Epicentro da crise está na indústria

A crise pela qual a economia brasileira passa tem seu epicentro no setor industrial. É o que mostram mais uma vez as estatísticas de produção industrial do IBGE, divulgadas nesta quinta-feira, 7. Em novembro, a queda foi de 2,4% em relação a outubro, com ajuste sazonal, e de 12,3% frente ao mesmo mês do ano anterior. Com praticamente o ano todo já coberto pela pesquisa, a variação de -8,1% da produção no acumulado entre janeiro e novembro dá o tom da contração anual.

Rafael Cagnin*, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2016 | 21h56

Eventos excepcionais marcaram o resultado de novembro, com destaque para a greve de funcionários da Petrobrás, na Bacia de Campos, que durou quase todo o mês de novembro, além dos impactos do desastre ambiental provocado pelo rompimento da barragem da mineradora Samarco, em Minas Gerais.

Com isso, a produção da indústria extrativa caiu 10,9% em relação a outubro e 10,5% na comparação com novembro de 2014, afetando, em alguma medida, também o desempenho de bens intermediários.

Mas esses foram apenas mais alguns percalços enfrentados pela indústria. O quadro já vinha bastante ruim. O setor de bens de capital é o que mais tem sofrido, na esteira da brusca queda do investimento. Desde agosto, a produção desses bens tem caído, mês a mês, mais de 30% na comparação com o mesmo período do ano anterior. Apesar da estabilização do ritmo de queda, esse é um patamar bastante expressivo.

Já a produção de bens de consumo duráveis continua sendo prejudicada pelo encarecimento e pela contração dos volumes de crédito e pelo declínio do rendimento real das famílias, mantendo sua trajetória de deterioração em novembro. A queda de 12,4% no segundo trimestre avançou para 18,9% no terceiro trimestre e, agora, para 28,7% no bimestre formado pelos meses de outubro e novembro, em relação aos mesmos períodos do ano passado.

Apenas a produção de bens de consumo semi e não duráveis parece ter tido algum alívio, apresentando uma queda menos intensa em novembro. Essa desaceleração foi influenciada pelo melhor desempenho da produção de alimentos, que, na comparação com o mesmo mês do ano anterior, conseguiu obter uma variação positiva, ainda que pequena (0,7%), e de bebidas, que apresentou alta de 1,3% em novembro de 2015 em comparação a novembro de 2014.

Isso pode estar refletindo a essencialidade desses bens, que impede maiores ajustes na quantidade consumida pelas famílias, a despeito da evolução da sua renda e da inflação de alimentos, bem como o crescimento do volume de exportações de alguns produtos.

*Economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi)

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