'Era embaraçoso ser da Alemanha Oriental'

Para Sabine Rennefanz, depois da queda do Muro, muita gente sente que sua experiência pessoal e profissional foi desvalorizada e humilhada

O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2014 | 02h06

A maioria dos alemães da região oriental se diz satisfeito com a reunificação do país, mas muitos ainda se ressentem da forma como a transição para o capitalismo foi feita.

Sabine Rennefanz é editora do jornal Berliner Zeitung e tinha 15 anos quando o Muro de Berlim foi derrubado. Em seu livro Eisenkinder: Die stille Wut der Wendegeneration (algo como Crianças de Ferro: A Raiva Silenciosa da Geração da Mudança), ela conta o impacto do episódio. De Berlim, Sabine deu o depoimento abaixo ao Estado.

"Primeiro, quando o muro caiu, foi muito empolgante. Mas em 1990 (ano seguinte à queda do Muro de Berlim) tudo ficou mais sóbrio. Era como se a "revolução pacífica" (como ficaram conhecidos os protestos que antecederam a reunificação da Alemanha) tivesse sido tirada, de repente, das mãos dos alemães orientais.

Tanto meu pai como minha mãe perderam o emprego. Eles tiveram problemas financeiros, sentiram-se culpados pela situação e pararam de falar comigo e meus irmãos. Eu estudava em um internato em Eisenhuettenstadt, que era uma cidade modelo para o socialismo. Havia muita desilusão e desemprego por lá também.

Na minha escola, que era uma escola especial para o ensino de línguas, os professores estavam confusos, o futuro estava em xeque. Eventualmente, a escola fechou. Era o meu sonho estudar lá. Então, para mim, o mundo ruiu.

Agora isso não é mais tão flagrante, mas na década de 90 era embaraçoso ser da Alemanha Oriental. Tudo, das roupas e sotaque ao nosso repertório, era ridicularizado. Agora isso é mais sutil, no sentido de que a então Alemanha Oriental quase não aparece na mídia, a não ser para uma cobertura negativa. Não é bom para a sua carreira ser do leste. Angela Merkel e Joachim Gauck (chanceler e presidente da Alemanha, respectivamente), que nasceram na Alemanha Oriental, são exceção. Há mais gente do lado ocidental, proporcionalmente, em altos cargos ministeriais.

Li que, entre 180 presidentes de grandes empresas alemãs, há mais britânicos que gente da antiga Alemanha Oriental. Mas acho que é um erro confundir essa crítica ao atual sistema com um desejo de retorno à República Democrática Alemã (Alemanha Oriental). É muito importante diferenciar entre o sistema, a ditadura e as vidas individuais das pessoas. Muita gente sente que sua experiência pessoal e profissional foi desvalorizada e humilhada. Especialmente, na geração dos meus pais, perdemos muitas mentes boas."

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