Era da incerteza

A crer no Banco Central, a incerteza deve estar em alta. E os efeitos disso na economia são bem conhecidos

Fernando Dantas*, O Estado de S.Paulo

09 Junho 2017 | 05h00

O Indicador de Incerteza da Economia do Brasil (IIE-Br) deu um salto de 9,3 pontos, ou de 7,8%, entre abril e maio. A causa óbvia foi o escândalo que atingiu o presidente Michel Temer, colocando em xeque a realização de reformas fundamentais – especialmente a da Previdência – para dar uma base sólida de crescimento ao País depois da arrasadora recessão iniciada em 2014.

Mas o que é exatamente o IIE-Br? Normalmente, incerteza é tida como algo que se sente, e não que se mede. O IIE-Br tem como objetivo, justamente, medir o que era percebido como imensurável. O índice, calculado mensalmente pelo Ibre/FGV, filia-se a uma área de pesquisa que está sendo desenvolvida internacionalmente, para vários países e regiões.

O primeiro passo é entender o que é incerteza. Normalmente, profissionais voltados a projetar o futuro, como economistas de consultorias e do mercado financeiro, trabalham com distintos cenários, aos quais atribuem diferentes probabilidades. O cenário mais provável costuma ser chamado de “básico”. É comum que o pacote de previsões seja complementado por um cenário ‘otimista’ e outro ‘pessimista’.

A incerteza, de forma simplificada, pode ser compreendida como a incapacidade de prever as probabilidades de determinados eventos e, por conseguinte, de diferentes cenários. Enquanto uma nuvem de tempestade no horizonte é um risco, um nevoeiro tão espesso que não permita ver o horizonte caracteriza uma situação de incerteza.

O IIE-Br tem três componentes. O principal, com peso de 70%, é o IIE-Br Mídia, baseado na detecção de combinações de palavras que remetam à incerteza econômica numa enorme base de 2 milhões de notícias de edições online, impressas e do Twitter dos principais veículos da imprensa brasileira. Assim, matérias com termos como instabilidade, incerteza, etc. devem ser encontradas no noticiário voltado à economia. Quanto mais combinações desse tipo forem detectadas num determinado mês, maior o IIE-Br.

Os outros componentes do IIE-Br são o IIE-Br Mercado (20%), baseado na variação das expectativas do mercado em relação à inflação e ao câmbio; e o IIE-Br Mercado, derivado da volatilidade do Ibovespa.

É interessante observar o que ocorreu com os componentes do IIE-Br em maio, quando houve o choque da gravação da conversa entre Temer e Joesley Batista, da Friboi.

O IIE-Br Mídia saltou 8,5 pontos, de 122,7 para 131,2, numa alta de 8,5%. O economista Pedro Guilherme Ferreira, que coordena o índice de incerteza, nota que essa piora foi diluída porque a maior parte de maio, até o final da tarde do dia 17, transcorreu antes da notícia bomba da gravação.

O IIE-Br Expectativa teve até um pequeno recuo, de 100,5 para 99,7, provavelmente a combinação da reação moderada das expectativas inflacionárias e cambiais após o curto pânico do dia 18 com o mesmo efeito de diluição que afetou o IIE-Br Mídia. Já o IIE-Br Mercado subiu 14,9 pontos, ou 16,8%, indicando um claro aumento da volatilidade das ações.

O nível de 128,1 atingido pelo índice brasileiro de incerteza em maio ainda está distante do recorde da série (que começa em 2000), de 145,7 em setembro de 2015. E o avanço de 9,3 pontos entre abril e maio é bem menor do que o salto de 35,9 pontos de setembro para outubro de 2008, quando eclodiu a grande crise global. Por outro lado, a incerteza vinha em trajetória de queda: o IIE-Br estava em 136,4 em dezembro do ano passado e recuou até os 118,8 de abril.

Agora resta ver como evoluiu a incerteza em junho. A crer no Banco Central, que usou a palavra 17 vezes na ata da última reunião do Copom (em 30 e 31 de maio), a incerteza deve estar em alta. E os efeitos disso na economia são bem conhecidos: empresas e consumidores ficam na defensiva e juros sofrem pressão altista. É tudo aquilo de que o Brasil não precisa agora para sair da recessão.

*COLUNISTA DO BROADCAST E CONSULTOR DO IBRE/FGV

 

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