulheres. Fundadora do Women in Antitrust, Leonor disse ter ficado “bastante espantada” por não haver nomes femininos entre os cotados. Segundo estimativas da entidade, a maioria dos postos de trabalho na área da concorrência é preenchida por mulheres. “Não é possível que o governo não tenha conseguindo encontrar representantes femininas”, afirmou.

 “As mulheres já são maioria entre as universitárias e respondem em média pelas melhores notas. No entanto, a ascensão a cargos de comando e decisão enfrenta barreiras que só a vocalização do problema abre caminhos para supera-lo”, completou Lúcia.

Para a presidente da Comissão da Concorrência da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ana Malard, é “curiosa” a ausência de nomes femininos no rol de cogitados. “Se é verdade que o Governo Federal contemplará nomes técnicos para preencher essas vagas, não há dúvidas que sobram mulheres extremamente capacitadas para os cargos. Somos muitas em posição de destaque, nos escritórios de advocacia, nos órgãos do governo e mesmo nas salas de aulas”, concluiu. (colaborou Beatriz Bulla)

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