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Era dos juros mais baixos na história ficou para trás em vários mercados emergentes

Países desenvolvidos estariam se antecipando ao eventual início da retirada de estímulos pelo Federal Reserve, que deverá enxugar a liquidez mundial

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2021 | 04h00

O Chile juntou-se, na semana passada, ao Brasil, à Rússia e a outros cincos bancos centrais de países emergentes a elevar os juros básicos neste ano, num processo de aperto monetário sincronizado diante de crescentes pressões inflacionárias e de depreciação cambial. Ficou definitivamente para trás a era dos juros mais baixos na história de vários mercados emergentes.

E a liquidez internacional não seguirá tão abundante. Isso porque alguns países desenvolvidos já começaram a retirar parte dos estímulos emergenciais adotados durante a pandemia de covid, reduzindo o tamanho dos seus programas de compras de ativos, como títulos públicos. É um primeiro passo para o aumento dos juros.

Também na semana passada, o BC da Nova Zelândia encerrou seu programa de compra de ativos e o do Canadá reduziu o valor das suas compras pela segunda vez consecutiva. Na Noruega, a autoridade monetária já sinalizou que deverá elevar os juros duas vezes neste ano, começando provavelmente em setembro. Seria o primeiro país desenvolvido a aumentar a taxa básica.

Muitos dizem que esses países desenvolvidos estariam se antecipando ao eventual início da retirada de estímulos monetários pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) nos EUA, o que certamente levará os investidores globais a migrar de volta para ativos em dólar, enxugando a liquidez mundial.

É cada vez maior a aposta de que o Fed deverá começar a reduzir o seu programa de compras de ativos antes do previsto, em dezembro deste ano ou no início de 2022, no máximo. Ainda há o risco de a primeira alta dos juros americanos ocorrer antes do que foi sinalizado recentemente, até o fim de 2023.

Nos países emergentes, o Brasil é o que está mais avançado no processo de normalização monetária, após o BC ter elevado a taxa Selic em 2,25 pontos porcentuais, para 4,25%, nas últimas três reuniões do Copom. Espera-se que, no curto prazo, a autoridade monetária de outros países emergentes sigam o mesmo caminho. No Coreia do Sul, o presidente do BC sinalizou que uma primeira alta acontecerá ainda neste ano. E, na Colômbia, o mercado espera aperto monetário em setembro.

Há duas razões para o processo de normalização monetária estar mais avançado nos países emergentes do que nos desenvolvidos, diz Marcelo Fonseca, economista-chefe do fundo Opportunity Total. A primeira decorre da diferença no comportamento da inflação entre os dois grupos. O peso dos alimentos e demais matérias-primas é muito maior nos índices de preços ao consumidor nos mercados emergentes, o que explica por que a alta da inflação foi muito mais pronunciada nesses países.

A segunda explicação tem relação com a questão da credibilidade da política monetária, diz Fonseca. “Os bancos centrais emergentes gozam de uma capacidade muito menor de administrar as expectativas de inflação, que é um elemento crítico para garantir o controle do processo inflacionário no médio prazo diante de um choque de preços relativos da magnitude ao que assistimos”, argumenta. “Por sua vez, a ancoragem robusta das expectativas em economias avançadas permite que os BCs desses países tratem esse choque como um evento transitório, e foquem sua atenção apenas nos efeitos permanentes do processo, os quais ainda são largamente desconhecidos.”

Falta aos emergentes essa margem de manobra. “Choques de preços, ainda que transitórios, são largamente transmitidos para as expectativas, seja porque os agentes econômicos não depositam tanta confiança nas credenciais anti-inflacionárias daqueles BCs, seja porque ainda permanecem vivos os mecanismos de indexação de preços e salários, legados de um passado de descontrole inflacionário", diz Fonseca. “Isso obriga os BCs a atuarem rapidamente, a fim de evitarem que o choque de preços venha se enraizar na forma de um processo crônico.”

Todavia, muitos países do Sudeste Asiático, cujas economias ainda não se recuperaram do impacto negativo causado pela pandemia, estão longe de elevar os juros, mesmo que a inflação tenha começado a incomodar em alguns casos. Outra surpresa veio da China, que fez um inesperado corte da taxa do compulsório bancário diante da desaceleração mais forte da sua economia no segundo trimestre deste ano.

Na rabeira do processo de normalização monetária estão, por enquanto, os três pesos pesados da economia mundial: Fed, Banco Central Europeu e Banco do Japão. Quando esses três se mexerem, o ambiente externo para os países emergentes será bem mais desafiador.

*COLUNISTA DO BROADCAST

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