ENTREVISTA-Comércio retraído e crise China-Japão afetam economia--OCDE

A economia mundial vive seu momento mais frágil desde a crise financeira de 2008/09, e a recuperação é atrapalhada pela falta de crescimento no comércio global e pela crise diplomática entre China e Japão, disse à Reuters nesta quinta-feira o secretário-geral da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), Angel Gurria.

NICK EDWARDS, Reuters

20 de setembro de 2012 | 09h03

Sem uma retomada do comércio global, disse ele, pode haver um surto de políticas protecionistas. "O comércio tem o potencial para nos tirar do buraco. Ele parecia ir bem, estava ganhando velocidade depois da queda de 2009, e agora está novamente em refluxo, está parando", disse Gurria, que dirige em Paris a entidade que é uma espécie de laboratório de políticas públicas para grandes economias mundiais.

O mesmo se aplica à atual fase de tensão entre Tóquio e Pequim por causa da disputa por ilhas no mar do Leste da China, disse ele. Na quarta-feira, o ministério chinês do Comércio afirmou que a disputa já afetou laços comerciais, e responsabilizou o Japão pelas consequências.

"O momento não parece ser estelar", disse Gurria. "Isso fere a confiança num momento em que a confiança é talvez o grande elo ausente aqui (...), ocorre no momento em que todos estavam focados em como sair do buraco."

China e Japão são as duas maiores economias mundiais depois dos EUA, e seu comércio bilateral cresceu 14,3 por cento em 2011, chegando a 345 bilhões de dólares. A Nissan disse que a atual crise já está tendo impacto sobre a venda de veículos.

COMÉRCIO PARADO

Os últimos dados da OCDE mostram que o comércio de mercadorias se desacelerou na maior parte das grandes economias mundiais no segundo trimestre de 2012, com claras contrações nos principais países europeus e na Índia, Rússia e África do Sul, que integram o grupo de nações emergentes conhecido como Brics.

O FMI já havia mostrado que o comércio mundial praticamente parou de crescer no primeiro quadrimestre deste ano.

Neste mês, a OCDE reduziu sua previsão de crescimento para o G7 (grupo de grandes economias industrializadas), atribuindo isso à crise na zona do euro. Após três anos de uma crise motivada por seu endividamento, o bloco continental está à beira da recessão, afetando também o crescimento dos seus parceiros comerciais - inclusive a China.

Estima-se que 200 milhões de empregos industriais chineses dependam das exportações, que em 2011 responderam por 31,4 por cento do PIB chinês, de 7,3 trilhões de dólares, segundo o Banco Mundial.

Gurria elogiou as medidas tomadas pela China para evitar o contágio no seu mercado interno, mas alertou os investidores a não criarem expectativas demais quanto a um novo "pacote de bondades" de Pequim, que em 2008 gastou 630 bilhões de dólares para estimular a economia.

Ele também alertou os governos de todo o mundo a não usarem políticas protecionistas destinadas a estimular o crescimento interno no curto prazo, já que isso reverteria décadas de estímulos à geração de riqueza por parte da Organização Mundial de Comércio e de entidades predecessoras.

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