Entre a marolinha e o tsunami

O IBGE revelou que no 2º trimestre de 2009 o PIB brasileiro, embora ainda 1,2% inferior ao do mesmo período de 2008, avançou 1,9% sobre o 1º trimestre, já descontada a sazonalidade. Com efeito, pelo critério mais simples - que define a chamada recessão "técnica" como um período com pelo menos duas quedas consecutivas do PIB em termos dessazonalizados - o Brasil superou o fundo do poço. Vale lembrar que o produto brasileiro havia sofrido um tombo de 3,4% na passagem do 3º para o 4º trimestre de 2008 - a maior retração trimestral desde o 2º trimestre de 1990 - e encolheu mais 1% no 1º trimestre deste ano (sobre o 4º trimestre).

Bráulio Borges *, O Estadao de S.Paulo

12 de setembro de 2009 | 00h00

O crescimento robusto do PIB no 2º trimestre foi puxado principalmente pelo Consumo das Famílias (que abrange tanto a aquisição de bens quanto de serviços), componente responsável por 60,7% do PIB (sob a ótica da demanda) e, ao avançar 2,1% do 1º para o 2º trimestre, registrou a maior variação trimestral desde o 4º trimestre de 2007. A evolução do consumo não foi reflexo apenas das isenções fiscais anunciadas pelo governo (como a redução do IPI para automóveis e linha branca). Refletiu também a recuperação da confiança dos consumidores (calcada, por sua vez, na estabilização e mesmo na melhora mais recente do mercado de trabalho) e a normalização da oferta de crédito ao consumo (com redução das taxas de juros e ampliação dos prazos de financiamento). Essa última, vale lembrar, foi capitaneada pelos bancos públicos (pois apenas mais recentemente os bancos privados voltaram para o "jogo" do crédito).

Mas os dados do PIB recém-divulgados refletem uma situação que já se encontra no retrovisor. Com estaria andando a economia neste 3º trimestre? Com base na evolução de vários indicadores já conhecidos (como confiança de consumidores e empresários, vendas de veículos, consumo de energia elétrica, dentre outros), a LCA estima que o PIB brasileiro esteja se expandindo entre 2% e 3% neste trimestre corrente, na comparação com o 2º trimestre. Caso essa avaliação se confirme, o PIB brasileiro terá retornado, neste 3º trimestre de 2009, para o nível observado no 3º trimestre de 2008 (anterior ao aprofundamento da crise financeira internacional, em meados de setembro).

Assim, quatro trimestres depois, a economia brasileira como um todo estaria de volta ao "ponto de partida". Trata-se de uma recuperação bastante rápida (embora ainda muito heterogênea), especialmente quando se constata que nas recessões vivenciadas pelo Brasil desde 1980 o tempo médio para retornar ao nível anterior à crise foi de cerca de sete trimestres (levando em conta a datação de ciclos econômicos do Codace/FGV).

Essa trajetória é ainda mais notável diante da severidade do quadro econômico nas principais economias desenvolvidas, para as quais a recessão atual é a pior desde a Grande Depressão iniciada em 1929 (e para as quais não se espera um retorno para níveis anteriores à crise antes de 2011). Portanto, a crise atual não chegou a ser uma marolinha para a economia brasileira, mas passou longe de ser um tsunami como alguns analistas chegaram a prever. Nesse quadro, depois de registrar crescimento ligeiramente positivo em 2009, o PIB brasileiro deverá avançar cerca de 5% já em 2010.

*Bráulio Borges é economista-chefe LCA Consultores

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