Entre choques e tropeços

Análise: André Guilherme Pereira Perfeito

É ECONOMISTA-CHEFE DA GRADUAL INVESTIMENTOS, O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2012 | 02h06

Reza o dito popular que quem ri por último ri melhor, mas num mundo que insiste em não acabar - apesar de secas, furacões e hecatombes financeiras - fica difícil saber quem ri melhor. Nos últimos meses, a relação entre o Banco Central e parte dos economistas do mercado financeiro não foi fácil e a queda recente do IGP-M fez a roda da fortuna girar mais uma vez, desta vez em favor da autoridade monetária.

A tese do BC era que a inflação recente, que fez o IPCA parar de convergir à meta desde junho, era resultado de um choque de oferta localizada em alimentos. De fato as commodities tiveram um salto expressivo de junho até começo de setembro, acumulando alta de 20% (81% em termos anualizados). No caso da soja, a alta no mesmo período foi de 40%, o que dá um choque de 264% em termos anualizados. E não para por aí: o trigo subiu em apenas um mês 45%, algo como 4.931% em termos anualizados.

Num país em que nem o nosso onde o sistema de metas de inflação é seguido mecanicamente por parte do mercado, a combinação de preços em alta e corte de juros foi fatal para a reputação do Banco Central. As expectativas de inflação para os próximos 12 meses dispararam a partir de junho. Era um recado claro do mercado para o BC: não brinquem com a inflação.

No entanto, contra choques não há argumentos. Após meses pressionando o BC os mesmos economistas foram forçados a refazer as suas contas ante as evidências e alteraram seus prognósticos de inflação para daqui um ano. O tropeço nas expectativas foi grande e hoje se espera para daqui a 12 meses menos do que era projetado antes do choque.

A beleza e força do sistema de metas é justamente a liberdade da política monetária ante choques, algo que ainda não foi incorporado plenamente à mentalidade do mercado financeiro brasileiro. Hoje parte dos investidores começa a se perguntar se não seria o caso de o Copom cortar mais 25 pontos-base da Selic. Interessante...

Para além dessa guerra particular entre BC e mercado pelo consenso, há algo ainda mais preocupante no cenário de curto prazo que impacta fortemente a inflação e os juros. As economias centrais seguem paradas e os desafios fiscais na Europa, EUA e Japão devem se agravar.

Por aqui o investimento não decola e os empresários somam prejuízos no "carrego" dos trabalhadores. Levando em conta os desafios da economia global e o diferencial de juros, a discussão sobre inflação e Selic torna-se um pouco surrealista. O mundo segue desacelerando, e por aqui seguimos entre choques e tropeços.

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