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Errei, pero no mucho

O reconhecimento da presidente Dilma de que falhou foi superficial e a versão dos fatos, distorcida

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2015 | 21h00

Em briga de cachorro grande, quando um deles expõe sua jugular em sinal de capitulação, o outro baixa a ferocidade.

Foi esse efeito que a presidente Dilma parece ter pretendido da sociedade quando, segunda-feira, reconheceu, em entrevista a três jornais, que demorou demais para perceber a gravidade da crise. Agora ela deve esperar que diminuam os panelaços, palavras de ordem do tipo “fora Dilma” e a mobilização pelo impeachment. 

Pela primeira vez admitiu que falhou. Se vai conseguir ou não o pretendido, ainda está para se saber. O fato é que o reconhecimento foi superficial e a versão dos fatos, distorcida.

A atual escalada da crise que vem engolindo a economia não começou em agosto de 2014, como a presidente afirma. Em 2012, a inflação já saltara para 5,8%; o PIB crescia a 1,8% ao ano, mas o investimento desabava. O desempenho das contas públicas foi lastimável em 2014 inteiro, e não só no fim. Apresentou déficit primário de 0,63% do PIB, apesar da profusão das mágicas contábeis, das pedaladas e dos esqueletos fiscais.

Depois de a  balança comercial apresentar superávits de US$ 19,4 bilhões em 2012 e US$ 2,3 bilhões em 2013, fechou 2014 com um déficit de US$ 3,9 bilhões. O pior resultado  desde 1998.

Há mais de dez anos, a indústria vem se desidratando. E não foi por falta de aviso. Há pelo menos dois anos consultores informais da presidente Dilma, como o ex-ministro Delfim Netto, vinham advertindo de que a nave Brasil enfrentaria tempestade perfeita.

Durante os quatro primeiros anos, o governo Dilma comprometeu-se com metas delirantes de desempenho econômico e entregou as merrecas conhecidas. A todos quantos insistiam em que a economia deslizava ladeira abaixo e que era preciso apertar os cintos, a presidente Dilma tachava de “catastrofistas”. Em março de 2013, em Durban, na África do Sul, teve um piripaque porque alguém lhe perguntou sobre a necessidade de adotar políticas de austeridade.

A chamada Nova Matriz Macroeconômica, baseada em políticas contracíclicas executada por um Tesouro esfarrapado, fracassou. E esse fracasso não começou depois das eleições de 2014, mas ainda em 2012, porque se baseou em diagnóstico equivocado. Entendia que bastava ativar artificialmente o consumo para que a oferta viesse atrás, como as abelhas num canteiro de flores. Esse quadro idílico não se realizou.

Agora a presidente Dilma reconhece que é preciso atacar as reformas. Já não insiste em convocar plebiscito para definir as bases de uma reforma política. Mas foca especialmente a necessidade de resgatar as finanças da Previdência Social: “Quanto mais tarde, pior para o País (...) Não queremos Grécia, queremos?”, perguntou ela. (Engraçado, a Grécia era apontada como vítima das famigeradas exigências dos ortodoxos. Agora é exemplo de desmandos que nenhuma economia moderna pode admitir.)

Em todos estes anos, os sucessivos governos do PT recusaram-se terminantemente a providenciar o inevitável, sob o argumento de que esse não passa de papo de economistas neoliberais.

A redução dos ministérios e os cortes de alguns quadros de funcionários, sempre tão veementemente negados, são bem-vindos, como aperitivo da necessária reforma administrativa. Mas levam o risco de ficar por aí e de não “cortar na carne”, como os tempos exigem.

CONFIRA:

Aí está a evolução do Investimento Direto no País (novo nome dos Investimentos Estrangeiros Diretos)

Pessimismo oficial

O Banco Central (BC) não é realista nas projeções das contas externas. Em Transações Correntes é pessimista: crava um déficit de US$ 81 bi em 2015; a Pesquisa Focus aponta US$ 76,5 bi. Na balança comercial, o BC aposta em superávit de apenas US$ 3 bi; o Ministério do Desenvolvimento fala em mais de US$ 13 bi. Para o Investimento Direto no País, aponta a enormidade de US$ 80 bi; a Pesquisa Focus não aponta mais que US$ 65 bi.


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