Entre expectativas e realidade

Se o novo governo persistir na trajetória de reformas e o cenário externo se acalmar, 2019 promete

José Márcio Camargo*, O Estado de S.Paulo

10 Novembro 2018 | 04h00

Com taxas de inflação historicamente baixas e taxas de juros nos níveis mais baixos da história recente, o ano de 2018 começou com otimismo em relação ao desempenho da economia brasileira. No boletim Focus, do Banco Central, a estimativa média dos analistas era de crescimento de 3,0% em 2018. Passados dez meses, está claro que essas estimativas estavam excessivamente otimistas. A economia brasileira deverá crescer entre 1,0% e 1,5% em 2018. Por que o erro?

Muitas vezes, as expectativas não consideram fatores inesperados e de difícil previsão. E estes fatores foram extremamente importantes em 2018. Nos últimos 12 meses, o País sofreu um conjunto de choques exógenos de grande intensidade. A taxa de câmbio desvalorizou 29%, o preço da energia elétrica aumentou 20,5%, o preço do óleo diesel e o da gasolina subiram, respectivamente, 12,5% e 20%, os preços do petróleo no mercado internacional dispararam 30% e uma greve dos caminhoneiros paralisou o Brasil durante 15 dias. No cenário internacional, o banco central norte-americano (Fed) começou a aumentar as taxas de juros e os Estados Unidos e a China iniciaram uma guerra comercial que já começa a gerar inflação nos Estados Unidos e desaceleração na China.

Como resultado disso tudo, a taxa de inflação dos preços administrados atingiu 10,38%. Entretanto, a inflação dos preços livres se manteve sob controle (2,58%) e a inflação de serviços permaneceu em queda, estando hoje abaixo de 3,0% ao ano. Ou seja, os choques não tiveram qualquer efeito sobre os preços dos produtos não diretamente a eles relacionados.

O fato de, neste ambiente desafiador, a economia brasileira ter mantido a trajetória de crescimento com redução do desemprego e a taxa de inflação sob controle, sem o Banco Central aumentar a taxa de juros, indica uma economia muito mais forte do que no passado.

Os elevados níveis de ociosidade e de desemprego ajudam no controle da inflação. Mas isso não é tudo. Várias reformas foram implementadas e foram fundamentais para atingir esses objetivos. Entre elas, posso destacar:

l a dívida pública hoje é denominada em reais, e não em dólares, o que evita que uma desvalorização cambial se transforme em choque fiscal;

l a Emenda Constitucional n.º 95 criou o teto para o crescimento do gasto público e diminuiu a incerteza quanto ao comportamento da dívida pública;

l a substituição da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) pela Taxa de Longo Prazo (TLP) inverteu a relação entre a taxa de juros real dos empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a taxa de inflação, que era negativa para positiva, e transformou o BNDES de inimigo em parceiro do Banco Central no combate à inflação;

l a liberalização da terceirização está reduzindo os custos de produção e a reforma trabalhista está diminuindo o número e o valor das demandas trabalhistas e o custo do trabalho, além de ter criado opções de ajustes tais como o banco de horas individual, o contrato intermitente, a demissão negociada, em suma, um conjunto de possibilidades que, ao gerar incerteza quanto à forma como as empresas vão reagir aos choques – se aumentando preços, reduzindo custos ou racionalizando a produção –, reduziram o poder de repasse dos aumentos de custos para os preços.

Se levarmos em consideração a intensidade dos choques, o desempenho da economia brasileira foi surpreendentemente bom. As reformas implementadas nos últimos dois anos tiveram efeitos bastante positivos. Se o novo governo persistir na trajetória de reformas (em especial, mas não apenas, a reforma da Previdência) e o cenário externo se acalmar (essa é a incógnita), pode-se esperar um ambiente bastante favorável em 2019, com inflação e juros ainda mais baixos do que os atuais. 2019 promete!

*PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC/RIO, É ECONOMISTA DA GENIAL INVESTIMENTOS

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