Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Brasil precisa fazer 'plano safra de guerra' para levar alimentos a novos mercados, diz ex-ministro

Roberto Rodrigues acredita ser possível aumentar a produção para suprir a demanda global por alimentos

Entrevista com

Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2022 | 05h00

O Brasil pode aproveitar o cenário de escassez criado pela guerra entre Rússia e Ucrânia para conquistar novos mercados e se posicionar como o grande produtor de alimentos para o mundo. Para isso, o país precisa fazer de imediato um "plano safra de guerra" para atingir, já em 2023, uma produção de 300 milhões de toneladas de grãos – 30 milhões a mais que este ano. É o que defende o engenheiro agrônomo e coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Agro), Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura

Para ele, o país da agricultura que mais avançou nos últimos 30 anos tem condições de continuar crescendo no agro, com tecnologia e sustentabilidade, para se tornar realmente o celeiro do mundo. "Em menos de dez anos, estaremos alimentando 1 bilhão de pessoas, sendo um país que vai defender a segurança alimentar e, portanto, a paz", afirmou, em entrevista ao Estadão.

Que lições o agro brasileiro pode tirar do cenário atual, de escassez de alimentos, inflação, financiamento escasso e a guerra entre Rússia e Ucrânia?

Com a pandemia, muitos países que não eram autossuficientes foram ao mercado em 2020 em busca de alimentos para garantir estoques adicionais para sua população. Só que os estoques mundiais estavam abaixo da média e, como a demanda cresceu, os preços dobraram, principalmente de soja e milho. Houve uma inflação global de alimentos que também levou vários países e produtores a aumentar a área plantada para atender essa demanda. Para isso, eles precisaram de mais insumos, fertilizantes, defensivos, sementes e máquinas. Também nesse caso as cadeias foram rompidas e com isso os preços dos insumos subiram muito. Como consequência, passou a haver necessidade de mais crédito. No caso brasileiro, em que a economia não vai muito bem, os recursos para crédito não estão tão disponíveis e, com a inflação alta, o juro também vai ficar mais elevado. Assim, temos uma oferta de crédito limitada e uma demanda maior, porque os custos subiram. Essa é uma versão para um ano de safra normal, mas nós estamos em um ano de guerra lá fora e que reflete no abastecimento alimentar do mundo todo. O Brasil tem um papel a cumprir que é aumentar sua produção para suprir a demanda global, reduzir a inflação do alimento no mundo e também ganhar um espaço global nos seus mercados, mostrando que podemos ser um produtor mundial de alimentos maior do que já somos, confiável e com qualidade. É realmente o caso de o governo e a sociedade brasileira, pois não é um problema só do governo, atuarem para que entrem as tradings, os fabricantes e importadores de insumos, os bancos privados, o seguro para que tenhamos um plano de safra excepcional. Tem de haver um movimento muito grande do país como um todo para conquistar um espaço maior no mundo, melhorando nossa imagem lá fora e ganhando a confiança mundial como distribuidor de alimentos. Para isso, precisamos de um plano de safra de guerra.

Com custos mais elevados, falta de fertilizantes e aperto financeiro do governo, qual a saída para o produtor plantar a safra?

A saída é se unir às tradings, aos bancos privados, às cooperativas, às associações de classe para montar um programa que não seja todo ele dependente do governo. Todo mundo tem de se somar nesse processo e com uma característica importantíssima, por isso as tradings são fundamentais. Um aumento muito grande de produção não pode representar perda de valor das safras internamente. Não adianta o Brasil ser um grande exportador, alimentar o mundo, se os produtores ficarem descapitalizados, porque aí o problema é lá na frente. Tem de ter um programa articulado, com preço de garantia, com seguro funcionando, em que o produtor público e privado se juntem nesse projeto de safra recorde para alimentar o mundo. Eu acho que é perfeitamente possível produzirmos uma safra de mais de 300 milhões de toneladas de grãos, muito acima do que vamos produzir este ano, de 270 milhões de toneladas de grãos. Aumentar 30 milhões não é difícil, é necessário que o tempo corra bem, naturalmente, mas o produtor rural brasileiro está capacitado para fazer isso com tranquilidade.

Depois de seguidos recordes de produção agrícola, o agro brasileiro ainda pode continuar crescendo?

Temos condições de avançar porque temos investimento em tecnologia para produzir mais sem aumentar a área plantada. Do plano Collor, em 1990, até hoje, a área plantada com grãos cresceu 92% e a produção de grãos cresceu 340%, ou seja,a produção cresceu quase quatro vezes mais do que a área plantada. Com tecnologia, tivemos mais produção por hectare e esse processo continua com novas técnicas: integração agropecuária-floresta, uso de fertilizantes orgânicos, agricultura regenerativa. Podemos aumentar muito mais a produção de grãos e de carnes também. Hoje, por exemplo, a área de pasto vem diminuindo no Brasil e a produção de carne vem aumentando, porque a carga por hectare também aumenta com sustentabilidade. A agricultura brasileira tem uma tecnologia tropical sustentável que permite saltos ainda importantes pela frente. Cultivamos no Brasil cerca de 72 milhões de hectares com grãos em três safras por ano. Se tivéssemos a mesma produtividade por hectare que tínhamos em 1990, precisaríamos plantar mais 103 milhões de hectares para fazer a safra deste ano, ou seja, nós preservamos 103 milhões de hectares. É uma agricultura sustentável na veia, não é um sonho irrealizável, fizemos e continuamos a fazer cada vez com mais tecnologia e numa ação consistente. Aliás, não é só para alimentos: temos energia renovável com etanol de cana, etanol de milho, biodiesel de soja ou de sebo bovino, ou até de óleo de palma. São alternativas sustentáveis para combustíveis líquidos que o mundo já olha com muito mais simpatia e interesse.

Desde sua passagem pelo Ministério da Agricultura, de janeiro de 2003 a junho de 2006, o que mudou no agro brasileiro?

Como ministro da Agricultura, a primeira coisa que fiz, em 2003, foi criar o seguro rural, que é a base de uma política agrícola de renda. Também fizemos a lei da biossegurança viabilizando o uso de transgênicos aqui no Brasil que era proibido até então. Isso deu um salto de produtividade e de competitividade extraordinário. Hoje, mais de 90% da soja, do milho e do algodão no Brasil são transgênicos e isso graças àquela legislação. Outro tema importante foram os novos títulos do agronegócio, que são elementos fundamentais para o crédito rural. A criação de adidos agrícolas em várias embaixadas do Brasil no exterior permitiu uma abertura muito maior de comunicação sobre o agro brasileiro, gerando novos mercados. Políticas desenvolvidas naquele período permitiram ao longo do tempo um crescimento tecnológico e no financiamento da produção agrícola no Brasil, conquistando mercados espetaculares. No ano 2000, o agronegócio brasileiro exportou 20 bilhões de dólares. Em 2021, exportou 120 bilhões de dólares, seis vezes mais em 20 anos. É uma coisa que nenhum outro país fez, graças à tecnologia e à renovação, com muita gente jovem vindo para a gestão do agro. Muita coisa continuará mudando, graças a isso: tecnologia, gestão, internet das coisas e sobretudo a nossa sustentabilidade. Temos ainda que eliminar muitas barreiras, como desmatamento ilegal, invasão de terras, grilagem de terras, mineração clandestina, incêndios criminosos, acertar a questão fundiária, mas a agricultura brasileira tem uma condição notável de crescer e alimentar o mundo cada vez em mais quantidade. Hoje, segundo a Embrapa, o agro brasileiro já alimenta 800 milhões de pessoas no mundo inteirinho. Muito facilmente, em menos de dez anos, estaremos alimentando 1 bilhão de pessoas, sendo portanto um país que vai defender a segurança alimentar e, portanto, a paz, porque não haverá paz enquanto houver fome. 

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