ENTREVISTA-Funcesp manterá cautela em bolsa 'por muito tempo'

A Funcesp, quarto maior fundo de pensão do Brasil, não tem planos de elevar a exposição a ações diante da incerteza sobre o futuro dos Estados Unidos após o fim dos estímulos e também sobre a inflação no Brasil.

SILVIO CASCIONE E GUILLERMO PARRA-BERNAL, REUTERS

20 de abril de 2011 | 15h03

Em entrevista à Reuters, Jorge Simino, diretor de investimentos e patrimônio, afirmou que a fundação deve manter a exposição a ações em níveis "historicamente baixos" para a entidade --cerca de 11 por cento.

"Vai ficar por aí por muito tempo. Adoraria estufar o peito e falar, vamos comprar, mas (está) muito complicado", disse.

A Funcesp administra aproximadamente 19 bilhões de reais em ativos. O fundo é também a maior entidade de previdência fechada complementar de capital privado do país, patrocinada por 14 empresas --entre as quais a Cesp e a CPFL.

Fundos de pensão têm tradicionalmente um perfil mais conservador, mas a Funcesp já chegou a manter 22 por cento de exposição à bolsa em meados de 2007. Essa posição foi gradualmente reduzida antes da crise, contou Simino.

A essa posição em carteira se soma a participação societária de longo prazo da Funcesp em duas empresas: Vale e CPFL. Atualmente, essa parcela representa outros 11 por cento do portfólio da fundação. Ele não quis fazer comentários sobre as duas empresas.

Desde a máxima recente, em novembro, o índice Ibovespa acumula queda de cerca de 9 por cento.

Um dos principais focos de incerteza, para o executivo, é o comportamento dos Estados Unidos após o fim do programa de compra de 600 bilhões de dólares em bônus pelo Federal Reserve, marcado para junho.

"Eu tenho a sensação de que a economia americana não vai se sustentar. O que significa não se sustentar? Significa que, se ela está crescendo a 2,5, 3 por cento com esse conjunto de estímulos, na hora que você retirar, provavelmente ela volta para 1,5 (por cento)", disse, descartando porém uma nova recessão. "'Double dip', eu acho que não. Mas você não sustenta um crescimento muito maior do que 1 (por cento)."

"EXCESSO DE DEMANDA" REFORÇA INFLAÇÃO

Outro ponto de incerteza geral é a inflação. Para Simino, a alta dos preços de commodities tem um grande componente de demanda oriundo de China e Índia, e por isso não deve arrefecer em breve. No Brasil, isso se junta a um "excesso de demanda", com raízes em um mercado de trabalho "hiperapertado".

Além disso, a estratégia do Banco Central de usar medidas macroprudenciais para tentar evitar um aumento maior dos juros cria dúvidas que dificultam uma performance melhor das ações.

"Dá para constatar a dificuldade em convencer o mercado de que esse novo mix não só é eficaz como eficiente... Será que o mix que está sendo testado consegue contrarrestar o efeito do mercado de trabalho?", questionou.

A previsão da Funcesp é de uma alta de 0,25 ponto percentual da Selic nesta quarta-feira. A reunião seguinte, em junho, ainda fica em aberto, dependendo dos números sobre o crescimento no primeiro trimestre e sobre a inflação.

O efeito de um eventual aperto monetário mais intenso sobre as ações de bancos deve ser limitado, afirmou Simino, que disse discordar da avaliação pessimista de parte do mercado. Para ele, os grandes bancos --como os que têm atividade em seguros-- têm mais flexibilidade para gerar receita mesmo em cenários de juros maiores. O setor de varejo, porém, seria penalizado.

Dentro da carteira da Funcesp, os investimentos que têm ganhado mais espaço são os de renda fixa indexados à inflação, como as NTN-B do Tesouro, afirmou Simino. O investimento no setor imobiliário --especialmente shoppings-- se mantém estável em aproximadamente 2 por cento do portfólio.

De acordo com Simino, a Funcesp não tem planos no momento de investir em ETFs (fundos de ações negociados em bolsa) e nem em BDRs (recibos de ações estrangeiras negociadas no Brasil). Mas ponderou que ambos os mercados são constantemente monitorados: "não existe veto a priori".

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