Entre o espelho e o marqueteiro

Fevereiro vem impondo duro choque de realidade a quem ainda não se dera conta da extensão do despreparo da presidente Dilma para enfrentar a grave conjunção de crises com que se depara. Na esteira de uma atuação espantosamente desastrada, o Planalto parece ter estreitado ainda mais o já reduzido espaço de manobra com que contava para lidar com leque tão amplo de dificuldades.

Rogério L. Furquim Werneck, O Estado de S.Paulo

13 Fevereiro 2015 | 02h04

O primeiro desastre foi o retumbante fracasso do pretensioso esquema de segurança parlamentar que, supostamente, estaria garantido pelas forças políticas representadas no novo ministério. Apesar de todo seu empenho, o Planalto não conseguiu evitar que o deputado Eduardo Cunha, notório desafeto de Dilma, conquistasse a presidência da Câmara em primeiro turno, com 267 votos. Não bastasse seu candidato ter tido pífios 136 votos, o PT se viu alijado da mesa diretora da Câmara.

Quatro dias depois, para grande irritação do Planalto, a oposição, apoiada por 52 deputados da base aliada do governo, conseguiu aprovar a instalação de nova CPI da Petrobrás na Câmara, prontamente autorizada por Eduardo Cunha. E foi só o começo. A presidente vem tendo desgostos quase diários com o que vem ocorrendo na Câmara.

Ainda atordoado pela consciência da precariedade de seu apoio parlamentar, o Planalto logo se viu às voltas com novas trapalhadas na condução da crise da Petrobrás. Indignada com ter o Conselho de Administração da empresa admitido que os ativos da companhia poderiam vir a sofrer baixas contábeis da ordem de R$ 88 bilhões, Dilma anunciou que Graça Foster seria afastada da presidência da Petrobrás. Como já havia feito com Guido Mantega na Fazenda, Dilma pediu a Graça Foster e demais diretores que permanecessem no cargo até que fosse concluído o problemático fechamento do balanço da empresa. Para sua grande surpresa, a diretoria recusou-se a desempenhar tal papel. Preferiu demitir-se em bloco. E Dilma viu-se, de repente, obrigada a encontrar, em 48 horas, um nome com perfil adequado que se dispusesse a assumir a presidência da Petrobrás em meio à grave crise que atravessa a empresa.

Entalada nessa posição tão difícil, a presidente poderia ter aproveitado a oportunidade para escolher um nome respeitável e independente, capaz de repassar a empresa a limpo. Mas preferiu uma solução caseira, que lhe permitisse manter a presidência da empresa sob seu estrito controle e assegurar a blindagem que obceca o Planalto: impedir que o Conselho de Administração e a cúpula do governo venham a ser de alguma forma responsabilizados pelo que aconteceu na Petrobrás.

Foi um erro grave. É bem provável que a presidente se arrependa amargamente de ter perdido a chance de pôr em marcha um esforço convincente de reconstrução da Petrobrás em outras bases. Dilma parece ainda não ter percebido que, a essa altura, já não será no âmbito da própria Petrobrás que afinal será estabelecido se o Conselho de Administração da empresa ou o Planalto devem ou não ser responsabilizados pelo que aconteceu. E que, caso ela própria venha a ser responsabilizada de alguma forma, estará em posição muito menos confortável do que estaria se pudesse ostentar empenho inequívoco e genuíno em passar a Petrobrás a limpo no seu segundo mandato.

No governo, houve quem se queixasse de que, na escolha do novo presidente da Petrobrás, Dilma teria tomado uma decisão solitária, sem consultar ninguém. A informação de que só consultou a si mesma é mais uma evidência de que a presidente, desalentada, quem sabe, pela qualidade da assessoria de que se cercou, se tem mantido preocupantemente isolada.

O que agora se noticia é que, alarmada com a rápida queda de sua popularidade e com a extensão da deterioração de sua imagem, Dilma estaria convencida de que precisa se reaproximar de seu marqueteiro. Reação redondamente equivocada. Passar a entremear consultas ao espelho com sessões de ilusionismo não é exatamente o tipo de arejamento de que a presidente precisa.

*Rogério L. Furquim Werneck é e econonomista, doutor pela Universidade Harvard, é professor titular do Departamento de Economia da PUC-Rio

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