Wilton Junior/Estadão
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'O Brasil poderia atrair ainda mais capital', diz economista-chefe do Credit Suisse

Para Solange Srour, o mercado brasileiro teria potencial de receber muito mais recursos de investidores estrangeiros se houvesse clareza sobre a política econômica no próximo governo

Filipe Serrano, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2022 | 05h00

A economista-chefe do banco Credit Suisse no Brasil, Solange Srour, tem notado um aumento do interesse de investidores estrangeiros pelo Brasil nos últimos meses. A subida das taxas de juros e da inflação no mundo todo atraíram a atenção de investidores para os países emergentes, como o Brasil, que podem se beneficiar dos preços mais altos das matérias-primas e dos produtos agrícolas – as chamadas commodities. Só nos primeiros meses do ano, a Bolsa brasileira atraiu R$ 64 bilhões em capital estrangeiro. Mas, segundo a economista, o Brasil poderia receber uma parte ainda maior do fluxo de capital que está sendo deslocado para os emergentes. 

O que impede uma entrada mais forte de recursos são as dúvidas que pairam sobre a economia brasileira a partir de 2023, sem uma clareza sobre as políticas econômicas que serão adotadas no próximo governo. "Do portfólio global que está sendo deslocado para o Brasil, a gente está falando de algo na casa de menos de 2% ou 3% do total. Pode ser muito maior", afirma ela. 

A economista também diz que deve revisar para cima a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para este ano, mas continua prevendo uma estagnação, por causa dos juros elevados e da inflação ainda alta, que pressionam o consumo das famílias e o crédito. "Até as eleições, o debate econômico está paralisado", diz ela na entrevista a seguir.  

Passado o primeiro trimestre, o que esperar para a economia brasileira este ano, com juros elevados e inflação ainda alta?

Vai ser um ano em que a economia não deve andar. Deve ficar de lado, à espera do que vai acontecer em 2023. Acredito que a gente vai ter um cenário um pouco mais claro só após as eleições. Até as eleições, o debate econômico está paralisado. E não vai se discutir qual vai ser a regra fiscal nova; nem se vai haver intervenção em setores específicos da economia. Não vai haver uma discussão profunda sobre isso. E esse debate é muito importante para a confiança do empresariado. É muito importante para a taxa de juros, que acaba afetando o crédito. É um ano de incerteza. É um ano sem perspectiva de crescimento de fato. 

Quais são as suas projeções mais recentes para o Produto Interno Bruto (PIB)?

A gente estava prevendo uma queda de PIB de -0,5% para este ano, mas vamos divulgar uma revisão na próxima semana, com viés para cima, mais próximo da estabilidade. Apesar das condições atuais, a economia teve uma pequena melhora no primeiro trimestre. O final do último trimestre do ano passado também foi um pouco melhor do que as expectativas de mercado. Mas não é algo que mude o rumo da economia. 

Por que não?

Por conta de um juro real muito alto, que vai precisar se manter alto por causa do choque de inflação. Não só o choque dessa última onda derivada do aumento das commodities, principalmente petróleo e produtos agrícolas, mas porque a inflação está elevada há muito tempo e está espalhada. E as expectativas vêm reagindo a isso. Isso atrapalha o crescimento. E é um ano difícil para investimentos, porque existe uma incerteza enorme do que vai ser do Brasil em 2023. Apesar de essa incerteza eleitoral não estar aparecendo muito no debate, é difícil haver investimento na economia. Investimento real, que matura em médio prazo.

Por que os mercados estão ignorando a incerteza eleitoral?

Porque a conjuntura internacional está favorecendo os emergentes, como o Brasil. A gente vê um fluxo de entrada de capitais na Bolsa muito elevado este ano, derivado justamente dessa mudança de portfólio, causada pelo aumento dos juros americanos, e pelo fato de o Brasil já ter adiantado o processo (de aperto monetário). Outra questão é a guerra. A guerra trouxe um ganho de termos de troca significativo para o Brasil e para outros emergentes. Fora o fato de o Brasil não estar envolvido em nenhuma questão geopolítica. Não somos dependentes de importação de commodities. Setenta por cento da nossa pauta exportadora são commodities. A gente se beneficia desse fluxo por meio do comércio. E isso traz uma melhora na conta corrente, e uma melhora na posição fiscal. Porque a arrecadação é muito dependente de commodities. E a gente vê uma melhora tanto no resultado primário quanto na relação dívida/PIB. Esses fatores têm se sobreposto à discussão eleitoral. 

Até quando dura esse fluxo positivo de capital para o Brasil? 

Pelo perfil de investimentos que a gente está vendo vir para o Brasil, não é um fluxo de curto prazo. Mas, por mais alto que pareça ser, ainda é uma parcela muito pequena do portfólio que está sendo deslocado no mundo, de setores que estão bastante valorizados lá fora. Pode vir muito mais. O Brasil poderia se beneficiar muito mais desse fluxo. E aí, sim, para o investidor estrangeiro mais de longo prazo, faz a diferença ter um cenário mais claro de 2023. Se o cenário internacional continuar favorável e ficar mais claro qual vai ser a política econômica em 2023, pode ser que esse fluxo se intensifique. 

Qual é o volume de capital que está sendo deslocado, e o quanto o Brasil teria o potencial de atrair?

Do portfólio global que está sendo deslocado para o Brasil, a gente está falando de algo de menos de 2% ou 3% do total. Pode ser muito maior. O que a gente está vendo é um interesse do estrangeiro em conversar de novo sobre o Brasil, em vir para o Brasil. E em conversar com setores da economia real. O (capital) que vimos entrar até agora é um gostinho do que pode acontecer. 

O que é discutido nessas conversas?

Os investidores levantam muito a questão se os juros vão ficar altos por muito tempo. Se existe um problema não só de inflação, mas um problema fiscal mais crônico, que possa impedir uma queda do juro real significativa. Perguntam não só sobre as eleições, mas como vai se desenrolar a força política do próximo presidente no Congresso, quem quer que ganhe. Porque o importante é aprovar reformas. Não é só manter a agenda econômica, mas aprofundar a consolidação fiscal. E muito sobre o andamento das reformas microeconômicas, que são muito importantes para o investidor que busca um crescimento potencial no Brasil maior. 

O interesse não é só nos setores exportadores?

Neste primeiro momento, há um interesse grande pelos setores de commodities e por setores que protejam contra a inflação global. Setores que conseguem repassar preço facilmente, incluindo commodities. Existe uma visão de que o ciclo de alta das commodities não vai acabar com o conflito da Ucrânia. Vai ser mais longo. Mas existe interesse em conversar e em entender os setores mais relacionados ao consumo e à infraestrutura no Brasil, e setores que se beneficiariam de um crescimento econômico maior. É um interesse de médio prazo. E tem aumentado porque, de fato, o Brasil e vários emergentes ficaram para trás na valorização dos ativos pós-pandemia. A gente ficou barato. Agora, o quão barato a gente está, é o que eles querem entender. E só dá para responder isso sabendo qual vai ser a agenda dos próximos anos. 

Vocês revisaram a projeção de inflação para 7,8% em 2022, uma das estimativas mais altas no mercado. O que pesou nessa decisão? 

A gente tem sido mais pessimista sobre a inflação faz bastante tempo, porque a inércia no Brasil ainda é muito alta. E ela fica mais alta com a inflação mais alta. O coeficiente de repasse aumenta com a inflação. É o que vimos ao longo dos últimos 24 meses e não mudamos nossa opinião. Fizemos essa revisão por causa de uma alta em toda a cadeia de combustíveis. E não há muito espaço para queda. O petróleo deve se manter num nível próximo do que está hoje até o fim do ano. Além disso, há uma pressão grande dos preços de alimentação, e não vemos espaço para alívio. O curioso é que, apesar de ter uma projeção mais alta há muito tempo, a gente está sendo surpreendido. A gente está sendo surpreendido pela disseminação da inflação e pelo aumento dos serviços. Tudo isso me levou a revisar para 7,8%. É o número que a gente acha justo, dado os preços de commodities que a gente espera até o final do ano. 

A queda do dólar pode reduzir a inflação?

O câmbio ajuda. Estou trabalhando com R$ 5,10 até o fim do ano. Se o câmbio caminhar num patamar mais apreciado, pode ser que ajude ainda este ano. Mas acho que o efeito será maior na inflação de 2023 do que na de 2022. Porque 2022 tem essa questão de commodities que é difícil de desmantelar nos próximos seis ou nove meses. Para o ano que vem, se as commodities ficarem estáveis e o câmbio continuar apreciando, isso ajuda muito a inflação de 2023. Por isso a gente tem dito que não é a hora de o Banco Central abandonar a meta de 2023. O Banco Central deve cada vez mais enfatizar que é factível 2023. Porque o câmbio pode exercer um papel importante. 

A pressão inflacionária se estende para o segundo semestre?

Com base no que a gente tem hoje de projeção mensal, o nível máximo da inflação vai ser em torno do segundo trimestre e depois vai desacelerando. Vai passar de 12% e vai desacelerando, para fechar em 7,8%. No segundo semestre tem um alívio, mas isso vai depender do cenário de commodities. Essa é a grande dúvida – e não só para o Brasil, mas para o mundo inteiro. Vimos os números altos de inflação na França, Espanha, Itália. A inflação está surpreendendo para cima em todo o mundo, e é por conta de commodities. Essa expectativa de que o segundo semestre vai ser melhor é uma expectativa global. 

Os juros mais altos nos EUA ajudam a conter a inflação global?

Se tiver um Fed (Federal Reserve, o banco central americano) que de fato vai apertar a política monetária mais significativamente, vai ter uma desaceleração dos EUA e isso tem repercussão global. Agora, isso vai ajudar os emergentes? Aí é outro ponto. A inflação global pode cair, mas se o dólar ficar forte, e haver essa reversão de moedas emergentes, o Brasil pode ver o câmbio depreciar de novo. Além disso, as commodities caem por conta do crescimento menor. Não acho que seria uma ajuda para a inflação no Brasil o Fed apertar a política monetária mais do que está sendo esperado hoje. Atrapalharia muito a nossa queda de inflação. A repercussão para o Brasil seria pior. 

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