Erro de estratégia
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Erro de estratégia

O risco que corre o Brasil é o de que a era do petróleo acabe indo embora mais cedo do que o esperado

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

12 Setembro 2016 | 21h00

Em dezembro de 2014, a Arábia Saudita liderou dentro da Opep a operação destinada a alijar do mercado os produtores menos competitivos.

Essa operação consistiu em aumentar a oferta para que os preços desabassem e boa parte da produção da concorrência de fora da Opep fosse varrida do negócio. O verdadeiro alvo desse movimento eram os produtores de óleo de xisto dos Estados Unidos cuja produção, a custos mais altos do que os da Opep, tinham aumentado oito  vezes em seis anos (veja o gráfico no Confira).

O resultado imediato foi a derrubada dos preços do petróleo de cerca de US$ 100 por barril de 159 litros para o mínimo de US$ 37 por barril atingido em dezembro de 2015. Hoje, oscilam em torno dos US$ 47 por barril, mas ninguém mais espera que voltem aos níveis de antes de setembro de 2014.

O objetivo estratégico da Arábia Saudita e da Opep, o de derrubar os produtores de óleo de xisto, não foi alcançado. De lá para cá, eles aumentaram substancialmente sua produtividade por meio de novas tecnologias e maior racionalidade de produção e, com isso, derrubaram também os custos. Mesmo aos atuais preços, o óleo de xisto continua competitivo.

Assim, gorou o objetivo da Opep de obter aumento de participação no mercado (market share), hoje em torno de 35%. Além disso, alguns membros da Opep, especialmente a Venezuela, perderam faturamento e amargam crise profunda. Aos poucos, a tendência agora é de que a Opep reveja essa política e volte a conter os preços, desta vez com o apoio da Rússia, grande produtor não pertencente ao cartel. No entanto, até agora, ao longo de negociações informais, não houve acordo para reduzir a oferta. Um dos complicadores é a posição do Irã, que durante quase quatro anos não pôde exportar porque enfrentou o boicote global por seu programa nuclear. Depois do acordo com os Estados Unidos, obtido em julho de 2015, o Irã voltou ao mercado. No momento, produz cerca de 3,7 milhões de barris por dia, 32% a mais do que a média de 2014, mas pode em mais dois anos produzir mais de 5 milhões de barris por dia. Depois dos anos de boicote, o Irã quer tirar o atraso e não pretende mais sacrificar seu faturamento.

Nesta segunda-feira, a Opep divulgou seu relatório mensal e nele adverte que, ao contrário do pretendido, a previsão de aumento da oferta de petróleo de países de fora do bloco deve aumentar em 2017, em consequência do aumento da produção de óleo de xisto nos Estados Unidos. Ou seja, estão dadas as condições para que os preços permaneçam no patamar onde estão.

E aí temos de falar do Brasil. O entendimento propagado durante o segundo período Dilma de que o leilão de novas áreas para exploração e produção no Brasil devesse esperar pela recuperação dos preços já não faz sentido. Nessa estratégia, o risco que corre o Brasil é o de que a era do petróleo acabe indo embora mais cedo do que o esperado e que, por falta de sentido de urgência, as reservas nacionais permaneçam intocadas em seu berço esplêndido. Felizmente, o governo Temer parece mais interessado em reabrir os leilões de parceria e concessão.

CONFIRA:

Produção de óleo de xisto (fora o gás) nos Estados Unidos.

Importação de diesel

Na entrevista publicada neste domingo pelo ‘Estadão’, o presidente da Petrobrás, Pedro Parente, admitiu que um dos fatores que devem definir os preços dos combustíveis é a atuação dos importadores. Hoje, os preços internos (fora impostos) da gasolina e do diesel estão 22,7% e 32,3% mais altos do que os internacionais. É o que tem permitido o aumento das importações. Informações seguras dão conta de que a Petrobrás já perdeu para esses outsiders cerca de 10% de sua fatia de mercado de óleo diesel.

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