ROBSON FERNANDJES/ESTADÃO
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'Ermírio era corintiano, mas preferia trabalhar do que torcer'

Jornalista do Estadão que conviveu com Antônio Ermírio de Moraes escreve sobre as paixões do empresário

Milton F. da Rocha Filho, O Estado de S. Paulo

25 de agosto de 2014 | 10h19

Conhecido como eterno ‘ workholic’ (viciado em trabalho), Ermírio dedicava-se com afinco, as vezes até desmedido, aos projetos empresariais e também sociais. Assim era com o Grupo Votorantim, com a Beneficência Portuguesa e também com as peças teatrais que escrevia nos intervalos das demais atividades. 

Mais isso não o impedia de ter outras paixões, como o Corinthians, seu time de coração desde a infância. Ele gostava de futebol, mas preferia o trabalho. Quando o Brasil enfrentou a Nova Zelândia pela Copa do Mundo, em 1982, ele me ligou e disse: “Você não quer ir ver como anda a produção de equipamentos para a ampliação da Companhia Brasileira de Alumínio ?”. Enquanto o Brasil torcia, ele me mostrou a fábrica de bens de capital do Grupo Votorantim no Jaguaré, em São Paulo.

Entre os equipamentos em produção estavam peças para a hidrelétrica que pretendia construir e que até hoje não saiu do papel, no Vale do Ribeira, por obstáculos ambientais. Ele dizia: “A barragem poderia acabar com as enchentes na região de Iguape”. 

Antônio Ermírio entrou na política em 1986, quando disputou a eleição para governador de São Paulo. Perdeu para Orestes Quércia e não gostou da experiência. Para ele, faltava lisura ao comportamento dos políticos. “É muito difícil se participar diretamente de uma eleição no País. Você enfrenta denúncias falsas, espalhadas em tom de verdade. Isto não me agradou”, confessou a amigos. Nunca mais pensou em disputar um cargo eletivo, apesar vários convites. “Posso ajudar muito mais trabalhando na Beneficência Portuguesa”, argumentava.

Ermírio gostava de sair para caminhar pela cidade. Ia seguidamente da Praça Ramos, onde ficava a sede do Grupo Votorantim, até o Hotel Ca´ D´0ro, na rua Augusta. No caminho, era cumprimentado por populares. No hotel, mantinha encontros de negócios ou conversas com amigos. 

Ermírio não gostava do PT e nem de Lula nos tempos de sindicalismo, mas mudou de opinião quando Lula chegou à presidência. Teve muitos encontros com o ex-presidente e elogiava os avanços na economia do País. Gostava do jeito de Lula de trabalhar e resolver problemas. 

No hospital, barrou a proposta de alguns conselheiros de reduzir a participação do atendimento pelo Sistema Único de Saúde. Para ele, a Beneficência deveria manter sempre um porcentual de 60% para atender os mais necessitados pelo SUS.

Presenciei o empresário tirar um cheque pessoal para quitar os salários dos funcionários, quando o SUS atrasou os pagamentos pelos serviços prestados pela Beneficência. Uma das grandes alegrias era inaugurar algum novo equipamento ou ala do hospital. 

Ele incentivou a Votorantim a desenvolver um arquivo para preservar a memória do grupo. Foi durante uma pesquisa sobre a figura de seu pai, o senador José Ermírio de Moraes. Ao descobrir um depoimento do ex-senador para o Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS), fiz uma cópia e encaminhei para o empresário. Ele gostou e me agradeceu. Foi quando começamos a conversar quase que semanalmente, sobre temas que estavam em pauta na reportagem econômica. 

Ele não deixava de responder nada, mas quando exagerava nas críticas aos políticos costumava acrescentar a recomendação: “Publique sem os adjetivos, por favor, pois senão estaria faltando seriedade de minha parte”. 

Um grande golpe em sua vida foi a morte de seu irmão José Ermírio de Moraes Filho. Depois, enfrentou a doença e a morte de seu filho Carlos Ermírio, jovem que vinha sendo preparado para ser dirigente do Grupo. Isto o afetou profundamente. Já com problemas de saúde, enfrentou a morte de outro filho, Mário Ermírio de Moraes, em 2012.

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