Ministério da Economia
Guedes tem enviado os secretários especiais de Fazenda, Waldery Rodrigues, e Executivo, Marcelo Guaranys, para as reuniões no Palácio do Planalto Ministério da Economia

Equipe de Guedes projeta retorno gradual da quarentena a partir de 7 de abril

A previsão de retomada das atividades coincide com o período de pico da transmissão do vírus anunciado pelo ministro da Saúde

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2020 | 16h03

BRASÍLIA - A equipe econômica trabalha com a possibilidade de retomada gradual da quarentena a partir de 7 abril. Segundo apurou o Estado, o prazo se baseia na data inicial de fim do isolamento imposto pelo Estado de São Paulo.

No sábado passado, 21, o  governador de São Paulo, João Doria (PSDB), decretou 15 dias de quarentena, a partir de terça-feira, 24, mas a duração pode ser prorrogada. Ela é válida em todos os 645 municípios paulistas.  

A previsão de retomada das atividades pelos assessores de Guedes coincide com o período de pico da transmissão do vírus, segundo o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Na sexta-feira, ele afirmou que a transmissão do novo coronavírus continuará a crescer até maio e junho e só terá uma "queda brusca" a partir de setembro.  

"A gente imagina que ela vai pegar velocidade e subir na próxima semana ou 10 dias. A gente deve entrar em abril e iniciar a subida rápida. Essa subida rápida vai durar o mês de abril, o mês de maio e o mês de junho, quando ela vai começar a ter uma tendência de desaceleração de subida. No mês de julho ela deve começar o platô. Em agosto, esse platô vai começar a mostrar tendência de queda. E a queda em setembro é uma queda profunda, tal qual foi a queda de março na China", explicou o ministro durante uma reunião com empresários, realizada por videoconferência. 

Como mostrou o Estado, o polêmico e criticado pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro na noite desta terça-feira, em que pediu o fim do “confinamento em massa”, tem eco na equipe econômica. O ministro da Economia, Paulo Guedes, é um dos integrantes do governo a alertar o presidente Bolsonaro sobre o risco da paralisação brusca da economia por meses seguidos. A interlocutores, porém, ele diz que não tem conhecimento para opinar sobre saúde. O ministro e sua equipe também têm conversado com empresários sobre o tema.  

A defesa do isolamento só daqueles do chamado grupo de risco, como idosos e portadores de comorbidades, vai na direção oposta às recomendações de autoridades sanitárias, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), que defendem o isolamento para todos como a única forma de evitar a disseminação da doença em estado de transmissão sustentada, ou seja, quando não se sabe a origem da contaminação.   

Com 70 anos, o próprio ministro Paulo Guedes trabalha de casa, no Rio de Janeiro. Para as reuniões no Palácio do Planalto, Guedes tem enviado os secretários especiais de Fazenda, Waldery Rodrigues, e Executivo, Marcelo Guaranys.  

Oficialmente, a sua assessoria diz que a recomendação para o grupo de risco é ficar em casa. Assessores do seu gabinete estão insistindo para ele ficar em casa, onde participa de reuniões virtuais.

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Presidente da CNI defende 'volta gradual' do comércio e produção industrial

Para Robson Andrade, a área econômica do governo federal está “morosa” na ação para combater os efeitos da pandemia na atividade industrial

Entrevista com

Robson Andrade, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI)

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2020 | 15h14

BRASÍLIA - O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, defende a volta gradual do comércio e da produção industrial. “Estamos estudando propostas que possamos levar ao retorno gradual da economia”, afirmou. Assim como o presidente Jair Bolsonaro, Andrade defende isolamento parcial, apenas para idosos e doentes.

As ações de isolamento para todos sem distinção são recomendações de autoridades sanitárias, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), como a única forma de evitar a disseminação da doença em estado de transmissão sustentada, ou seja, quando não se sabe a origem da contaminação. 

Para Andrade, a área econômica do governo federal está “morosa” na ação para combater os efeitos da pandemia na atividade. Ele defende o adiamento do pagamento de impostos pelas empresas e da entrega do Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF). Também diz que o governo deve usar com os servidores públicos o  mesmo "remédio" dado aos trabalhadores da iniciativa privada: corte de salários e jornada.

O presidente da CNI, com 72 anos, foi um dos infectados pela covid-19 e completa nesta quarta-feira, 25, o período de quarentena. Ele e outras 23 pessoas que estiveram com o presidente na viagem aos Estados Unidos, no início de março, testaram positivo para o vírus. 

O senhor concorda com o discurso do presidente Bolsonaro defendendo o fim do confinamento em massa?

Temos conversado com as lideranças empresariais. O que acontece é que a situação após o pico da crise pode ser muito pior do que a gente imagina. As crianças, as pessoas que estão na fase de estudo, não têm muito risco, mas não adianta ir para aula, porque tem aglomeração. Como isolar as pessoas idosas e deixar o resto voltar à normalidade de maneira gradual? Isso deveria estar sendo pensado pelas autoridades e governos. Como fazer que a economia volte de maneira muito gradual para que não tenha muito impacto no desemprego e na falta de recursos financeiros para a sociedade.

O senhor defende uma volta gradual?

Defendo, sim, uma volta gradual -  do comércio, das atividades econômicas, da produção industrial -  buscando uma forma de isolar as pessoas de riscos, as que têm doença ou que estão numa faixa elevada de idade. Está havendo muita briga política nessa questão por poder. As autoridades ficando umas contra as outras com visão política de médio prazo.

O que a CNI vai propor?

Eu tenho, com os presidentes das federações, estudado propostas que possamos levar para um retorno gradual da economia e um isolamento de crianças. Perder dois a três meses de aula numa vida inteira, não é isso que vai fazer diferença. E achar uma solução para manter as pessoas idosas, com acompanhamento. Do contrário, daqui a três, quatros meses, as pessoas já perderam o emprego.

Como a indústria vai funcionar em meio ao caos e a necessidade de isolamento?

Minha preocupação grande é com o ambiente de trabalho, de produção. Como as pessoas vão estar passado o surto. A retomada da produção vai ser mais lenta e com mais dificuldade. O problema maior é o desemprego que isso pode gerar. Essa é a minha grande preocupação do momento. A minha que estou falando é da CNI. Na realidade, qualquer setor hoje que seja impactado influencia todos os outros. Veja, o fechamento dos shoppings. Hoje, não tem como manter os funcionários recebendo salário. O capital financeiro das empresas está comprometido. O desemprego gera falta de consumo. Isso vai ser uma cadeia. Fazer home office se consegue na área de serviços, mas no comércio e na indústria é muito difícil. Não tem como fazer. Até porque poucas empresas dominam hoje o mercado digital, eletrônico.

Qual é a estratégia?

Estamos conversando. As indústrias estão tomando orientações para os trabalhadores de como evitar a contaminação, ficar mais distante um do outro. Sempre higienizando as mãos, usando as máscaras. Mas alguns setores vão manter a produção de acordo com nossas pesquisas. É claro que está havendo um respeito grande com os trabalhadores. Aqueles que se sentirem na faixa de risco. Estamos recomendando às empresas para que aqueles trabalhadores que estiverem inseguros, com certo receio de ser contaminados, é preferível deixá-los em casa por algum tempo, mas para tomarem medidas para continuarem produzindo, especialmente os bens essenciais. O que pode faltar agora é alimento, medicamento, equipamento hospitalares, comunicação. Temos contato com 700 mil empresas que representam 10 milhões de trabalhadores. Estamos procurando acalmar o ambiente pela seriedade do momento, mas temos que ter responsabilidade com o País.

O senhor prevê muita demissão na indústria?

Estamos recomendando para evitar demissões. Há alternativas hoje. Colocar a pessoa de férias, reduzir a carga horária, usar o banco de horas. Tem que procurar evitar a demissão. Até porque a demissão traria consequências posteriores. Precisamos ter o equilíbrio necessário para retomar a atividade daqui a alguns meses.

As indústrias estão com estoque?  

Elas têm ainda algum estoque sim, mas é difícil determinar, porque cada região é uma situação diferente. As medidas do governo foram adequadas. Mas eu acho que o governo deveria tomar é a mesma orientação para as empresas de reduzir a carga horária de trabalho, com redução de salários, fazer isso no funcionário público. Certamente a receita de impostos dos Estados, municípios e União será reduzida. Se ele usar os recursos para pagar funcionário, vai ser pior depois. Por que o governo não dá o mesmo remédio que está recomendando para a iniciativa privada para os funcionários públicos? Se não vai acontecer um injustiça enorme no Brasil.

O que o governo pode fazer para ajudar a indústria?

A principal coisa é postergar o pagamento de impostos. Não estou falando cancelar. Postergar a entrega de obrigações acessórias, adiar a entrega do Imposto de Renda Pessoa Física, liberar crédito de médio prazo para capital de giro das empresas. Para que este ano, as empresas tenham condições de financiamento com taxa Selic (a taxa básica de juros). E esse pagamento ocorra em 2021.

Por que é importante adiar o IRPF?

As pessoas não estão tendo as informações necessárias. As empresas estão com dificuldade de emitir os informes de remuneração de 2019. Vai ser um caos se o governo não estender esse prazo. Nunca vivemos uma situação como essa. Se não entregar a declaração não é porque você não quis, é porque não pode. Não tem funcionário para trabalhar na área administrativa.

As empresas do Simples já tiveram postergação do pagamento.

As demais também têm que ter.

Como o senhor vê a reação do governo à crise?

Na saúde, está indo bem. Mas na economia está moroso. Muita burocracia. Está amarrado à legislação. O governo pode tomar medidas mais firmes, fazendo pagamentos para as pessoas mais vulneráveis.

Como foi receber o diagnóstico de que estava com coronavírus?

O susto é grande. Estou em casa por recomendação médica. Eu encarei com serenidade. O contágio, às vezes, ocorre num contato muito simples. Estou bom agora.

O sr. se contaminou na comitiva presidencial que foi aos Estados Unidos? Tem algum ressentimento?

Só pode ter sido, porque logo depois da viagem já comecei a sentir os sintomas. Não tive ressentimento.

O principal sintoma?

Eu tive febre um dia. Tomei um antitérmico e fiquei em estado de gripe. Fica com o corpo doendo, a cabeça pesada, como se estivesse gripado. Eu fiquei três dias assim e depois já melhorou. A minha esposa, eu contaminei. Ela ficou três dias com febre, mas já está bem. Estou na minha residência em Belo Horizonte.

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Discurso de Bolsonaro de fim de 'confinamento em massa' tem respaldo na equipe econômica

Guedes tem insistido na avaliação que, com medo do coronavírus, as pessoas vão desorganizar completamente a cadeia produtiva do País

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2020 | 11h31

O polêmico e criticado discurso do presidente Jair Bolsonaro, em que pediu o fim do “confinamento em massa” diante da escalada da pandemia do novo coronavírus, tem eco na equipe econômica. 

O ministro da Economia, Paulo Guedes, é um dos integrantes do governo a alertar o presidente Bolsonaro sobre o risco da paralisação brusca da economia. 

Nos bastidores de Brasília, o comandante da política econômica tem sido um contraponto à continuidade de um bloqueio generalizado e às medidas de fechamento do comércio e isolamento domiciliar para todos os brasileiros adotadas por muitos governadores. 

Não foi à toa que o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, em linha com o presidente Jair Bolsonaro, afirmou na terça, 24, que restrições impostas nos Estados, como fechamento de comércios, são "péssimas" para o setor de saúde. Apesar de afirmar que não irá pedir aos governadores para afrouxarem as medidas, ele disse que alguns estão percebendo que aceleraram decisões e que será necessário fazer ajustes.

Oficialmente, em entrevista ao Estado, na segunda-feira, 23, Guedes deu uma resposta curta quando foi questionado sobre o confinamento recomendado antes pelo colega Mandetta para conter o alastramento da pandemia: “Eu tenho que seguir, por enquanto, o Mandetta. Ele é o médico”.  

Os argumentos que têm sido usados é que o bloqueio do comércio desconsidera o enorme impacto humanitário e social de uma recessão econômica profunda, que afeta principalmente os segmentos mais vulneráveis da população. 

Nesse cenário, o custo no pós-crise epidêmica seria mais prejudicial para a população. Circulam previsões na Esplanada que o Brasil pode demorar mais de quatro anos para se recuperar do baque econômico, portanto, depois das próximas eleições presidenciais em 2022.

O Estado apurou que Guedes tem insistido na avaliação que, com medo do coronavírus, as pessoas vão desorganizar completamente a cadeia produtiva do País.

Há uma frustração da área econômica porque no primeiro bimestre (janeiro e fevereiro), a arrecadação do governo federal estava crescendo 20% acima do previsto. Agora, há empresas de muitos setores com caixa zero. 

O governo deve anunciar em breve postergação por 90 dias do pagamento de tributos federais para localidades que decretaram calamidade, medida está prevista em portaria de 2012 ainda em vigor, como mostrou reportagem do Estado.

No último dia 16, o  ministro da Economia já havia sinalizado sua posição. Guedes fez um apelo para que a economia brasileira não entrasse em colapso em razão do coronavírus. Em entrevista para anunciar medidas emergenciais para conter o impacto do avanço da doença na economia, chegou a sugerir que os jovens circulassem, e que apenas os idosos, mais vulneráveis ao coronavírus, fiquem confinados. Mas depois recuou e disse que a melhor orientação cabe ao Ministério da Saúde.

"Não é economista que vai falar de saúde, os mais idosos evidentemente têm que se recolher, talvez se aplique até mim. Os mais idosos evidentemente devem se recolher. Os mais idosos vão pra casa, os mais jovens podem circular, tem mais saúde, mais defesa imunológica, e a economia consegue encontrar um meio termo. Porque se ficar todo mundo em casa, o produto (PIB) colapsa", disse.

Com 70 anos, o ministro está em isolamento domiciliar, no Rio de Janeiro, de onde despacha por videoconferência.

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