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Era das megafusões só começou

Para especialistas, tendência é irreversível e estimulada pelo governo, mesmo com prejuízo à concorrência

Irany Tereza e Marianna Aragão, O Estadao de S.Paulo

23 de maio de 2009 | 00h00

Há dez anos, o Brasil ingressava na era das megafusões com a AmBev, um negócio que surpreendeu o mercado unindo as duas maiores rivais do setor de bebidas: Antarctica e Brahma. Uniões inesperadas e bilionárias de grandes concorrentes, em processos de fusão ou incorporação, já não são raras no País depois dos casos de Oi-BrT, Itaú-Unibanco, VCP-Aracruz e, agora, Perdigão-Sadia.Tudo é embalado no mesmo papel de proteção de mercado contra investidas de multinacionais e ganho de escala para a competição brasileira na economia globalizada. Uma tendência, segundo especialistas, irreversível e de certa forma estimulada pelo governo. Em nenhum caso, o principal efeito negativo - o prejuízo ao consumidor pelo estreitamento da concorrência - arrebanha argumentos suficientes para interromper o processo de gigantismo empresarial."É evidente que o crescimento das empresas aumenta a concentração. O regulador do mercado tem de criar condições para que o consumidor não seja prejudicado. Mas, com inteligência, sem impedir o crescimento das empresas, porque isso seria negar a elas a capacidade e o tamanho para disputar o jogo no tabuleiro global", diz Sérgio Rosa, presidente da Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil.Ao lado do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Previ forma a principal base financiadora das empresas brasileiras. Os fundos de pensão e o banco terão forte presença na Brasil Foods, resultante da fusão Perdigão-Sadia. Para o coordenador de Fusões e Aquisições da GVPEC (programa de educação continuada da Fundação Getúlio Vargas), Oscar Malvessi, esse é um ciclo da economia brasileira que está apenas começando. "Se as empresas brasileiras não se fundirem, alguém vem de fora e compra. Por isso, é inexorável: esse tipo de alternativa vai aumentar." Para isso, apoio é necessário. "Somos uma criança começando a falar. E é muito óbvio que o BNDES vai apoiar este processo de fortalecimento empresarial. O que não terá maiores consequências se, depois do ?start?, o banco se retirar, para fazer circular esses recursos por empresas menores."Julio Sérgio de Almeida Gomes, professor da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica, não vê retorno no que classifica como um "processo oportunista" do mercado, que a crise acentuou. "Assim que a crise se estabilizar, o que não significa melhorar, os capitais vão se movimentar ainda mais nessa direção. Converso com empresários que estão com o dedo no gatilho, prontos para uma oportunidade de negócios."Ele prevê um movimento maior entre empresas exportadoras, que têm sido mais atingidas pela crise. "No setor de insumos básicos, esse processo pode se amplificar. Não vamos esperar uma fusão de grande porte a cada dia, mas operações relevantes em todos os níveis."PROTEÇÃO NACIONALPara o professor da Fundação Dom Cabral (FDC), Aldemir Drummond, o raciocínio por trás do apoio do governo às grandes fusões, via BNDES, é proteger as companhias brasileiras do assédio de multinacionais estrangeiras. Segundo ele, a Vale foi um dos casos em que a estratégia funcionou. Após comprar algumas mineradoras menores no Brasil, a hoje multinacional brasileira partiu para aquisições no exterior. "Estava claro que se a Vale não crescesse, ia acabar sendo comprada."A criação das megaempresas nacionais, porém, só se justifica em setores em que o País tem vantagens competitivas. "A Brasil Foods certamente tem essa vantagem", diz. No caso da compra da Brasil Telecom pela Oi, há a preocupação com a concorrência estrangeira. "Todas as concorrentes são estrangeiras. Além disso, é um segmento que emprega muita gente e depende de alta tecnologia", avalia.

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