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Guilherme Moreira, da Fipe: 'A inflação está bem presente e é uma questão de custos que permeiam todo o índice, apesar da desaceleração' Fipe

'Perder 20% de poder de compra em dois anos é passar fome', diz economista

Para Guilherme Moreira, da Fipe, a alta da inflação nos últimos dois anos tem provocado um problema social seríssimo; leia entrevista

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2022 | 14h33

A desaceleração da inflação em maio, captada pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do IBGE e pelo Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fipe, não se trata de uma tendência, segundo o economista Guilherme Moreira, coordenador do IPC da Fipe.

Na avaliação dele, a perda de fôlego foi pontual e ocorreu por causa do recuo da tarifa de energia elétrica e dos alimentos in natura. A inflação, diz,  continua muito espalhada e deve ganhar novas pressões, como reajuste dos planos de saúde.

Nas projeções do economista, a inflação deve fechar o ano com alta de 9%. Menos do que o número, Moreira ressalta que o patamar inflacionário brasileiro é um dos maiores do mundo e provoca um estrago no poder de compra da população. “Para uma família com renda de até três salários, perder 20% de compra em dois anos  é passar fome, e é o que está acontecendo.” A seguir, os principais trechos da entrevista

O que representa a desaceleração da inflação registrada em maio pelo IPCA e  pelo IPC da Fipe, que recuou novamente na primeira quadrissemana deste mês?

Não se trata de um movimento consistente de desaceleração. O IPCA de maio foi de 0,47%, muito parecido com o IPC da Fipe que ficou em 0,42%.  O que houve foi que a conta de energia teve queda significativa e isso fez (os preços da) habitação despencar. Também os alimentos in natura recuaram, porque nesta época do ano chove menos e a demanda cai. O tomate, que tinha subido 40%, devolveu. Foram duas quedas pontuais que neste mês derrubaram a inflação. Não acho que seja uma tendência.

Por quê?

Um dos argumentos para essa análise é que os alimentos industrializados têm subido na faixa de 2% a cada mês há muito tempo. Os alimentos industrializados são o melhor sinalizador. Eles são essenciais, englobam as commodities, o frete, a embalagem e todo o processo industrial. São a síntese do que está acontecendo na inflação.  Além disso, vestuário e transporte continuaram subindo. Tem o reajuste dos plano de saúde que começa a entrar em junho, que impacta  significativamente. Também a inflação está espalhada por muitos itens.

Mas o índice de difusão, que mede esse espalhamento, que era de 78% em abril caiu para 72% em maio?

Mas 70% dos preços coletados estão subindo. É preciso considerar que nesse total há preços que não são livres, como passagem de ônibus, que não sobem todos os meses. Por isso, essa difusão é considerada muito alta.

A redução do ICMS (Imposto sobre circulação de Mercadorias e Serviços) sobre os combustíveis pode ajudar?

Se vier, será pouca coisa. Acho que não afeta a inflação.

Quais as perspectivas para a inflação de junho e dos próximos meses?

A inflação está bem presente e é uma questão de custos que permeiam todo o índice, apesar da desaceleração que deve acontecer em junho também. A minha previsão é que o IPC da Fipe fique em torno de 0,30% a 0,35% este mês. Para o ano, a previsão é de uma inflação de 9%.

Quando a inflação em 12 meses deve ficar abaixo de dois dígitos?

Agosto, setembro, mais para o final do ano. Estamos falando de uma alta em 12 meses na faixa de 12% caindo para 9,5%, 10% Estamos discutindo ‘peanuts’ (mixaria).

Como assim?

O estrago está dado. Temos uma das maiores inflações do mundo. Os Estados Unidos vão fechar com uma inflação acima de 7%. Mas a questão é que a inflação americana não causa fome. Essa é a grande questão, independentemente se a inflação vai dar 9% ou 10%. Tem gente passando fome no Brasil. Ter mais de 20% de inflação acumulada em dois anos para uma família com renda entre um e três salários mínimos  (de R$ 1.212 a R$ R$ 3.636) é muito diferente de uma família com renda acima de oito salários mínimos (R$ 9.696). Apesar do índice ser parecido, para a família com renda de até três salários, perder 20% do poder de compra em dois anos é passar fome, e é o que está acontecendo. O brasileiro rico vai deixar de viajar, vai perder qualidade de vida, mas não vai ficar em risco. Temos um problema social seríssimo com a inflação nesse patamar.

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IPCA desacelera para 0,47% em maio; em 12 meses, está em 11,73%

Em abril, inflação havia ficado em 1,06%; número de maio veio abaixo do esperado pelo mercado, de 0,6%

Daniela Amorim, Eduardo Laguna e Cícero Cotrim, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2022 | 09h01

IPCA, índice oficial de inflação  no País, desacelerou de 1,06% em abril para 0,47% em maio, segundo os dados divulgados nesta quinta-feira, 9, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado ficou abaixo da mediana das estimativas do mercado ouvidas pelo Estadão/Broadcast, que era de 0,60%.  

 

A taxa acumulada em 12 meses está em 11,73%, enquanto a meta de inflação perseguida pelo Banco Central este ano é de 3,5%, com teto de tolerância de 5%. No ano, o IPCA soma 4,78%.

De acordo com o IBGE, oito dos nove grupos de produtos e serviços pesquisados tiveram alta em maio, sendo a maior variação vindo do grupo Vestuário, com alta de 2,11% no mês. O grupo Transportes teve alta de 1,34%, uma desaceleração em relação ao 1,91% do mês anterior. O grupo Alimentos e bebidas também desacelerou, registrando 0,48% em maio, frente à alta de 2,06% em abril. De acordo com o instituto, o único grupo a apresentar queda foi Habitação (-1,70%). Os outros  grupos ficaram entre o 0,04% de Educação e o 1,01% de Saúde e cuidados pessoais.

Entre os pontos positivos dos números divulgados nesta quinta-feira está o recuo de preços de alguns produtos que vinham sendo considerados "vilões" da inflação. O tomate, por exemplo, teve queda de 23,72%, enquanto a cenoura recuou 24,07%. Por outro lado, a cebola teve alta de 21,36%, o maior aumento dentro do IPCA de maio. 

Além disso, a inflação também começou a ficar menos "espalhada". O número de produtos pesquisados pelo IBGE que teve alta de preço, o denominado "índice de difusão", caiu de 78% em abril para 72% em maio.

Redução lenta

Para Rafaela Vitória, economista-chefe do Banco Inter, a surpresa com o IPCA de maio indica que a inflação saiu do pico, porém deve mostrar desaceleração lenta, o que deve obrigar o Banco Central (BC) a manter os juros elevados por bom tempo. Para ela, o dado reforça a expectativa de o BC encerrar o ciclo de alta dos juros na quarta-feira, levando a Selic para 13,25% em derradeira elevação de meio ponto porcentual, porém com um comunicado em tom duro.

“Haveria até um espaço para a próxima e última alta ser menor, de 0,25 ponto porcentual, mas o BC não deve surpreender o consenso de mercado, considerando as incertezas que estão maiores que o comum”, avalia Rafaela.

“A comunicação, no entanto, deve ser firme”, complementa a economista, acrescentando ainda que, com as expectativas de inflação aproximando-se do teto da meta do ano que vem, o BC deve comunicar que a taxa de juros permanecerá em nível restritivo até as expectativas estarem ancoradas.

Já para Luis Menon, economista da corretora Garde, a desaceleração do IPCA maior do que a prevista pelo mercado não muda significativamente a tendência da inflação oficial, que, sem as medidas que estão sendo negociadas pelo governo para desonerar os combustíveis e o gás, terminaria o ano acima de 9%.

Menon chama a atenção para a dinâmica ainda considerada muito ruim do IPCA, com seus núcleos, onde se captura a tendência dos preços sem os choques temporários, ainda mostrando, na média, aceleração em 12 meses: de 9,69%, em abril, para 10,11% em maio.

“Esse número não deve causar revisões significativas para nossa projeção de IPCA, que não fossem as medidas populistas que governo tenta aprovar no Congresso para baixar o preço de combustível e energia continuaria acima 9% em 2022”, diz o economista.

Para João Savignon, economista da Kínitro Capital, apesar de a inflação ter ficado abaixo do esperado, o quadro ainda é desafiador. "O IPCA pode deixar uma sensação de alívio momentâneo, mas o cenário segue desafiador e continua difícil para o BC encerrar o ciclo de alta (dos juros)", resume Savignon. "Nosso cenário ainda é de que o Copom dê um aumento de 0,5 ponto e deixe a porta aberta, mas a chance de subir mais é grande. Estamos falando de uma Selic terminal mais para 14% do que para 13,25%."

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