Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Era só o que faltava

Crise levou comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica a deixarem o governo

Rogério Werneck, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2021 | 05h00

Bolsonaro vem colhendo o que plantou: uma crise desnecessariamente agravada e alongada, em decorrência de uma sucessão de equívocos perfeitamente evitáveis, cometidos tanto no combate à pandemia como na condução da política econômica.

Tendo alongado a crise, o Planalto constata agora, a 18 meses da disputa presidencial de 2022, que já não terá tempo para enfrentar com um mínimo de tranquilidade o desafio da reeleição. Aflito como está, Bolsonaro mostra-se mais propenso do que nunca a se deixar levar pelo desatino.

O Planalto iniciou a semana às voltas com uma conjunção de problemas graves que já superava em larga medida sua limitada capacidade de processamento: uma pandemia fora de controle, caminhando para 4 mil mortes por dia, a urgência de desarmar a armadilha orçamentária em que se deixou meter e, ainda, a inevitabilidade de ceder às pressões do Congresso por mudanças no Ministério e mais espaço no governo.

Já enredado em dificuldades tão sérias, o presidente não teve melhor ideia do que deflagrar uma crise militar como não se via no País há mais de quatro décadas. 

Bolsonaro já fora obrigado a se livrar de Eduardo Pazuello, o inacreditável terceiro ministro a quem entregara o Ministério da Saúde.

Nesta semana, chegou a vez do ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, irremediavelmente desgastado com o Congresso.

Há meses, assustado com a possibilidade de vir a ser responsabilizado pela desastrosa evolução da pandemia, Bolsonaro viu-se forçado a contratar um seguro contra impeachment com o Centrão. Não vinha, contudo, cumprindo o acordado. E, na semana passada, o presidente da Câmara, Arthur Lira, viu-se obrigado a chamar Bolsonaro às falas, brandindo “os remédios políticos amargos”, alguns deles fatais, de que dispunha o Congresso para manter o presidente na linha. 

Não faltou quem só visse, no pronunciamento de Lira, alusões aos equívocos do governo no combate à pandemia. Mas o recado era outro. E Bolsonaro o entendeu perfeitamente. Já na segunda-feira, anunciou que entregaria ao Centrão a Secretaria de Governo, responsável por nada menos que a articulação do Planalto com o Congresso. 

A escolhida para substituir o ministro Luiz Eduardo Ramos nesse cargo foi Flavia Arruda, mulher do ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda, deputada federal em primeiro mandato, eleita pelo PL de Valdemar Costa Neto. 

Ao entregar as cabeças de Pazuello e Araújo e concordar com instalar uma fiel representante do Centrão-raiz na Secretaria de Governo da Presidência da República, Bolsonaro viu-se imprensado por outro lado. Temeu que, tendo transigido tanto, pudesse perder parte substancial do apoio da militância bolsonarista mais radical que, bem ou mal, vem dando resiliência à sua popularidade. Acuado e fragilizado como estava, precisava dar uma demonstração de força.

E é aí que entra a despropositada deflagração da crise militar. Há meses, Bolsonaro vem dando sinais de descontentamento com a resistência da cúpula das Forças Armadas a seus arroubos totalitários. Embora tenha até chegado a se referir ao “meu Exército”, ao se manifestar contra as medidas de isolamento adotadas pelos governos subnacionais, o presidente bem sabia que não dispunha de um Exército que pudesse chamar de seu. E se ressentia da falta de alinhamento das Forças Armadas a suas ideias.

Imbuído desse ressentimento, Bolsonaro acabou não resistindo à tentação de fazer valer sua posição de comandante em chefe das Forças Armadas, para tentar demitir o comandante do Exército. Acabou deflagrando uma crise de grandes proporções, que redundou na demissão do ministro da Defesa e dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

Não falta agora quem se esforce para se convencer de que o episódio já está completamente superado e que não deve ser sobrestimado. Muito pelo contrário, o episódio deu indelével realce a mais um grave fator de risco a exacerbar o clima de alta incerteza em que hoje está imersa a economia brasileira.

ECONOMISTA, DOUTOR PELA UNIVERSIDADE HARVARD, É PROFESSOR TITULAR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC-RIO

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