Errar ficará mais barato

A queda dos juros vai passar a punir quem deixar os projetos engavetados

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

03 Novembro 2016 | 05h00

O avanço do ajuste fiscal no Congresso e a perda de fôlego mais intensa das expectativas de inflação devem reduzir em quase à metade os juros reais no Brasil ao longo dos próximos dois anos, na aposta de vários analistas. Uma queda dessa magnitude no custo do dinheiro poderá ter um efeito significativo sobre a atividade econômica e sobre os preços de ativos, como ações das empresas negociadas em bolsa e imóveis.

Até pouco tempo, quando o pessimismo em relação às condições macroeconômicas e à trajetória fiscal do País erodia a confiança de empresários e investidores, os juros elevados contribuíam para travar os investimentos na economia real: ficava muito caro, por exemplo, errar num projeto de expansão de fábrica ou modernização de um produto. A política monetária restritiva desde o início de 2015 acabava punindo quem por acaso se aventurasse a investir num negócio sem dimensionar bem as consequências do que estava por vir na condução da política econômica brasileira. E quem tinha tão boa bola de cristal?

Os economistas Angelo Polydoro e Raphael Ornellas, do banco Brasil Plural, calculam que a taxa neutra ou de equilíbrio dos juros no Brasil – aquela que mantém a inflação estável e o produto crescendo em sua taxa potencial – esteja atualmente em 2,5%, enquanto que os juros reais “ex-ante” (o custo do dinheiro descontado da projeção de inflação em 12 meses) estavam em 7,75% em julho deste ano, quando a taxa Selic ainda se encontrava em 14,25% ao ano. Toda vez que a taxa neutra encontra-se abaixo do nível dos juros reais, a política monetária é restritiva. E torna-se expansionista quando a taxa neutra fica acima dos juros reais. O melhor dos mundos é quando essas duas taxas convergem.

Para os economistas do banco Plural, a aprovação da PEC 241, que limita o crescimento dos gastos públicos à inflação do ano anterior pelos próximos 20 anos, e também de uma reforma da Previdência, vai permitir o Banco Central cortar mais agressivamente os juros básicos – para 9,5% ao fim de 2017 e para 8,5% ao fim de 2018 – e também elevar o crescimento potencial do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro para 2%, dos atuais 0,5%.

O efeito disso será a convergência das expectativas inflacionárias para ao redor de 4,5%, elevando a taxa neutra dos juros para 4% no início de 2019. Concomitantemente, os juros reais devem cair do patamar de 8% e convergir para a taxa neutra, ou 4%, o que tornaria a política monetária nem expansionista nem restritiva.

Com ou sem avanço do ajuste fiscal, os juros básicos devem cair, na visão do economista-chefe para a América Latina do banco Goldman Sachs, Alberto Ramos. Se a PEC 241 e a reforma da Previdência forem aprovadas, o sentimento em relação ao Brasil melhora, caindo o prêmio de risco do País, apreciando o câmbio e levando a uma redução das expectativas inflacionárias, o que abre espaço para o corte de juros.

Se, por acaso, essas duas medidas não passarem no Congresso, o investidor ficará desapontado, a recessão provavelmente continuará ao longo de 2017 e o mercado de trabalho seguirá piorando, o que trará a inflação para baixo pelos motivos errados, isto é, pela brutal queda da demanda, forçando o BC a cortar a Selic. Assim, segundo Ramos, os juros devem cair pelo bom ou pelo mau caminho. Mas vão cair.

Para o economista-chefe e sócio da Bozano Investimentos, Samuel Kinoshita, o juro real de um ano deverá estar ao redor de 4% no fim de 2017, em comparação com o patamar atual de 7%. Segundo ele, os negócios que usam esses juros para descontar os seus fluxos serão impactados, ou seja, mais projetos vão se tornar viáveis.

De maneira geral, tudo aquilo que é relacionado a Brasil observará preços mais altos: títulos de renda fixa, ações ou imóveis. Um País minimamente organizado e com perspectivas melhores de solvência deve valer mais mesmo, diz Kinoshita. A queda dos juros vai passar a punir quem deixar os projetos engavetados.

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