Equívoco conceitual

A saída para a situação de baixo crescimento em que se encontra a economia brasileira requer um diagnóstico correto das causas desse desempenho. É nesse ponto que reside o problema da estratégia oficial que vem sendo adotada para lidar com os problemas da economia. Se Drummond dizia que no meio do caminho tinha uma pedra, no caso brasileiro no meio do caminho temos um erro de diagnóstico.

Fábio Giambiagi, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2014 | 02h04

Desde a eleição de 2002, aqueles que viriam a ocupar posições no governo a partir de 2003 pregavam simultaneamente três teses. A primeira era que a retomada do crescimento deveria se basear na constituição de um amplo consumo de massas, o que implicaria que o consumo deveria liderar o crescimento. A segunda - consensual - é que a taxa de investimento deveria aumentar. E a terceira, que era necessário atacar o desequilíbrio externo, o que na ocasião significava aumentar as exportações a uma taxa maior que a das importações. Estaríamos todos de acordo, exceto por um detalhe: era impossível cumprir com os três objetivos ao mesmo tempo, pela simples razão de que a soma das partes deve ser igual ao todo. Consumo, investimento e saldo das relações com o exterior não podem aumentar como proporção do PIB ao mesmo tempo.

Lula julgou ter encontrado a solução mágica para resolver aquela impossibilidade graças ao "paraíso zodiacal" que o País viveu no seu segundo mandato. A mágica atendeu pelo nome de melhora dos termos de troca. Foi ela que permitiu que as importações funcionassem como variável de ajuste, crescendo muito acima das exportações, viabilizando o atendimento da expansão do consumo e do investimento e sem afetar pesadamente o balanço de pagamentos (BP). Entre 2004 e 2010, enquanto as exportações, pelos dados da Funcex, cresceram em termos reais a uma média anual de 2%, as importações cresceram nada menos que 12% a.a. Apesar disso, o superávit comercial de 2010 foi ainda de US$ 20 bilhões, graças ao desempenho excepcional dos termos de troca. Hoje, a festa acabou e essa mágica não é mais possível: se o consumo e o investimento crescerem muito, as importações avançarão na frente das exportações e o balanço de pagamentos exibirá um déficit monstruoso.

O que ocorreu naqueles anos, mitigado pelos termos de troca, respondia ao esquema de quem se acostumou a pensar no mundo da restrição de demanda. Nesse caso, de fato, não importam muito os coeficientes relativos ao PIB, porque é possível que o numerador de todos os coeficientes se expanda e a expansão do consumo e do investimento seja satisfeita pelo aumento de tamanho do PIB, sem pressionar excessivamente a balança comercial em termos absolutos. Quando a restrição é de oferta, porém, maior absorção doméstica bate "na veia" no setor externo, que é rapidamente afetado pelos gargalos domésticos existentes. É esse o caso da economia brasileira em tempos recentes.

É um erro imaginar que a insuficiência de investimentos do País se resolve apenas com melhora de gestão e aprimoramento dos projetos. É claro que se conseguirmos isso teremos dado um passo fantástico, à luz das enormes falhas desse tipo de processos. O que se quer frisar, porém, é que isso é somente parte do problema. Melhorar a gestão é condição necessária, mas não suficiente, para que o investimento ocorra. Para isso, é preciso mudar o perfil da economia: precisamos aumentar a taxa de investimento sem "arrebentar" com o BP, o que só pode ter uma solução: diminuir a relação entre o consumo e o PIB.

O problema é que a agenda nacional vai na direção contrária. Independentemente do seu mérito, as reivindicações em favor de "mais isso e mais aquilo" redundam no que se deveria evitar. Qualquer que seja o(a) presidente, em 2015 ele(a) terá de explicar para a cidadania que é preciso dosar as demandas, pois se elas forem satisfeitas, o investimento terá um desempenho raquítico ou o déficit em conta corrente alcançará mais de US$ 100 bilhões. Não é uma questão (apenas) de gestão: há decisões difíceis a tomar.

*Fábio Giambiagi é economista

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