Entre os Brics, só Brasil reduz a desigualdade

Distribuição de renda melhora no País, o oposto do que ocorre com chineses, russos, indianos e sul africanos, diz estudo da FGV

Roldão Arruda, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2011 | 00h00

Quando se compara o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) entre os países integrantes dos chamados Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) o resultado é sempre desfavorável aos brasileiros. China e Índia crescem mais que o Brasil todos os anos desde 1992. Se a comparação for feita, porém, com a evolução da renda familiar, o Brasil segue sozinho na frente.

A tradução disso é que a desigualdade social entre os brasileiros tem caído em ritmo acelerado, numa tendência oposta à que se verifica entre chineses, russos, indianos e sul africanos. A renda global deles cresce mais, porém fica mais concentrada.

Essa é uma das principais conclusões do levantamento Os Emergentes dos Emergentes, realizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e apresentado ontem em São Paulo pelo economista-chefe do Centro de Políticas Sociais da instituição, Marcelo Neri. Comparando por meio da PNAD as taxas de crescimento anual de renda domiciliar per capita dos 20% mais pobres e dos 20% mais ricos no Brasil, na década de 2000, o levantamento mostrou que o bolo dos pobres cresceu 6,3%, enquanto o aumento dos ricos foi de 1,7%. Na China ocorreu o inverso: os mais pobres ficaram com 8,5% e os mais ricos, com 15,1%. "A distribuição dos frutos do crescimento foi maior no Brasil", disse Neri.

O efeito mais claro desse processo ocorrido no Brasil é a notável mobilidade entre as classes sociais. De acordo com o levantamento da FGV, um total de 13,3 milhões de brasileiros foram agregados às classes A, B e C.

Migração. Neri chamou a atenção sobretudo para o volume de pessoas que migraram das classes D e E para a C. Foram 39,5 milhões de pessoas entre 2003 e maio deste ano. "Isso é quase uma Espanha inteira", disse ele. "Se a comparação for feita em um período mais longo, a partir de 1993, veremos que 60 milhões de pessoas, quase uma França, subiram para a classe C."

Esse processo de mudanças, na avaliação de Neri, está em pleno curso, apesar das medidas do governo destinadas a arrefecer o crescimento econômico. "O índice de famílias mais pobres no Brasil teve uma redução de 11,7% entre maio de 2010 e maio deste ano. É uma taxa excepcional, mesmo considerando que foi influenciada pelas eleições."

O processo brasileiro estaria despertando a atenção dos outros integrantes dos Brics, às voltas com os problemas da excessiva concentração de renda. Na África do Sul, observou Neri, a concentração de renda piorou após o apartheid, contrariando quase todas as expectativas.

Na avaliação dele, o Brasil tem conseguido reduzir as desigualdades sociais graças à estabilidade democrática, ao controle da inflação, aos avanços na área educacional, a programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, e ao fortalecimento do valor do salário mínimo e das aposentadorias. Ele também citou o efeito a queda na taxa de fecundidade, com a redução do número de pessoas por família.

Desse conjunto, o fator mais importante, seria a educação. "Se todos os outros fatores se mantiverem estáveis, a educação garante, sozinha, uma crescimento de 2,2% na renda."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.