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Não há uma agenda para crescimento na América Latina, diz economista-chefe do Citi para a região

Para Ernesto Revilla, ações que focam no saneamento das contas públicas são passo importante, mas teriam que vir depois de reformas específicas para o crescimento

Bárbara Nascimento, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2022 | 10h00

O crescimento é o calcanhar de Aquiles não só do Brasil, mas de toda a América Latina. Esta é a opinião do economista-chefe para América Latina do Citi, Ernesto Revilla. "Não há narrativa de crescimento" na região, disse ele em entrevista ao Estadão/Broadcast. 

Segundo Revilla, apesar de o cenário ser de crescimento baixo para os próximos anos, não há reformas nesse sentido sendo propostas nos países latinos. "A maior surpresa é que, com a falta de crescimento, você esperaria muitas políticas e ideias na região, mas infelizmente não há uma agenda de crescimento", aponta. O Citi prevê crescimento de 1,6% do PIB da América Latina em 2022 e -0,3% para o Brasil.

Revilla pondera que os países da região estão mais focados em propostas na área fiscal e dá destaque à preocupação de governos como o chileno, o mexicano e o peruano na tentativa de aumentar a sanidade das contas públicas. Apesar de necessárias, contudo, as reformas fiscais, geralmente, têm efeito negativo no crescimento, à medida em que ou são feitas por meio de aumento de impostos ou por redução nos gastos, sacrificando o investimento.

Para ele, as ações que focam no saneamento das contas públicas são um passo importante, mas teriam que vir depois de reformas específicas para o crescimento, como medidas para aumentar a produtividade, pondera.

"A falta de reformas para crescimento é surpreendente, porque essa seria a melhor estratégia agora. A segunda seriam as reformas fiscais que, com sorte, serão feitas de forma inteligente, sem machucar muito o investimento público", destaca.

Aumento do endividamento 

Revilla afirma que as condições externas difíceis - como menor crescimento na China e nos Estados Unidos e um cenário de juros mais altos pelo banco central norte-americano - encontram a América Latina em um momento com mais volatilidade, dificuldades para emplacar uma alta sustentada no Produto Interno Bruto (PIB) e, em alguns casos, uma dinâmica de dívida "particularmente difícil". É o caso do Brasil. Para Revilla, o mercado deve revisitar o rating brasileiro, observando sobretudo a trajetória da dívida.

"Alguns países em particular têm dinâmicas de dívida difíceis, particularmente o Brasil. Juros altos, dívida alta e baixo crescimento são uma má combinação para a trajetória da dívida", disse, completando: "Alguns participantes do mercado e agências de rating vão dar uma nova olhada sobre a dinâmica da dívida brasileira e vão se questionar se é sustentável".

Em novembro - último dado disponível -, a dívida bruta do governo brasileiro chegou a 81,1% do PIB. E, nas projeções do Citi, deve chegar a 84,9% em 2022. O endividamento deu um salto não só no Brasil, mas em boa parte do mundo, com as medidas emergenciais e de estímulo à economia em razão da covid-19. Tanto que, no fim de 2020, estava em um patamar ainda maior, em 88,6%. Em dezembro de 2019, por sua vez, a dívida estava em 74,4%.

"O aumento do endividamento não é mau, per se. Foi a resposta correta econômica para a pandemia. A questão é a sustentabilidade disso. É consertável? Acho que sim. A forma de voltar a ser sustentável (na dívida) é o crescimento. É o grande reparador em termos de deterioração de posições fiscais", aponta o economista do Citi.

Eleições

No caso do Brasil, mesmo a possibilidade de aprovar reformas fiscais, como outros países na região têm feito, está prejudicada pelo momento político. Revilla avalia que o cenário para reformas é "próximo do impossível" em um ano eleitoral, mas, pior que isso, acredita que o apetite hoje é baixo para fazer as reformas necessárias para recuperar uma trajetória de endividamento de qualidade.

Segundo ele, o investidor estrangeiro observa as eleições brasileiras de perto e acredita que o processo eleitoral "tem o potencial de mudar a trajetória do Brasil de uma forma ou de outra". 

"A maior preocupação em relação ao Brasil é a situação fiscal. Era o caso antes da pandemia. Agora, é ainda mais urgente. Infelizmente, não vemos muito apetite para consolidação fiscal. A eleição pode mudar isso, mas ainda é muito cedo para dizer", aponta.

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