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André Braz, coordenador de índices de preços da Fundação Getulio Vargas (FGV); a pressão da inflação de janeiro virá em torno dos alimentos BIANCA GENS/FGV/DIVULGAÇÃO

Seca no Sul e chuvas no Sudeste podem aumentar a inflação em 2022, diz economista da FGV

Para André Braz, coordenador dos índices de preços da Fundação Getúlio Vargas, os fenômenos climáticos extremos podem pressionar os preços de alimentos neste começo de ano, e consumidor deve demorar para sentir alívio da inflação

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2022 | 14h34

Fenômenos climáticos extremos, como a seca no Sul e o excesso de chuvas no Sudeste, e seus impactos sobre os preços da comida podem ser mais um fator de risco para inflação deste ano, alerta o coordenador de índices de preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), André Braz. “À medida que esse fenômeno persistir, o saldo pode ser de preços mais altos para alguns alimentos básicos e isso pode gerar um problema maior para conter o avanço da inflação.”

Para 2022, o economista projeta uma inflação de 5%, sem considerar o risco de uma alta adicional da alimentação por conta do clima. Se a projeção se confirmar, a inflação de 2022 medida pelo IPCA será a metade da registrada no ano passado, de 10,06%, o maior resultado anual desde 2015.  Braz frisa que, apesar da desaceleração esperada para este ano, o brasileiro não deve sentir um alívio, já que a alta acumulada nos preços em dois anos será de 15%. “Vamos viver um período de inflação persistente, acima da meta, com juro alto, que vai continuar causando mal estar às famílias.”  A seguir, os principais  trechos da entrevista.

Como o sr. avalia o resultado da inflação de 2021, que atingiu 10,06%?

Era um resultado esperado por causa das pressões muito concentradas em energia e combustíveis. Praticamente a metade da inflação do ano passado  foi influenciada por esses dois preços, que contaminam outros setores, como a indústria e os serviços, por exemplo. Esse espalhamento se materializou. Vimos uma recuperação grande da inflação de serviços e de bens duráveis.

A fatia dos preços que subiram de novembro para dezembro aumentou mais de dez pontos porcentuais, de 63,13% para 74,8%. É um descontrole?

Essa é a prova do espalhamento, mas não é descontrole, porque a taxa em 12 meses até recuou em relação a novembro.

Essa difusão maior não é um risco?

Será um risco se persistir nesse patamar. Mas acho que ela visitou esse novo patamar, porque em dezembro é sempre um mês de demanda mais forte.  A difusão não vai ficar aí. Isso porque a inflação que projetamos para janeiro corresponde à metade da inflação de dezembro. Para janeiro espero um aumento de 0,35%. É um mês de volta às aulas, de despesas fortes para as famílias e demanda enfraquecida. Acho que a pressão de janeiro virá em torno dos alimentos. As chuvas estranhas que tem acontecido no Sudeste e a seca no Sul. 

Qual a perspectiva da inflação para este ano?

A agricultura, que não estava na conta como fonte de pressão inflacionária tão forte para 2022, agora começa a entrar no radar. Esse calor extremo no Sul pode afetar as lavouras de ciclo mais longo que podem diminuir  a contribuição da agricultura para conter a inflação de 2022.  À medida que esse fenômeno persistir, o saldo pode ser preços mais altos para alguns alimentos básicos e isso pode gerar um problema maior para conter o avanço da inflação deste ano.

Qual é a sua projeção de inflação para 2022?

Esperamos uma inflação que corresponda à metade da registrada no ano passado, sem contar com uma pressão maior dos alimentos por causa do clima. Essa inflação de 5% é muito distante da meta de 3,5% prevista para este ano.

Quando o brasileiro vai sentir algum alívio na inflação?

A inflação subiu 10% o ano passado e deve subir mais 5% este ano. É um aumento em cima de outro, não tem alívio. É uma inflação acumulada de 15% em dois anos. Alívio mesmo as pessoas só vão sentir quando encontrarem emprego e a renda começar a crescer mais do que a inflação. Isso não vai acontecer  porque o próprio instrumento para conter o avanço da inflação é o aumento dos juros que não privilegia o investimento necessário à geração de emprego. Vamos viver um período de inflação persistente, acima da meta, com juro alto, que vai continuar causando mal estar às famílias.

No ano passado, o INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor), que é a inflação para as famílias de baixa renda subiu 10,16%, um pouco acima do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor) de 10,06%. Neste ano, o cenário complica para a baixa renda com o risco de os alimentos serem afetados pelo clima?

A inflação que a baixa renda enxerga é a inflação dos alimentos. Os mais ricos têm o gasto concentrado em serviços. Para a maioria da população, o que vale é a inflação de alimentos.

A nova onda de covid-19, causada pela variante Ômicron, pode pressionar os preços?

Ela complica porque pode haver a desmobilização de cadeias produtivas , com falta de peças, como já ocorreu  na indústria automobilística, por exemplo. Isso contribuiu para aumentos de preços dos carros que subiram no ano passado acima da inflação. Este ano também é de eleição, o que pode pressionar o câmbio. O cenário inflacionário para 2022 está bem conturbado, com muitas variáveis de risco.

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Inflação chega a 10,06% em 2021, a maior desde 2015

Inflação oficial desacelerou de alta de 0,95% em novembro para 0,73% em dezembro

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2022 | 09h08
Atualizado 11 de janeiro de 2022 | 17h50

RIO - Com a ajuda da redução dos preços de combustíveis pela Petrobras nas refinarias na reta final do ano, a inflação oficial no País desacelerou de uma alta de 0,95% em novembro para 0,73% em dezembro, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgados nesta terça-feira, 11, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A melhora, porém, não impediu uma elevação de 10,06% no custo de vida da população em 2021 como um todo, e alguns economistas já estão prevendo um novo estouro do teto da meta de 5% para a  inflação em 2022.

A inflação de 2021 foi a maior desde 2015, no governo Dilma Rousseff (PT), quando ficou em 10,67%. Turbinado, principalmente, pelos aumentos dos combustíveis, energia elétrica e gás de cozinha, o resultado superou consideravelmente a meta de 3,75% perseguida pelo Banco Central para o ano, chegando quase ao dobro do teto de tolerância, de 5,25%. O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, terá, por conta disso, de enviar uma carta ao ministro da Economia, Paulo Guedes, explicando as razões de não ter conseguido cumprir o objetivo.

Previsão: acima da meta

Para este ano, ancorada na forte elevação dos juros que vem sendo promovida pelo Banco Central, a tendência é de uma desaceleração da inflação. Mesmo assim, o centro da meta, de 3,5%, não deverá ser alcançado. A maior parte dos economistas enxerga o teto, de 5%, praticamente como o piso. No Boletim Focus, divulgado esta semana pelo BC, a expectativa do mercado é de um IPCA de 5,03%, o que já significaria o segundo estouro consecutivo da meta.

Mas, no mercado, já há analistas prevendo números maiores. A projeção da XP, por exemplo, é de alta de 5,2%. Da Garde Asset, é de 5,3%. Já a gestora Quantitas trabalha com um número de 5,8%. 

"Não estamos vendo nos números observados uma tendência de suavização da inflação no curto prazo", afirmou o economista João Fernandes, sócio da Quantitas. "O efeito da política monetária e da atividade econômica enfraquecendo vão fazer a inflação ficar menor ao longo de 2022, só que o risco parece estar migrando para que isso não aconteça em março ou abril, mas em maio ou julho", completou.

Houve um superdimensionamento de especialistas e de autoridades do governo sobre o caráter supostamente temporário da inflação em 2021, avaliou Eduardo Cubas, sócio e diretor da gestora Manchester Investimentos. Cubas prevê que o IPCA desacelere de forma notável apenas na segunda metade deste ano, o que poderia abrir espaço para que o BC começasse a pensar em uma redução na taxa básica de juros, a Selic, na tentativa de estimular a economia brasileira.

"O IPCA deixa um recado importante que será preciso avaliar os próximos passos para ver se dará espaço ou não para queda dos juros", disse Cubas.

Combustíveis

A redução nos preços dos combustíveis anunciada pela Petrobras nas refinarias em dezembro foi preponderante para desacelerar a inflação no País em relação a novembro - nesta terça-feira, 11, porém, a petroleira estatal já anunciou elevações nos preços da gasolina e do diesel, o que trará mais pressão para a inflação de janeiro.

“Certamente foram os combustíveis que acabaram puxando essa desaceleração, principalmente a gasolina, na medida em que é o item de maior peso no IPCA”, afirmou Pedro Kislanov, gerente do Sistema Nacional de Índices de Preços do IBGE.

O peso da gasolina na inflação é de 6,68%, enquanto do etanol é de 1%. Após meses de seguidos de avanços, o preço da gasolina caiu 0,67% em dezembro, item de maior impacto negativo sobre o IPCA do mês, -0,05 ponto porcentual, enquanto o etanol diminuiu 2,96%, segundo maior impacto negativo, -0,03 ponto porcentual.

“Em geral, (o preço do) etanol acompanha a gasolina”, lembrou Kislanov.

Disseminação de aumentos

O índice de difusão do IPCA, que mostra o porcentual de itens com aumentos de preços, avançou de 63% em novembro para 75% em dezembro. Essa maior disseminação de reajustes teve influência de um crescimento na demanda por alguns itens característico dessa época do ano, mas também da recomposição de preços que tinham recuado em novembro durante as promoções da Black Friday, explicou Kislanov.

“Existe um componente sazonal, sem dúvida. Por um lado, você tem as festas de fim de ano, tem o componente de demanda por esse lado. E também tem o fato de que é o mês seguinte à Black Friday. Então os itens que tiveram variações negativas (em novembro) agora tiveram variações positivas, porque os preços voltaram ao patamar anterior”, justificou o pesquisador do IBGE. / Colaboraram Cícero Cotrim e Maria Regina Silva

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Salário mínimo fica abaixo da inflação em 2022

Alta não repõe o poder de compra; para isso, o piso deveria subir para R$ 1.213; diferença deve ser incluída no piso do ano que vem

O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2022 | 09h46

BRASÍLIA - O salário mínimo de R$ 1.212 em 2022 não repõe a inflação do ano passado. O INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor), indicador que corrige o salário mínimo, registrou alta de 10,16% em 2021, segundo dados divulgados nesta terça-feira, 11, acima do reajuste de 10,02% dado no salário mínimo.

Isso significa que a alta no piso não repõe o poder de compra, como assegurado pela Constituição. Para isso, o piso deveria subir para R$ 1.213. O Ministério da Economia informou que a diferença vai ser incluída no piso do ano que vem.

No ano passado, o salário mínimo também foi estipulado abaixo da inflação do ano anterior. Ao decidir por R$ 1.212 neste ano, o governo incorporou R$ 1,62 referente à inflação maior de 2020 que não havia sido contabilizada no valor de R$ 1.100 que vigorou no ano passado. Deixar a diferença para o ano seguinte é permitido pela lei.

Em 2020, porém, o governo mudou o salário no próprio ano, depois da divulgação do INPC. Em janeiro, vigorou R$ 998. A partir de fevereiro, R$ 1.045.

A política de valorização do salário mínimo, com reajustes pelo índice de preços e pela variação do PIB, vigorou entre 2011 e 2019, mas nem sempre o salário mínimo subiu acima da inflação. 

Em 2017 e 2018, por exemplo, foi concedido o reajuste somente com base na inflação porque o PIB dos anos anteriores (2015 e 2016) encolheu. Por isso, para cumprir a fórmula proposta, somente a inflação serviu de base para o aumento. Em 2019, houve um aumento real de 1%, refletindo o crescimento de dois anos antes e marcando o fim da política.

Segundo o governo, para cada R$ 1 no salário mínimo, as despesas com benefícios sociais e da Previdência atreladas ao piso sobem R$ 364,8 milhões.

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Teto para aposentadorias e pensões do INSS sobe para R$ 7.087 em 2022

Pela legislação federal, o índice de reajuste do benefício de aposentados e pensionistas que recebem valor superior ao do salário mínimo é definido pela variação INPC do ano anterior

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2022 | 09h45

BRASÍLIA - O valor máximo de aposentadorias e pensões pagas pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) subirá de R$ 6.433,57 para R$ 7.087,22 em 2022. Esse também deverá ser o valor de referência máximo para calcular as contribuições à Previdência.

O valor é calculado com base no Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), usado como referência para reajustes salariais e benefícios previdenciários, que ficou em 10,16% em 2021, segundo divulgou nesta terça-feira, 11, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Pela legislação federal, o índice de reajuste do benefício de aposentados e pensionistas que recebem valor superior ao do salário mínimo é definido pela variação INPC do ano anterior.

A portaria que oficializa o reajuste de aposentados que ganham acima de um salário mínimo ainda precisa ser publicada no "Diário Oficial da União" (DOU) pelo governo federal.

Pela lei, aposentadorias, auxílio-doença, auxílio-reclusão e pensão por morte pagas pelo INSS não podem ser inferiores ao salário mínimo. O piso de R$ 1.212 em 2022 não repõe a inflação do ano passado, já que incorporou a diferença do salário mínimo de 2021, que também tinha ficado abaixo da inflação do ano anterior.

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BC estreia autonomia falhando na missão primordial de controlar a alta dos preços; leia a análise

Roberto Campos Neto agora precisa explicar ao ministro da Economia, Paulo Guedes, os motivos da falha no cumprimento da missão primordial do órgão

Eduardo Rodrigues e Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2022 | 17h35

BRASÍLIA - Atropelado pelos choques de preços que equivocadamente imaginou que seriam apenas temporários, o Banco Central estreou sua autonomia legal precisando justificar publicamente por que a inflação de 2021 teve o maior estouro da meta em quase duas décadas. Por isso, Roberto Campos Neto agora precisa explicar ao ministro da Economia, Paulo Guedes, os motivos da falha no cumprimento da missão primordial do órgão.

Por mais que argumente fatores imponderáveis como a crise hídrica e o aumento internacional do preço do petróleo, o resultado do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) mostra que a autoridade monetária ficou muito atrás da curva na tentativa de conter os efeitos da escalada da inflação. O índice oficial encerrou 2021 em 10,06%, muito acima do limite máximo da meta de 5,25% e ainda mais distante do alvo de 3,75% para o ano passado.

O “estouro” da meta foi de 4,81 pontos porcentuais em 2021, o maior desvio desde 2002, quando o IPCA chegou a 12,53% e ultrapassou em 7,03 p.p. o teto da meta que era de 5,5%. Na última vez que a inflação superou os dois dígitos, em 2015, o IPCA de 10,67% representou um estouro de 4,17 p.p. em relação ao teto da meta.

Uma das primeiras respostas da autoridade monetária à pandemia de covid-19 foi uma forte redução na taxa básica de juros. A Selic começou 2020 em 4,50% ao ano e já havia caído para o piso histórico de 2,00% em agosto, em um movimento aplaudido pelo mercado na crise. Parte dos analistas inclusive acreditava que o BC poderia ser ainda mais audacioso na queda dos juros.

Mas, passado o auge da crise econômica da primeira onda da pandemia, o BC relutou em enxergar a subida da inflação como uma ameaça mais duradoura. Assim como outros bancos centrais e a maior parte do mercado, a equipe de Campos Neto acreditava que a pressão sobre o consumo de bens seria temporária e contava com o reaquecimento do setor de serviços para que o conjunto de preços da economia se reequilibrasse.

Os resultados mensais do IPCA, porém, começaram a surpreender para cima já em setembro de 2020. Mas, a despeito dos primeiros sinais de alta mais disseminada nos preços de alimentos, o Comitê de Política Monetária (Copom) abriu 2021 mantendo a Selic em 2,00% e só a partir de março iniciou uma gradual recomposição dos juros, para 2,75%. Até junho do ano passado, aliás, as comunicações do colegiado ainda traziam a avaliação de que os choques inflacionários eram apenas temporários.

Para piorar, os preços dos combustíveis no mercado internacional não paravam de subir e o Brasil ainda entrou em uma das piores secas da história, com um impacto significativo nas contas de luz. Sem ter atacado com eficiência o primeiro choque quando pôde, o BC agora tinha três problemas na mesa para enfrentar.

Quando a autoridade monetária deu por si, nem mesmo o mercado acreditava mais no cumprimento da meta no ano passado. A saída foi dar um “cavalo de pau” na política monetária e acelerar a alta de juros em um ritmo não visto nos últimos 20 anos. Em agosto e setembro, foram duas altas de 1 p.p., que passaram movimentos de 1,5 p.p. nas reuniões de outubro e dezembro.

A Selic fechou o ano em 9,25%, acumulado uma alta de 7,25 p.p. em 2021, mas o remédio amargo veio tarde demais, uma vez que os efeitos da alta dos juros sobre a economia têm uma defasagem de pelo menos seis meses. Com a inflação perdida no passado, o BC luta agora para não perder o alvo também em 2022.

Dessa vez, o centro da meta é de 3,50% e a margem de cumprimento vai até 5%. O próprio Campos Neto já disse mais de uma vez que fará o que for preciso para não perder o objetivo deste ano e o Copom não colocou limites para a alta dos juros.

Já no começo de fevereiro, a expectativa é de que a Selic chegue a 10,75%. O mercado acredita que os juros baterão na casa de 11,75% em 2022, mas mesmo assim ainda aposta que o IPCA irá estourar a meta novamente, ainda que por muito pouco. No último relatório Focus, a estimativa dos analistas ouvidos semanalmente pelo BC era de um IPCA de 5,03% neste ano.

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Campos Neto diz que fenômeno global e alta de conta de luz levaram a estouro da meta de inflação

Presidente do Banco Central justificou o estouro da meta inflacionária de 2021 ao presidente do Conselho Monetário Nacional (CMN), o ministro Paulo Guedes; principal função do BC é controlar a inflação

Thaís Barcellos e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2022 | 17h33

BRASÍLIA - O forte aumento dos preços de commodities (produtos básicos, como petróleo, alimentos e minério), a bandeira de energia elétrica de escassez hídrica e a falta de insumos, com gargalos globais, foram apontados pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, como os principais fatores que levaram a inflação a superar o limite superior da meta em 2021. A justificativa foi dada em carta aberta ao presidente do Conselho Monetário Nacional (CMN), o ministro da Economia, Paulo Guedes, devido ao descumprimento pelo BC de seu mandato principal.

Na carta, Campos Neto frisou a influência da pandemia sobre o desvio da inflação e fez questão de destacar que a aceleração inflacionária para níveis superiores à meta foi um fenômeno global no ano passado.

O IPCA, o índice oficial de inflação, terminou o ano passado em 10,06%, 4,81 pontos porcentuais acima da banda superior do objetivo a ser perseguido pelo BC (5,25%) – o maior desvio em quase 20 anos, já que, em 2002, o “estouro” foi de 7,03 pontos porcentuais. O centro da meta era de 3,75%. A última vez que o teto da meta havia sido rompido, em 2015, a distância havia sido de 4,17 pontos porcentuais, quando o IPCA registrou alta de 10,67%.

No documento, Campos Neto destacou que as pressões sobre os preços de commodities e nas cadeias produtivas globais refletem mudanças no padrão de consumo causadas pela pandemia de covid-19, com aumento da demanda por bens, impulsionadas também por políticas expansionistas.

“Esses desenvolvimentos, que ocorreram em nível global, geraram excesso de demanda em relação à oferta de curto prazo de diversos bens, causando um desequilíbrio que, em diversos países e setores, foi exacerbado por falta de mão-de-obra, problemas logísticos e gargalos de produção. De fato, a aceleração significativa da inflação em 2021 para níveis superiores às metas foi um fenômeno global, atingindo a maioria dos países avançados e emergentes.”

A carta aberta é uma exigência do sistema de metas, criado em 1999, quando a inflação fica fora do intervalo de tolerância, para explicar as razões do descumprimento e indicar providências para o retorno à meta, assim como o prazo para que isso ocorra.

A última carta enviada pelo BC para justificar o descumprimento do seu mandato foi relativa ao ano de 2017, mas, daquela vez, o presidente à época, Ilan Goldfajn, teve de explicar o porquê de a inflação ter ficado aquém da meta, em 2,95%. Além de 2015 e 2002, o limite superior da meta também foi rompido em 2001 e 2003.

Na de hoje, Campos Neto destacou que o principal fator para o desvio de 6,31 pontos porcentuais em relação ao centro da meta de 2021 (3,75%) foi a inflação importada, com contribuição de 4,38 pontos porcentuais, ou cerca de 70% do total. Pesaram a alta de produtos como petróleo e a desvalorização do real frente à moeda americana. 

Além disso, a inflação do ano anterior teve contribuição de 1,21 ponto porcentual e a bandeira tarifária de energia elétrica, de 0,67 ponto porcentual, refletindo a adoção da bandeira escassez hídrica com a seca registrada no País no ano passado. A bandeira escassez hídrica, adotada em setembro, custa R$ 14,20 em tarifa adicional a cada 100 quilowatt-hora utilizados pelo consumidor.

O presidente do BC ainda afirmou que as expectativas de inflação medidas pela pesquisa Focus contribuíram com 0,25 ponto porcentual da inflação em relação à meta. No modelo, ainda são considerados “demais fatores”, como a variação do IGP-M (o índice de aluguel), e questões específicas ligadas a medicamentos, plano de saúde e anomalias climáticas, mas que não foram destrinchadas por Campos Neto.

Em sentido oposto, o nível de atividade econômica abaixo do crescimento potencial, teve contribuição para segurar os preços, que poderiam ter sido maiores. “Portanto, de acordo com essa decomposição, houve uma combinação de choques de custos que foi contrabalançada parcialmente pelo hiato do produto negativo”, sintetizou Campos Neto em linguagem técnica.

Campos Neto alegou que tem tomado as devidas providências para que a inflação atinja as metas para a inflação determinadas pelo Conselho Monetário Nacional. “O BC tem calibrado a taxa básica de juros, e continuará a fazê-lo, com vistas ao cumprimento das metas para a inflação estabelecidas pelo CMN". A carta aberta é uma exigência do sistema de metas, criado em 1999, quando a inflação fica fora do intervalo de tolerância, para explicar as razões do descumprimento e indicar providências para o retorno à meta, assim como o prazo para que isso ocorra.

Embora tenha mantido a avaliação de que os choques inflacionários eram temporários até junho do ano passado, o BC alega na carta que desde o fim de 2020 já havia iniciado mudanças em sua comunicação, com o início do ciclo de alta da Selic já no primeiro trimestre de 2021, com a alta da taxa básica de juros de 2,00% para 2,75% ao ano em março.  Ao longo de sete reuniões, a Selic foi elevada em 7,25 pontos porcentuais, encerrando o ano em 9,25% ao ano.

“Durante o ano, o Copom recalibrou seu orçamento e ritmo do ajuste de política monetária, em resposta aos desenvolvimentos econômicos que impactaram negativamente suas projeções e à deterioração das expectativas de inflação, com vistas a garantir a convergência da inflação para as metas ao longo de seu horizonte relevante. Vale notar que o cenário econômico de recuperação posterior à pandemia de covid-19 tem sido marcado por incerteza e volatilidade acima das usuais, o que tem se refletido nas surpresas inflacionárias de todo o mundo”, argumentou Campos Neto, no documento.

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