Escada rumo ao céu

Expansão monetária global fragiliza o sistema financeiro e produz novos temores

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

12 Julho 2016 | 05h00

Um incômodo está cada vez mais presente nos mercados financeiros e ele se revela, sobretudo, nos temores que rondam o sistema bancário das nações desenvolvidas. Investidores com nervos à flor da pele lançam agora olhares temerosos para a solvência dos bancos italianos.

O problema é que os bancos italianos aparecem apenas como os primeiros numa fila de riscos na qual se alinham outras instituições, principalmente em economias maduras. O que chama a atenção não é só o gigantesco volume de ativos acumulados pelos principais bancos centrais do mundo, mas também a incapacidade de se livrarem dos papéis que os representam, transformando-os em crédito para animar as economias.

Trata-se do reflexo de um já prolongado e maciço movimento de colocação de títulos públicos e compra de papéis privados, como forma de injetar recursos numa economia longamente combalida por recessão e dívidas. A evolução do total de ativos carregados pelos principais BCs, nos últimos dez anos, descreve a trajetória de uma escada rumo ao céu.

De 2008 até maio de 2016, o volume em ativos acumulado pelo Federal Reserve (Fed) americano, o Banco Central Europeu, o Banco do Japão e o Banco Popular da China saltou de US$ 6,5 trilhões para US$ 16,9 trilhões - uma elevação de duas vezes e meia o volume inicial. Dividido praticamente em partes iguais entre os "quatro grandes", o montante equivale hoje a um quarto do PIB global.

A teoria por trás desse movimento reza que, dependendo das condições da economia e das circunstâncias do momento, um impulso na demanda, via injeção de recursos no mercado, produzirá mais produto ou mais inflação, eventualmente os dois. Mas, no caso atual, apesar da administração de doses industriais do remédio, a demanda agregada não respondeu como desejado ao tratamento.

Com os afrouxamentos monetários que marcaram a política monetária global a partir da crise de 2008, dobrando sempre a aposta de que, na prática. a teoria acabaria funcionando, a liquidez chegou a ponto de inundação, os juros recuaram tudo o que era possível e, finalmente, ingressaram em terreno negativo.

Do outro lado dessa política, a base monetária, no caso americano, por exemplo, avançou de 5,8% do PIB, em 2007, para 22% do PIB, em 2016. Mas os resultados, tanto sobre a demanda e o investimento quanto sobre a inflação, que se mantém muito baixa, mesmo com a redução da taxa de desemprego, ainda são duvidosos e o crescimento, nos Estados Unidos, ainda avança em ziguezague.

"Toda a expansão promovida pelos afrouxamentos monetários voltou para os BCs", constata o economista Adroaldo Moura da Silva, professor aposentado da USP, ex-presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e um dos negociadores da moratória brasileira, como diretor da área internacional do Banco do Brasil, em 1987.

Prova de que está em curso, segundo Adroaldo, o mais longo caso de armadilha da liquidez - mesmo com expansão da oferta de recursos e redução de juros, não há disposição para investir em ativos financeiros - pode ser localizada na evolução das reservas depositadas pelas instituições financeiras das economias maduras nos respectivos BCs.

De fato, o exemplo do Fed, ainda que não seja o único, é eloquente o suficiente. O excesso de reservas no Fed, ou seja, a parcela que ultrapassa a dos depósitos compulsórios das instituições financeiras no BC americano, explodiu de 0,01% do PIB, em 2007, para 14% do PIB, em 2016, batendo em mais de US$ 2,5 trilhões.

Depois de já ter acumulado US$ 10 trilhões em títulos com juros negativos, o sistema financeiro global não consegue mais esconder a fragilidade em que hoje se encontra estruturado Eventos como o Brexit, que adicionam mais incertezas às expectativas cronicamente baixas de expansão econômica, só potencializam os riscos da produção de bolhas financeiras, numa situação em que a margem de manobra da política monetária chegou ao limite.

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