Entre o desafio do micro e o valor macro

Nas organizações atuais, com estrutura enxuta de mão de mão de obra, limites entre especialistas e generalistas se tornam mais tênues

GUSTAVO COLTRI, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2014 | 02h12

Depois da era dos profissionais generalistas promovida pelo enxugamento de mão de obra nas organizações há alguns, o cenário voltou a ser favorável para os trabalhadores especialistas, graças à conquista de importância das atividades técnicas no País. Hoje, de acordo com profissionais da área de recursos humanos, os limites entre esses dois referenciais nas carreiras se tornaram mais difusos.

"Mesmo em posições de especialista, hoje as organizações são muito enxutas, e existe a expectativa de que o colaborador tenha consciência do impacto das atividades que faz", diz o coordenador do Curso de Especialização em Administração para Graduados (CEAG) da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Eaesp), Renato Guimarães Ferreira.

Por outro lado, a responsabilidade dos generalistas - em geral, posicionados em cargos de gestão e gerenciamento - cresceu, na avaliação de Ferreira, exigindo dos profissionais cada vez mais um conhecimento multidisciplinar. "Nossas organizações não comportam amadores. Eu sempre brinco que o generalista é um tipo de especialista. O CEO, lá em cima, tem de conhecer muito bem todas as áreas para tomar decisões."

O professor ressalta que ter consciência da identidade profissional, incluindo as melhores qualidades e os principais desejos, é importante para os jovens delinearem suas trajetórias. Em uma entrevista de emprego, o trabalhador conhecedor de sua essência saberia, por exemplo, explicar muito bem onde pretende chegar.

Hoje, muitas empresas adotam o conceito de carreira em "Y" nos seus planos de desenvolvimento de pessoal. Nele, os trabalhadores podem escolher, em um determinado ponto de ascensão na hierarquia organizacional, entre migrar para os cargos de liderança, que exigem, por exemplo, grande necessidade de trato com as pessoas, ou aprofundar a qualificação em uma determinada área, adotando uma posição complementar na companhia (veja mais no texto ao lado).

O papel acessório dos profissionais especializados na gestão cotidiana das organização pode levá-los para atuações independentes, na opinião de Sérgio Monaco, sócio diretor da Blend Consultoria. Dessa forma, a opção por uma carreira mais voltada às expertises seria bastante compatível com a atuação como uma espécie de consultor terceirizado. O desafio dessa alternativa é se manter sempre na dianteira do conhecimento específico.

Dentro das empresas, as remunerações máximas normalmente são maiores entre os generalistas do que entre os especialistas, embora essa condição varie de acordo com a característica do negócio, segundo Josué Bressane Júnior, sócio diretor da Gemte Consulting. "De maneira geral, o topo do especialista não será tão alto quanto de um CEO porque o executivo tem mais responsabilidades".

Para a maior parte das organizações, de acordo com Bressane Júnior, as tendências generalistas predominam. À medida que o conhecimento técnico se faz necessário, os profissionais especializados tendem a ter mais espaço de atuação. "Podemos dizer que uma empresa do varejo tende a ter mais generalista do que uma indústria."

Bruno Maranhão, de 35 anos, conhece as dificuldades de cada um dos lados. Formado em direito, ele se aprofundou no início da carreira como consultor empresarial da área tributária em fusões e aquisições. "Na verdade, era mais específico. Trabalhava só com impostos indiretos."

A migração para o time dos generalistas, no caso dele, tem raízes na vida pessoal. Em 2006, Maranhão fez intercâmbio no Canadá, onde conheceu uma argentina que viria a ser sua mulher. No ano seguinte, ele pediu demissão da companhia onde trabalhava e partiu para viver no país vizinho.

No fim do ano, em uma visita à família, uma nova oportunidade surgiu e determinou o seu retorno ao Brasil. "Meu pai era gerente de uma fábrica de fios e cabos elétricos. Soube, por um amigo dele, que muitas empresas estavam com dificuldades na área tributária por contra da nota fiscal eletrônica e da substituição tributária." Daí surgiu a ideia de trabalhar como consultor de companhias do setor.

Em agosto de 2009, um de seus clientes deu a ele um novo desafio: chefiar o processo de profissionalização de uma empresa de distribuição de material elétrico, na época ainda com característica familiar.

"Tive de aprender outras habilidades e fiz um MBA em logística." Hoje, ele é responsável por cerca de 280 funcionários como superintendente administrativo financeiro do grupo e deseja chegar à posição de CEO. "O maior desafio do generalista é ter visão sistêmica do negócio e do mercado, porque ele toma decisões de planejamento com informações que tem na hora. Como especialista, é preciso saber muito bem sobre o que se faz e sobre o mercado. Quando o cliente contrata um, é isso o que ele procura."

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