Andrew Quilty/International Herald Tribune
Andrew Quilty/International Herald Tribune

Era bom e se acabou

Depois de uma década de exageros na produção de matérias-primas, a ressaca talvez leve tempo para passar

The Economist

27 de agosto de 2015 | 02h05

Faz dez anos apenas que a Escócia foi sacudida pelo "Grande Roubo dos Bueiros", quando, em poucos dias, cerca de 50 tampas e grades de bueiros desapareceram das ruas do condado de Fife. O episódio sinalizou o início de uma nova era no mercado de commodities, impulsionada pela demanda insaciável que vinha da China. Os preços da sucata - e dos objetos de metal roubados para serem vendidos como sucata - dispararam. A África foi invadida por engenheiros chineses; a Austrália elegeu um primeiro-ministro que falava mandarim; e os mercados emergentes, da Argentina à Zâmbia, eram só sorrisos com a valorização de suas terras agrícolas e áreas de mineração. O boom recebeu o impulso adicional do enfraquecimento do dólar, moeda em que é cotada a maioria das coisas que vem da terra.

Mas a felicidade, embora não tenha sido pouca, se acabou. Ressurgindo das cinzas, o poderoso dólar pôs a nocaute os preços das commodities: nas últimas semanas, muitas delas ficaram abaixo do nível em que estavam uma década atrás. O revés não é compartilhado com outros ativos transacionáveis: na comparação com os mercados acionários, a última vez que a coisa esteve tão ruim para as commodities foi no fim dos anos 90. A situação econômica dos Estados Unidos está melhorando, mas não o bastante para animar os gatunos a passar a mão nos sinos de bronze dos templos chineses e vendê-los como sucata aos americanos. O impacto da recuperação é reprimido pelo desaquecimento da demanda na China, que ainda consome em torno de metade dos metais do planeta, como ferro, alumínio e zinco.

Oferta. A verdadeira desgraça para os produtores de commodities é a superoferta de quase todas as matérias-primas. E, no entanto, eles agem como se não estivessem nem aí. Continuam a despejar capital nos rombos que abrem no solo, criando as condições para uma ressaca que pode se estender por pelo menos uma década. Segundo Jeff Currie, do banco Goldman Sachs, os ciclos anteriores indicam que a absorção do excesso de investimentos pode levar até 15 anos. "O mundo começou a andar na direção contrária, só isso", diz ele.

Analistas observam que o comportamento das commodities não é uniforme. Os preços do carvão começaram a cair em 2011; o petróleo bruto aguentou as pontas até meados de 2014; os preços dos produtos agrícolas estão sujeitos às variações climáticas. Mas há um cheiro de queimado no ar, agora que as perspectivas econômicas da China voltam a preocupar, em parte por conta das quedas registradas nas bolsas de valores e pela inesperada desvalorização do yuan, acontecidas este mês. Entre janeiro e agosto, quase todas as principais commodities - energia, metais e produtos agrícolas - sofreram quedas de 10% a 20%, um desempenho bastante homogêneo. Além disso, o excesso de oferta vem sendo alimentado por fatores comuns. Reduções de custos levaram os produtores a se considerarem capazes de aguentar por mais tempo a baixa nos preços. Pesos pesados, como os príncipes da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e as mineradoras globais, ainda querem aumentar sua participação de mercado. E não faltam recursos para novos investimentos.

A redução nos custos faz parte de uma espiral descendente que se retroalimenta. Fora dos Estados Unidos, a desvalorização cambial em relação ao dólar fez com que insumos internos, como mão de obra, parecessem mais baratos. Ironicamente, a queda nos preços da energia e do aço também ajudou. Na Austrália, por exemplo, a magnata da mineração Gina Rinehart alude aos custos baixos para justificar a abertura de uma mina de US$ 13 bilhões no interior do país, com produção prevista de 55 milhões de toneladas de minério de ferro por ano - o equivalente a todo o minério de ferro extraído anualmente nos Estados Unidos.

Xisto. No segmento de petróleo, os cortes nos custos foram feitos pelos mesmos produtores que, se imaginava, seriam massacrados pela queda nos preços da matéria-prima: as produtoras de petróleo de xisto. Essas pequenas petrolíferas reduziram suas bases de custos em um terço, e continuam a extrair quantidade suficiente de ouro negro para manter os preços em queda. Os custos mais baixos deram a elas uma falsa sensação de segurança em relação ao comportamento dos preços: entre março e junho, quando eles subiram um pouco, o número de plataformas de exploração nos Estados Unidos aumentou pela primeira vez desde dezembro de 2014. Pouco depois, os preços voltaram a cair.

Por sua vez, os esforços que os titãs do segmento de petróleo vêm fazendo para recuperar a participação de mercado perdida para o petróleo de xisto parecem contraproducentes. Sob a liderança da Arábia Saudita, a produção dos países-membros da Opep está bem acima de sua cota de 30 milhões de barris/dia, o que contribuiu para fazer com que, em 19 de agosto, os preços do petróleo bruto ficassem abaixo de US$ 47 o barril - patamar mais baixo desde março de 2009. Se a intenção era sufocar as petrolíferas americanas que extraem petróleo de xisto, o plano deu errado. Pressionadas, essas petrolíferas se tornaram ainda mais eficientes. E as mineradoras globais, como BHP Billiton e Rio Tinto, continuam a aumentar a extração de minério de ferro, mesmo com os preços em queda livre preços. Analistas dizem que o objetivo é pôr para fora do mercado concorrentes que operam com custos mais elevados, na China e em outros países.

Acontece que as fontes de financiamento não secaram. Tomás Gutiérrez, da agência Kallanish Commodities, observa que a produção de aço da China bateu recentemente seu recorde de alta. E, em vez de flertar com a falência, muitas siderúrgicas ineficientes continuam se aguentando em pé, graças ao apoio financeiro que recebem das autoridades locais. O excesso de produção é exportado, aumentando ainda mais a pressão sobre os preços internacionais do aço.

No segmento de petróleo, Currie diz que operações de custo elevado, como a extração de petróleo nas areias betuminosas do Canadá, estão, de forma atípica, nas mãos de grandes conglomerados, com balanços patrimoniais sólidos. E é possível que, mesmo enxugando as despesas, eles levem mais tempo para abandonar de vez esses projetos.

Mais cedo ou mais tarde, o impacto será violento. A menos que os preços parem de cair, as pequenas produtoras de petróleo de xisto correm o risco de se ver em palpos de aranha. Analistas do Deutsche Bank observam que as empresas de energia são responsáveis por cerca de um sexto das emissões de títulos de dívida de alto risco nos Estados Unidos. Em sua opinião, com os preços do petróleo bruto abaixo de US$ 55 o barril, essas companhias devem passar apuros financeiros. E a Opep também tem seus inválidos, como Venezuela, Nigéria e Líbia.

Mas os preços do petróleo talvez ainda não tenham chegado ao fundo do poço. Líder inconteste do cartel, a Arábia Saudita faz ouvidos moucos à ideia de reduzir a produção. No início deste mês, o país levantou US$ 5 bilhões para compensar a queda nas receitas do petróleo. Nos Estados Unidos, com as férias de verão chegando ao fim, os carros devem voltar para as garagens. E, no mês que vem, se o acordo nuclear com o Irã for aprovado pelo Congresso americano, serão abertas as torneiras do petróleo iraniano, que as sanções até agora mantinham fechadas. Em 19 de agosto, a mineradora e operadora de commodities anglo-suíça Glencor divulgou prejuízos galopantes. Seu presidente, Ivan Glasenberg, queixou-se dos concorrentes que relutam em reduzir a produção e lamentou "esses preços que continuam a não fazer sentido".

Por mais desafiadoras que pareçam, as dificuldades atuais não são inauditas. Quando os preços tiverem caído o bastante, por tempo suficiente, a produção entrará em declínio, como aconteceu com o níquel no ano passado. Nesse meio tempo, as grandes mineradoras e petrolíferas absorverão concorrentes menores e se livrarão de seus ativos mais frágeis. Então, tudo estará pronto para o início de mais um ciclo.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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