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''Éramos os loucos que inventaram o Proálcool''

Ueki, que ajudou a criar o projeto de redução de dependência do petróleo,em 1975, diz que ideia enfrentou forte oposição

Gustavo Porto, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2010 | 00h00

O ex-ministro de Minas e Energia Shigeaki Ueki, de 75 anos, diz que foi considerado um louco por idealizar, ao lado do então vice-presidente do grupo Ultra Lamartine Navarro Filho e do usineiro Cícero Junqueira Filho, o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), criado há 35 anos.

"Éramos os loucos que inventaram o Proálcool, fomos condenados pela imprensa, disseram que inventamos um programa irrealista", disse Ueki em entrevista à Agência Estado.

O ex-ministro, que também presidiu a Petrobrás, lembra que as discussões no governo sobre a necessidade da criação de um programa para ampliar o consumo de etanol começaram em 1969. Ele admite que fracassou duas vezes na tentativa de emplacar a ideia.Ueki conta ainda que quase falhou uma terceira vez, quando já ocupava as Minas e Energia, e que só com a interferência direta do presidente Ernesto Geisel, o Proálcool foi viabilizado, em 1975.

Leia os principais trechos da entrevista:

Foi o contexto econômico que obrigou a criação do Proálcool?

A dependência do Brasil no setor do petróleo, em 1970, chegou a 85%. E continuou assim por mais de uma década. Com a crise financeira, de 1969 a 1971, o preço do petróleo que eu, como diretor comercial da Petrobrás, comprava abaixo de US$ 1 o barril, chegou a US$ 17. E toda nossa pauta de exportação à época consistia de produtos básicos. Cerca de 60%, 70% da receita do País eram somente para comprar petróleo.

Foram várias as tentativas de emplacar o programa?

O embrião do Proálcool nasceu no governo Castello Branco, com o ministro Paulo Egídio Martins. Os usineiros à época sofreram muito, porque uma tonelada de açúcar caiu a US$ 25 e as usinas estavam quebrando. Nós montamos pequenos programas de incentivo para produzir mais álcool como mistura à gasolina e para economizar chumbo tetra etílico, que era adicionado e importado. Ainda no governo Castello Branco, fiz um esforço grande para convencer a Petrobrás a aceitar ainda mais álcool anidro, mas ela foi contra. Quando veio o governo Médici, o presidente Geisel, então presidente da Petrobrás, disse: você agora é diretor comercial (da Petrobrás), vá ao Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA) e diga que agora a empresa aceita qualquer quantidade de anidro

E a posição do IAA?

Quando fui lá, o preço do açúcar estava a US$ 500 a tonelada, e o IAA me indagou como eu queria produzir mais álcool, se produzindo açúcar poderíamos ganhar um dinheirão e a Petrobrás poderia comprar quanto petróleo quisesse? Disse que tinha visto preço do açúcar a US$ 20, a US$ 25 a tonelada e que o álcool seria uma válvula para controlar o mercado e para reconquistarmos a posição de exportadores de açúcar. Não consegui convencê-los.

E a terceira tentativa?

Foi em 1975, eu era ministro de Minas e Energia e quase perdemos. O presidente Geisel disse que eu tinha fracassado nos dois governos anteriores e que não poderia fracassar novamente. Tive de enfrentar vários problemas, o primeiro com técnicos do Ministério da Agricultura, que estavam perdendo força, porque os do IAA eram muito mais poderosos. O Ministério da Agricultura não foi favorável quando apresentamos o programa, e os técnicos cobraram um zoneamento para o Proálcool. Nossa reação foi a seguinte: ninguém entende melhor disso do que os usineiros, eles sabem onde devem produzir cana. A segunda frente de oposição foi no Ministério da Indústria e Comércio, no próprio IAA. A coisa não andava, apesar da crise do petróleo.

O presidente Geisel interveio?

Geisel convocou uma reunião num sábado, na Granja do Torno, e chamou os ministros envolvidos. Foi a reunião definitiva para o Proálcool.

E o financiamento público para o Proálcool?

Felizmente, o Banco do Brasil e outros órgãos de financiamento apoiaram, mas nós tivemos de ser muito cuidadosos para não apoiar muito os projetos só de destilarias autônomas (sem usinas de açúcar), porque a intenção era financiar usinas existentes para ampliar a área de cultivo e fazer destilarias anexas. Numa usina de açúcar você tem a infraestrutura e o investimento não é tão grande. Aí, criticaram o governo por ter lançado o Proálcool e depois não aprovar os projetos. Se aprovássemos os quase 60 projetos criaríamos um grande problema: a indústria mecânica não conseguiria fazer as usinas. Tivemos cuidado de aprovar os projetos de acordo com as capacidades de plantação e financeira.

Como o sr. avalia os 35 anos?

Houve períodos difíceis. Em 1979, houve uma segunda crise, o petróleo saltou para US$ 42 o barril, mas depois o preço foi caindo. Na década de 80, foi a US$ 10. Nessa ocasião, quiseram acabar com o Proálcool. Fui várias vezes ao Congresso defender a mesma bandeira. Se abandonássemos o Proálcool, perderíamos a liderança no açúcar e iríamos aumentar a dependência do petróleo. Não foi fácil. Na década de 90, a luta continuou. Ao meu lado, o Lamartine Navarro Filho. Éramos os loucos que inventaram o Proálcool, fomos condenados pela imprensa, disseram que inventamos um programa irrealista.

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