Otávio Magalhães/Estadão
Otávio Magalhães/Estadão

Ernane Galvêas, ex-presidente do Banco Central e ex-ministro da Fazenda, morre aos 99 anos

Economista comandou o BC em dois mandatos separados, de 1968 a 1974 e de 1979 a 1980

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2022 | 10h54
Atualizado 24 de junho de 2022 | 13h58

Ernane Galvêas, ex-presidente do Banco Central (BC) e ex-ministro da Fazenda, faleceu, aos 99 anos, na noite de quinta-feira, 23, no Hospital Samaritano de Botafogo, na zona sul do Rio, onde estava internado. Nascido em 1922, o economista completaria 100 anos em 1º de outubro próximo. O hospital não revelou a causa da morte.

Ao longo da carreira, Galvêas ocupou diversos cargos em diferentes equipes econômicas, desde a década de 1960. Do BC, foi presidente em dois mandatos separados, de 1968 a 1974 e de 1979 a 1980. No comando do Ministério da Fazenda, ficou de 1980 a 1985.

Também teve passagens pelo setor privado e era coordenador do Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Integrava os conselhos da Fundação Getulio Vargas (FGV) e da Academia Internacional de Direito e Economia. Além disso, era presidente de honra da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

Nascido em Cachoeiro do Itapemirim (ES), Galvêas se mudou para o Rio em 1941, “para estudar no Colégio Universitário e, por influência do cunhado, que trabalhava no Banco do Brasil (BB), decidiu prestar concurso e foi aprovado em 1942”, segundo a introdução da publicação de uma compilação de entrevistas do ex-ministro para a série “Coleção História Contada do Banco Central do Brasil”, publicada em 2019. No BB, Galvêas faria carreira antes mesmo de se graduar no ensino superior. Foi “de escriturário a chefe de serviço”, segundo a publicação do BC.

Durante o início da carreira no BB, começou a estudar contabilidade, curso no qual se graduou em 1945, segundo publicação do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (Cpdoc) da FGV. Mais tarde, em 1956, se graduou em economia no Centro de Estudos Monetários Latino-Americanos (Cemla), no México, e, em 1958, estudou nos Estados Unidos, obtendo o título de mestre em economia na Universidade Yale.

A longa carreira de colaboração com as equipes econômicas do governo federal começaria antes mesmo disso, em 1953, quando, ainda trabalhando no BB, Galvêas aceitou o cargo de chefe adjunto do departamento econômico da Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc). Criada em 1945, a Sumoc exerceu parte das funções de autoridade monetária, até a reforma Sistema Financeiro Nacional (SFN) de 1964, que criou o BC.

De acordo com a publicação do BC, foi ali que o ex-ministro resolveu trilhar carreira como economista. “Sua longa convivência com as estruturas do Banco do Brasil lhe permitiu ter uma visão particular do impacto da criação da Sumoc sobre o conjunto de instituições responsáveis pela política monetária e da importância crescente da profissão de economista”, diz a publicação do BC.

Em 1961, Galvêas deixou a Sumoc e assumiu o cargo de assessor do Ministério da Fazenda, tendo atuado nas equipes de diversos ministros, nos governos de Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart. A publicação do BC lembra que, naquele período, marcado pelas instabilidades políticas que levariam ao golpe militar que depôs Goulart na passagem de março para abril de 1964, estavam na ordem do dia a inflação elevada, a reforma cambial e a reforma geral do SFN. A reforma do SFN acabaria sendo uma das primeiras medidas do primeiro governo militar, aprovada em lei em dezembro de 1964, incluindo nela a criação do BC, que seria em seguida comandado por Galvêas.

No primeiro mandato do ex-ministro à frente do BC, entre 1968 e 1974, “houve reformas das instituições econômicas nas áreas de comércio exterior, dívida pública e sistema financeiro”, segundo a publicação de 2019 da autoridade monetária. A gestão começou no governo Costa e Silva e terminou no governo Médici, quando a política econômica era comandada por Antônio Delfim Netto, como ministro da Fazenda. O período ficou conhecido na história como “milagre econômico”, por causa do acelerado crescimento da economia brasileira.

“Diferencia esse período comparativamente ao anterior a maior ênfase no crescimento econômico e as menores restrições ao crédito. Na visão de Galvêas, apesar de o Brasil ter vivido o milagre econômico no início da década de 1970, a má organização oficial do ensino no país era o principal fator responsável pela piora da distribuição de renda relativa no período”, diz a publicação do BC.

Na segunda metade da década de 1970, quando saiu do BC, Galvêas trabalhou no setor privado. Foi diretor financeiro da Aracruz Celulose. A experiência não duraria muito, já que, ainda no fim daquela década, o ex-ministro voltaria para o governo, novamente como presidente do BC.

O mandato, dessa vez, duraria menos de um ano, porque, logo no início de 1980, Galvêas seria alçado ao cargo de ministro da Fazenda, trabalhando num período de intensa crise econômica. O segundo choque de oferta do petróleo, ainda no fim dos anos 1970, fez o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) elevar os juros, levando à crise causada pelo excesso de endividamento público das economias latino-americanas.

“Ocorreram, então, tentativas de equilibrar a situação externa por meio de maxidesvalorizações e da prefixação da correção monetária, mas a derrota na questão da política salarial foi inevitável. Apesar das dificuldades, as relações com o Fundo Monetário Internacional (FMI) melhoraram, o que possibilitou a estabilização da situação externa em 1984”, diz a publicação do BC.

Repercussão

A diretoria do BC “recebeu com pesar a notícia do falecimento do ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central, Ernane Galvêas”, diz uma nota divulgada pela autoridade monetária. “Toda a trajetória profissional de Galvêas nos setores público e privado foi marcada pela busca da estabilização e modernização da economia brasileira. Atuou com desprendimento e abnegação na resolução de problemas que por anos estrangularam a nossa economia, como a questão já superada do endividamento externo do país. É de se destacar o empenho diário de Galvêas no sentido de se manter atualizado com o que há de mais avançado no pensamento econômico atual, nunca deixou de se inteirar dos debates econômicos em curso no Brasil e no mundo. Deixamos nossa solidariedade neste momento de dor aos familiares e muitos amigos e colegas de trabalho deste grande brasileiro”, diz o texto.

Segundo Joaquim Levy, ex-ministro da Fazende, ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e, hoje, diretor de Estratégia Econômica e Relações com Mercados do Banco Safra, Galvêas teve “papel muito importante na manutenção da estabilidade da economia brasileira, em meio à turbulência causada pela guerra contra a inflação americana conduzida pelo Fed de (Paul) Volker (então presidente do banco central americano), no começo dos anos 1980”. “Uma pessoa de grande vitalidade e carinho, continuava trabalhando até recentemente”, escreveu Levy, em nota à imprensa.

Em nota assinada por seu presidente, Isaac Sidney, a Febraban, entidade que representa o setor financeiro, definiu Galvêas como “uma referência para a economia e para a história brasileira”. Segundo a nota, o ex-ministro “seguirá como um exemplo de homem público, economista e profissional para esta e as futuras gerações”. “A dedicação e os esforços para resolver os problemas da economia brasileira marcaram suas passagens pelo ministério da Fazenda e pelo Banco Central. Sua relação com o sistema financeiro completa oito décadas este ano: em 1942 prestou concurso para o Banco do Brasil onde começou a trabalhar em uma agência no bairro carioca do Méier. Fará muita falta ao país, mas seu legado permanecerá. Aos familiares, amigos e admiradores, em nome da Febraban expressamos nosso pesar”, diz o texto.

Presidente da Ibá, entidade que representa a indústria de papel e celulose, e ex-governador do Espírito Santo, Paulo Hartung lamentou o falecimento de Galvêas, numa postagem em suas redes sociais: “Galvêas fez parte da geração que protagonizou um novo ciclo no ES, diversificando a economia capixaba. Meus sentimentos aos familiares e amigos”.

Em nota, a Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ) também prestou homenagens. “Ernane Galvêas foi um grande brasileiro que prestou relevantes serviços ao país. Um dos principais pensadores sobre a nossa economia, Galvêas deixa um importante legado para o Brasil e as novas gerações”, diz a nota, na qual “as presidências da ACRJ e do Conselho Superior da Casa de Mauá e toda sua diretoria se solidarizam com seus familiares e amigos”.

A CNC, na qual Galvêas começou a atuar em 1988, como consultor econômico, ressaltou que o economista “comandou, como ministro da Fazenda, relevantes avanços no setor econômico, no momento que o País precisou se ajustar ao cenário internacional impactado pela segunda crise do petróleo”. “O País perde uma referência não apenas na área econômica, mas um humanista de primeira grandeza, de uma estatura intelectual admirável”, diz a nota, assinada pelo presidente da CNC, José Roberto Tadros. “Com seu conhecimento, sua experiência e sabedoria, ajudou a CNC e o Brasil a serem maiores. Pessoalmente, perco um grande amigo, cuja convivência sempre foi marcada pelo afeto, respeito e admiração”, diz o texto.

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