'Enxurrada' de interessados deixará dólar mais barato

Mercado de câmbio se contaminou com apostas de valorização do real em função da expectativa com operação da estatal

Renato Andrade com Colaboração de Adriana Fernandes e Fábio Graner., O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2010 | 00h00

BRASÍLIA

A expectativa de uma forte entrada de dólares no mercado brasileiro por conta da capitalização da Petrobrás tem mantido o real valorizado. Essa ligação entre a operação da estatal e o comportamento da taxa de câmbio tem sido mais do que suficiente para conter os efeitos do aumento das importações e a redução no volume de investimentos estrangeiros no País, fatores que naturalmente derrubariam a cotação da moeda nacional.

A relação entre o real forte e a capitalização reflete as apostas dos bancos sobre os rumos da moeda brasileira. As instituições acreditam que haverá grande ingresso de dólares no País e, se houver a "enxurrada" esperada, a tendência é a moeda americana ficar mais barata.

No mercado de compra e venda à vista de dólares, os bancos mantêm US$ 10 bilhões em negócios que indicam essa aposta em novas rodadas de valorização do real. O entusiasmo é tão grande que essas mesmas instituições têm, no mercado futuro, contratos de proteção contra uma possível escassez de dólar para apenas US$ 3,3 bilhões.

"A não ocorrência do ingresso presumível de recursos externos este ano, oriundos da subscrição de ações, tornará mais difícil a cobertura da exposição a descoberto dos bancos no mercado de câmbio à vista", salientou o diretor executivo da NGO Corretora de Câmbio, Sidnei Nehme, em nota enviada para seus clientes na sexta-feira.

A incerteza sobre quanto dinheiro ingressará no Brasil por conta da capitalização da Petrobrás foi agravada na semana passada diante da possibilidade de um novo adiamento da operação. Para Nehme, se a operação ficar para 2011, esse adiamento pode ser o "gatilho" para os bancos reverterem suas apostas e dar início a um processo de valorização do dólar e perda de força do real.

Economistas do governo reconhecem que o mercado de câmbio à vista está muito contaminado pelas apostas de valorização do real provocadas pela expectativa em relação à operação da Petrobrás.

O próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega, já demonstrou preocupação com o risco de instabilidade. Por isso, defende que o Banco Central atue no mercado futuro de câmbio, O próprio BC fez uma consulta sobre o apetite dos bancos por contratos que funcionam como uma espécie de compra de dólares futura. Passado um mês da consulta nenhuma medida foi tomada.

Expectativa positiva

US$ 10 bi

é o valor que os bancos mantêm no mercado de compra e venda à vista de dólares, em negócios que indicam aposta em novas rodadas de valorização do real

US$ 3,3 bi

é o valor que essas mesmas instituições mantêm no mercado futuro, em contratos

de proteção contra uma possível escassez de dólar

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