Wilton Junior/Estadão
Casa de câmbio no centro do Rio tem dólar cotado a R$ 4,45.  Wilton Junior/Estadão

Escalada do dólar pode afetar preços, empresas e cortes de juros

O estopim da alta ocorreu na segunda-feira, quando o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse em evento em Washington (EUA), que 'é bom o mercado se acostumar com o câmbio mais alto por um bom tempo'

Marcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2019 | 18h57

A disparada do dólar, que beirou R$ 4,28 hoje e fechou cotado a R$4,24, depois de dois leilões do Banco Central para conter o avanço, deve ter impacto em preços importantes do dia a dia dos brasileiros. A gasolina e o diesel, por exemplo, podem ficar mais caros e contaminar outros preços, e a viagem internacional de férias de fim ano pode não passar de um sonho.

Para as indústrias exportadoras e que sofrem com a concorrência dos importados, esse avanço pode ser positivo para as vendas externas e para tomar o lugar dos importados no mercado doméstico. Mas as empresas que usam matérias-primas e componentes estrangeiros e o comércio varejista que compra itens de Natal no exterior, o custo das mercadorias deve subir. O repasse para os preços pode ser inevitável, apesar de a inflação andar bem comportada. A pressão crescente do dólar nos preços pode até mexer na condução da política monetária do Banco Central e interromper o ciclo de corte de juros básicos no ano que vem, preveem economistas.

A escalada do câmbio levou o BC fazer nesta terça-feira, 26, dois leilões de moeda para conter a cotação. O estopim da alta ocorreu na segunda-feira, quando o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse em evento em Washington (EUA), que “é bom o mercado se acostumar com o câmbio mais alto por um bom tempo”. O comentário do ministro  soou para o mercado como uma indicação de que não existe preocupação com o atual patamar de câmbio. E a interpretação foi de que o BC não iria atuar, segundo avaliação feita pela economista da CM Capital Markets, Camila Abdelmalack, à Reuters.

Apesar de a fala do ministro ter desencadeado o repique do câmbio, não é de hoje que a cotação da  moeda americana anda pressionada. “O dólar lá fora está muito forte contra o euro, conta libra esterlina e outras moedas”, afirma o economista Armando Castelar, coordenador da área de Economia Aplicada do FGV IBRE.

Ele aponta vários fatores externos, como crescimento dos EUA acima da média de outros países, a guerra comercial entre China e EUA e a maior remuneração paga pela bolsa americana, para que o dinheiro saia do País. “Isso explica porque o dólar foi de R$ 3,5 para mais de R$ 4”, diz Castelar, acrescentando que esse cenário é comum a todos os países emergentes.

No entanto, existem fatores peculiares ao País, como os juros na mínima histórica, ressalta o economista Gesner Oliveira, professor da FGV-SP e sócio da GO Associados. “O juro em baixa atrai menos capital de curtíssimo prazo, porque o diferencial de taxas hoje é menor.” Ele lembra também que há uma contração no comércio internacional que prejudicou o saldo da balança comercial, o que pressionou o câmbio.

Juros na mínima histórica no Brasil têm feito as empresas  trocarem financiamentos externos pelos domésticos, que são mais baratos, diz o economista Antonio Madeira, da MCM. As companhias compram dólares internamente, o que pressiona a cotação da moeda, e enviam os recursos ao exterior para quitar dívidas, tornando o saldo financeiro mais deficitário.

Castelar acrescenta a esse fluxo financeiro a saída de capital estrangeiro da Bolsa brasileira. Eles estão tirando o dinheiro porque o crescimento da economia não veio no ritmo esperado e existe muita preocupação com os  movimentos políticos que ocorrem no Chile e Bolívia e com as  mudanças de política econômica na Argentina. “Existe um certo receio por conta da incerteza política”, resume.

Selic

Apesar de a inflação estar bem comportada, economistas acreditam que a escalada do câmbio deve reduzir a perspectiva de o BC continuar baixando juros no ano que vem. Castelar pondera que o câmbio não impacta a inflação como no passado, mas tira um pouco do conforto do BC para cortar juros. Mesmo assim, ele acredita que o corte da Selic em 0,5 porcentual sinalizado para dezembro será mantido.

Essa também é a avaliação do economista-chefe do Banco Fator, José Francisco Lima Gonçalves, que não vê reduções da Selic além do patamar de 4,5% esperado após o corte da reunião do mês que vem.

Para Gesner, o ciclo de queda dos juros está chegando ao seu final, mas ele acredita que, com o avanço do câmbio, o BC deve esperar para ver como a economia vai reagir antes de prosseguir nas reduções da Selic em 2020. É que há risco de pressões inflacionárias.

Virada

Mesmo com o susto de o câmbio ter batido R$ 4,27 hoje, superando as projeções mais pessimistas,  economistas acham que o cenário pode  mudar no ano que vem e o dólar recuar.

Para Castelar, três coisas que podem fazer o câmbio cair em 2020. Um desses fatores é que o banco central americano já começou a emitir moeda e existe a perspectiva de alguma trégua na guerra comercial entre EUA e China. Ambos fatores, diz o economista, desvalorizam o dólar.  Além disso, a economia americana pode desacelerar também e tirar o impulso da moeda.

Mas se a economia brasileira começar a crescer mais rápido, a perspectiva é que ela volte a atrair dinheiro e se tornar mais interessante para investir , assinala Castelar.  “Se houver uma continuidade das reformas e uma aceleração e as expectativas domésticas continuarem melhorando, eventualmente, poderíamos ter uma mudança desse patamar do câmbio para baixo”, afirma Gesner. /Colaboraram Ricardo Leopoldo e Beatriz Bulla, correspondentes

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Alta do dólar pode chegar aos preços de importados; exportadores comemoram

No médio prazo, altas da moeda americana, que chegou a bater em R$ 4,27, podem forçar importadores a aumentar preços

Douglas Gavras e Márcia De Chiara , O Estado de S. Paulo

26 de novembro de 2019 | 18h21

As altas do dólar — que fechou nesta terça-feira, 26, em uma nova máxima histórica, cotado a R$ 4,24, — preocupam importadores, que já estão refazendo contas e avaliando até quando vão conseguir evitar o repasse do aumento de custos ao consumidor. Do lado dos exportadores, no entanto, o clima é otimista e de promessa de redução da ociosidade nas fábricas.

A indústria farmacêutica, cujos insumos importados correspondem a 95% da matéria-prima usada pelo setor, o clima é de apreensão. As empresas trabalhavam com uma projeção de dólar na casa dos R$ 3,70 para o fim do ano e agora veem o custo de produção aumentar vertiginosamente.

“Como o setor está submetido ao controle de preços, a indústria farmacêutica não tem como repassar esses custos ao consumidor, e a alta do dólar afetará o resultado das empresas”, diz Nelson Mussolini, presidente executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma).

Mesmo com as pressões do câmbio, a Adega Alentejana, que traz vinhos da Europa, do Chile e da Argentina para restaurantes e supermercados, tem feito de tudo para não mexer na tabela de preços. Caso a moeda americana continue subindo, a empresa vai ser obrigada a elevar os preços no ano que vem, conta André Chicau, sócio da importadora.

“No começo do segundo semestre, a gente decidiu reforçar o estoque, já vendo que o dólar poderia subir. Foi isso que nos ajudou a não aumentar os preços. As vendas do ano estão boas, e projetamos um aumento de 15% nas vendas em relação ao ano passado. As políticas econômicas do governo parecem estar no rumo certo, é a comunicação que muitas vezes não ajuda”, diz.

Dona da importadora de azeites e vinhos Sicilianess, Ana Salustiano diz que, apesar de as vendas este ano estarem melhores do que em 2018, o consumidor ainda está muito resistente a aumentos de preços e que a maioria das empresas prefere absorver as altas do câmbio a perder clientes. 

“Os produtos começam a ficar fora do poder aquisitivo do consumidor. Quando ele sai para jantar, já tem uma ideia de quanto pode gastar. Se os importadores repassarem todos os custos, deixam de vender. O ano começou com otimismo, mas há muita especulação no ar. É preciso criar uma confiança maior para quem é de fora investir no Brasil.” 

Algumas empresas, no entanto, não devem conseguir segurar os preços, mesmo com o risco de perder clientes. José Kovacs, sócio da C. Kovacs Indústria e Comércio, que fabrica 4 milhões de escovas de dente por mês, conta que a resina plástica, usada na fabricação do produto, responde por um terço do custo de produção. A matéria-prima é cotada em reais, mas, por derivar do petróleo, sente a alta do dólar.

Por enquanto, a fabricante tem 120 dias de estoque da matéria-prima e não vai ter de enfrentar pressões de custos, mas se a escalada do dólar persistir e a moeda e estabilizar acima de R$ 4, Kovacs diz que terá de reajustar os preços das escovas entre 5% e 8%. “Mesmo que não tenha espaço para aumentar, vamos subir. Não trabalho com prejuízo.”

Dependente de componentes importados, o setor de eletroeletrônicos avalia que, no médio prazo, caso o real continue se desvalorizando frente à moeda americana, as fabricantes brasileiras também terão de reajustar preços, já que o dólar alto impacta nos custos de produção das empresas. 

“Se o cenário de alta perdurar por períodos mais longos, é provável que os produtos sofram alterações de preços e fiquem menos acessíveis aos consumidores”, diz José Jorge do Nascimento Júnior, presidente executivo da Associação Nacional dos Fabricantes de Eletroeletrônicos (Eletros)

Vendas

Se o patamar mais alto da moeda americana preocupa quem depende de importações, alguns exportadores já fazem planos, caso o dólar se mantenha alto. Um dos exemplos é o setor calçadista, que tem no mercado externo uma fonte importante de negócios. 

Antes da recessão, há cinco anos, só um terço da produção da calçadista gaúcha Tabita era vendido ao exterior. Com a crise e a perda de fôlego do mercado interno, a situação se inverteu: hoje, a empresa exporta, sobretudo para América Latina, Europa e Oriente Médio, 75% dos calçados que produz – e comemora o dólar mais favorável para exportar. 

“O dólar mais alto acaba aumentando a competitividade das empresas brasileiras. Como os contratos são negociados com 90 ou 120 dias de antecedência, as próximas vendas já devem considerar uma faixa mais alta”, avalia Daniel Amorim, diretor da empresa. Como eles trabalham com poucos insumos importados, a alta do dólar é ainda mais benéfica para os negócios, conta.

A meta da fabricante agora é zerar a ociosidade herdada dos anos de crise, ainda em 20%. Caso o dólar continue mais favorável e o mercado interno comece a reagir com mais força, a empresa estuda reativar uma linha de produção que empregaria cerca de 120 pessoas.

O presidente executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) pondera que alguns segmentos, como o de tênis esportivos, dependem de insumos importados, que devem ficar mais caros agora. “Também é importante frisar que 85% do calçado produzido no Brasil é vendido no mercado interno. O melhor câmbio é o estável, que ajuda a fechar negócios.”

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Presidente do Banco Central diz que pode intervir no dólar amanhã novamente

Campos Neto reforçou que a autoridade monetária tem seguido o 'princípio da separação' entre a política monetária e a política cambial

Eduardo Rodrigues e Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2019 | 19h21
Atualizado 27 de novembro de 2019 | 11h48

Em um dia marcado por forte pressão de alta do dólar ante o real, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, aproveitou um evento em Brasília para passar um recado: se for preciso, a autarquia voltará a intervir nos negócios nesta quarta-feira.

Campos Neto afirmou, durante seminário promovido pelo jornal “Correio Braziliense”, que as intervenções cambiais do BC ocorrem para “atenuar oscilações fora do normal”.

Hoje, especificamente, o BC promoveu dois leilões de venda à vista de dólares que não estavam programados – um no fim da manhã e outro à tarde. Essas operações tinham como objetivo acalmar as cotações da moeda americana, que se aproximaram dos R$ 4,28 no mercado à vista.

A disparada ocorreu na esteira de declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes, na noite de ontem, nos Estados Unidos. Guedes afirmou não estar preocupado com o dólar acima de R$ 4,20 e que “é bom se acostumar com o câmbio mais alto e juro mais baixo por um bom tempo”. O resultado foi que, apesar das intervenções do BC, o dólar à vista fechou em alta de 0,61%, aos R$ 4,2400.

“Hoje tivemos um câmbio bastante atípico”, avaliou Campos Neto durante o evento em Brasília. “Entendemos que hoje o câmbio não estava funcional”, acrescentou. O presidente do BC, no entanto, não fez nenhuma menção aos comentários de Guedes nos EUA, que provocaram o estresse no mercado.

Ao mesmo tempo, Campos Neto pontuou que, se o BC entender que nesta quarta-feira “o câmbio está disfuncional, voltaremos a intervir”. Na prática, a sinalização foi de que a autoridade monetária pode voltar a fazer leilões extras de venda de moeda para reduzir a volatilidade.

Após o encerramento do evento, Campos Neto deixou o prédio do “Correio Braziliense” sem responder a perguntas da imprensa. Questionado sobre o câmbio, ele se limitou a dizer: “Já falei o que tinha que falar”.

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Dólar à vista fecha a R$ 4,24, em nova máxima histórica

O Banco Central chamou o segundo leilão de dólar à vista, depois que a cotação bateu em R$ 4,27, em reação a fala de Paulo Guedes

Denise Abarca e Wagner Gomes, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2019 | 17h52
Atualizado 26 de novembro de 2019 | 19h24

O dólar à vista fechou esta terça-feira, 26, em R$ 4,24, com alta de 0,61%, em nova máxima histórica. O Banco Central chamou o segundo leilão de dólar à vista do dia pouco depois das 15h30, depois que a moeda voltou a acelerar a alta para novas máximas acima de R$ 4,27 em função da frustração nas expectativas de que o ministro da Economia, Paulo Guedes, pudesse explicar suas declarações sobre o câmbio na segunda-feira, 25. O dólar futuro para dezembro também ampliou os ganhos e chegou a entrar em leilão na B3.

Na palestra proferida nesta terça, de mais de 30 minutos, o ministro não fez nenhuma menção a câmbio. Guedes apontou que a composição da política econômica é "política fiscal apertada e monetária frouxa", enquanto ontem tinha destacado que o mix era por juro de equilíbrio mais baixo e câmbio neutro mais alto, em palestra no Peterson Institute for International Economics.

O leilão de dólar à vista ocorreu das 15h35 às 15h40 e teve taxa de corte de R$ 4,2390. O Banco Central não informou o total vendido nessa operação. Depois do leilão, a moeda bateu mínima em R$ 4,2347 (+0,48%), mas já era negociado nos R$ 4,24 novamente perto das 16h30, em R$ 4,2451 (+0,71%).

Bolsa

Além de elevar o recorde do dólar, as declarações do ministro da Economia mantiveram o Ibovespa sob pressão ao longo de toda a sessão, atingindo mínima de 106.413,93 pontos no pior momento do dia. Limitando as perdas, o principal índice da B3 conseguiu se segurar na faixa dos 107 mil pontos, encerrando a sessão em baixa de 1,26%, a 107.059,40 pontos (na véspera, encerrou aos 108.423,93).

Com duas vendas à vista de dólar pelo Banco Central, a moeda americana limitou os ganhos desta terça-feira a 0,61%, a R$ 4,2400 no encerramento. Para além do ruído em torno do câmbio, outro fator parece ter exercido influência sobre a correção no Ibovespa, que afetou em especial as ações de empresas com exposição a custos na moeda americana, como companhias aéreas (Gol PN -3,84% e Azul PN -4,53%), mas ajudou moderadamente as de exportadoras como Vale (+0,71% na ação ordinária) e Suzano (+0,21% na ON).

A implementação nesta terça do balanceamento da carteira teórica de índices do Morgan Stanley Capital Internacional (MSCI), como o MSCI Brasil e o MSCI EM (Emerging Markets), também contribuiu para a queda do Ibovespa, segundo três profissionais do mercado de ações ouvidos pelo Estadão/Broadcast

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Dólar em alta reduz a perspectiva de o BC cortar juros em 2020, diz economista

Para Armando Castelar, taxa Selic terá nova redução em dezembro, mas não no ano que vem; ele acredita que movimento da moeda americana não terá grande impacto sobre a saúde financeira das empresas

Entrevista com

Armando Castelar, coordenador de Economia Aplicada do Ibre-FGV

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2019 | 12h44

Para o economista Armando Castelar, coordenador da área de Economia Aplicada do Ibre-FGV, o dólar em alta deve reduzir  a perspectiva do Banco de Central de baixar juros no ano que vem. Segundo ele, o câmbio não afeta a inflação como no passado, mas tira um pouco do conforto do BC para cortar  juros, apesar de acreditar que o corte sinalizado para dezembro será mantido.

Na avaliação de Castelar,  é difícil afirmar que esse novo patamar do câmbio veio para ficar e existem fatores que podem jogar contra esse movimento. Entre eles, Castelar destaca o fato de a economia voltar a crescer em ritmo mais acelerado e atrair investimentos estrangeiros. A seguir trechos da entrevista.

O sr. acha que o dólar mudou de patamar?

O dólar é flutuante e não significa que ele vá ficar aí para sempre. Tem coisas que jogam a favor para o dólar  subir e outras que jogam para cair um pouco.

Por que o dólar deu essa arrancada?

O dólar lá fora está muito forte contra o euro, contra libra esterlina e outras moedas. Isso tem a ver com os Estados Unidos estarem crescendo mais que a maioria de outros países. Também os  EUA têm uma  taxa de juros que remunera melhor, então o dinheiro vai para lá. Tem gente comprando dólar para investir na Bolsa americana e títulos do governo americano. A guerra comercial da China com os EUA tende a valorizar o dólar. Isso explica por que o dólar saiu de R$ 3,5 e foi para mais de R$ 4. Se você olhar para outros emergentes, eles passaram pelo mesmo processo e não têm nada de diferente do que ocorre no Brasil. Agora há fatores que são do Brasil. Os juros caíram muito aqui e  as operações para ganhar a diferença de juros ficaram menos interessantes. Os estrangeiros também estão tirando dinheiro da Bolsa brasileira porque o crescimento não veio e existe muita preocupação com esse movimentos políticos no Chile, Bolívia, mudanças de política econômica na Argentina. Existe um certo receio por conta da incerteza política. Numa economia que não está retomando em ritmo forte, investir em Bolsa fica menos interessante. Essas coisas todas estão pesando.

Como o sr. interpreta a fala do ministro da economia Paulo Guedes que disse que é 'bom se acostumar' com  esse nível de câmbio?

Para mim, o ministro se referiu mais à questão dos juros. O diferencial de juros ficou menor e, portanto, comprar real para investir aqui ficou menos interessante.

O sr. vê uma crise de confiança para os estrangeiros retirarem dinheiro do País?

Não  vejo dessa forma, como a gente viu em 1998. Existe uma perspectiva que é a mesma que afeta os investidores brasileiros. As perspectivas de crescimento são baixas, existem riscos. A reforma da Previdência reduziu o risco fiscal, mas esses movimentos no Chile, Bolívia, deixaram os investidores preocupados. Os indicadores de incerteza mostram que ela está alta. E a perspectiva de crescimento é relativamente baixa.

Isso pode mudar?

Tem três coisas que podem fazer o câmbio cair no ano que vem. O Banco Central americano começou a emitir dólar, está aumentando a injeção de dinheiro na economia. Existe a perspectiva de alguma trégua na guerra comercial entre EUA e China. Ambos fatores desvalorizam o dólar. A economia americana pode desacelerar também e, com isso, o dólar enfraquece. E se a economia brasileira começar a crescer mais rápido, ela vai atrair dinheiro e se tornar mais interessante para investir.

Quais os desdobramentos neste momento do câmbio a R$ 4,25 para economia brasileira?

Reduz a perspectiva do Banco de Central de baixar juros. Câmbio não impacta a inflação como no passado, mas tira um pouco do conforto do Banco Central para baixar juros. O BC vai reduzir juros no final do ano. Mas para o ano que vem fica menos provável. Essa é a primeira consequência. Provavelmente facilita  exportação, porque o câmbio fica mais competitivo. As contas externas também tendem a ficar melhores com o câmbio mais valorizado. No passado, o dólar em alta tinha impacto muito negativo porque governo e empresas tinham dívidas lá fora. Hoje o governo não tem dívida lá fora. Ao contrário, hoje ele tem reservas. E as empresas reduziram muito o endividamento lá fora. Então, não há um grande impacto sobre a saúde financeira das empresas.

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Análise: O retorno das declarações desastrosas sobre câmbio

A dinâmica de declarações do ministro e de reações posteriores do Banco Central, para acalmar os negócios, faz lembrar o período do petista Guido Mantega no Ministério da Fazenda

Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2019 | 17h35

O ministro da Economia, Paulo Guedes, reeditou a fase de declarações desastradas de titulares da pasta sobre o câmbio, bem comuns nos tempos de Guido Mantega. Durante evento em Washington, nos EUA, Guedes afirmou na noite de ontem não estar preocupado com o dólar acima de R$ 4,20 e que "é bom se acostumar com o câmbio mais alto e juro mais baixo por um bom tempo".

O comentário foi a senha para que o dólar à vista chegasse perto de R$ 4,27 mais cedo e, com a possibilidade de uma eventual disfuncionalidade do mercado, o Banco Central convocasse um leilão extra de venda de dólar à vista. Como ocorre em operações deste tipo, a instituição não divulgou o montante efetivamente vendido. O dado estará disponível apenas na próxima semana. No entanto, ficou claro que a operação acalmou as cotações apenas momentaneamente. Tanto que nesta tarde o dólar à vista ultrapassou a linha dos R$ 4,27. E o BC convocou nova operação de venda de dólares, há pouco.

Essa dinâmica de declarações do ministro e de reações posteriores do Banco Central, para acalmar os negócios, faz lembrar o período do petista Guido Mantega no Ministério da Fazenda, com o então presidente do BC, Alexandre Tombini, tentando apagar incêndios.

Um exemplo: em 29 de maio de 2013, na véspera do fechamento da ptax do mês, o então ministro Mantega fez as cotações dispararem ao comentar que o câmbio não é utilizado para combater a inflação. "É flutuante e, neste momento, o câmbio de todos os países está desvalorizando em relação ao dólar. É um movimento internacional e não tem por que sermos diferentes", afirmou Mantega na época.

Outro exemplo: em 30 de janeiro de 2013, também na véspera da ptax, Mantega afirmou que o dólar não iria "derreter", que a política cambial permanecia a mesma e que o câmbio não seria usado para controlar a inflação. O resultado foi a alta do dólar, que forçou o BC a intervir.

Estes são apenas dois exemplos de declarações desnecessárias sobre o dólar feitas por Mantega nos anos em que foi ministro. Isso era comum, curiosamente, em datas próximas da determinação da ptax, o que amplificava o estrago no câmbio.

Ontem, Guedes reeditou estes péssimos momentos. Uma coisa é falar por meio do "discurso de almanaque" do BC, que repete que o câmbio é flutuante e vai intervir quando houver disfuncionalidade. Outra coisa é falar que não está preocupado com o dólar no nível atual. Este tipo de comentário não ajuda o BC de forma nenhuma.

Além disso, Guedes também resolveu falar sobre o Ato Institucional nº 5. "Não se assustem então se alguém pedir o AI-5", disse o ministro. Apenas para lembrar, o AI-5 foi uma das mais duras medidas instituídas pela ditadura militar, em 1968, ao revogar direitos fundamentais e delegar ao presidente da República o direito de cassar mandatos de parlamentares, intervir nos municípios e nos Estados.

Como comentou hoje o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), a declaração de Guedes gera insegurança "na sociedade e, principalmente, nos investidores".

Essa conjunção de fatores foi perceptível no mercado de câmbio hoje: enquanto o dólar subia mais de 1% no Brasil ante o real, a moeda americana mostrava-se mais acomodada no exterior. Há pouco, o dólar chegava a cair ante o dólar australiano, o dólar canadense e o dólar neozelandês. E a moeda americana estava praticamente estável em relação à rupia e ao rublo.

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'É bom se acostumar com o câmbio mais alto por um bom tempo', diz Guedes

Em Washington, ministro da Economia afirmou que a valorização da moeda americana, que atingiu a marca recorde de R$ 4,21, é reflexo de uma nova política econômica

Beatriz Bulla e Ricardo Leopoldo, correspondentes, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2019 | 07h41

WASHINGTON - O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse nesta segunda-feira, 25, não estar preocupado com o dólar acima de R$ 4,20 e que o patamar da moeda deve se manter assim. “É bom se acostumar com o câmbio mais alto e juro mais baixo por um bom tempo”, afirmou, em visita a Washington, onde participou do Fórum de CEOs Brasil-EUA, com a participação de altos executivos de empresas que atuam nos dois países.

Ele afirmou que o dólar em um patamar mais alto é reflexo de uma nova política econômica, que tem juro de equilíbrio mais baixo e câmbio neutro mais elevado - o que, segundo Guedes, ainda precisa ser absorvido pela sociedade.

O dólar fechou nesta segunda em nova máxima histórica, a R$ 4,2145. A moeda subiu 0,52% no dia e já acumula valorização de 5,12% em novembro. “O dólar está alto? Problema nenhum, zero”, disse o ministro. “Eu não estou preocupado com a alta do dólar. Ao contrário. Achei um desenvolvimento interessante e absolutamente compreensível quando você pega os juros. Os juros reais do Brasil estão abaixo de 2%. Inflação descendo, os juros descendo junto.”

De acordo com Guedes, o câmbio vai se valorizar se ingressarem mais investimentos no Brasil. Questionado se o patamar acima de R$ 4,20 é confortável para o País, ele afirmou que isso é a “economia” quem irá responder. “A beleza de você ter uma economia de mercado é essa. O Brasil tem uma moeda interessante, caminhando para a conversibilidade, uma moeda forte, e a cotação dela às vezes varia”, disse.

Guedes defendeu que há sinais de recuperação econômica no País e desemprego caindo. “Os sinais da economia estão todos melhorando”, disse.

Entrada na OCDE 

Segundo o ministro, os juros baixos e o câmbio em patamar mais elevado reduzem o interesse de investidores de curto prazo no País. “O financista que ganhava dinheiro no diferencial de juros não faz falta para nós”, disse. “O Brasil é uma economia continental e é a quarta a absorver investimentos diretos, que são muito importantes.”

Ele destacou ainda que autoridades de primeiro escalão do governo americano, como o Secretário do Comércio, Wilbur Ross, e Larry Kudlow, diretor do Conselho Econômico Nacional, reconhecem as reformas estruturais que o País adotou. “Eles disseram na reunião de hoje: ‘O Brasil está voltando’”, disse.

De acordo com Guedes, Ross reafirmou o compromisso do governo americano de ajudar o Brasil a ingressar na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O ministro destacou, que quando o presidente Jair Bolsonaro foi eleito, os Estados Unidos já tinham assumido o compromisso de apoiar a Argentina para ingressar na OCDE.

“Os EUA nos deram uma senha para entrar na OCDE. Somos o primeiro da fila e pode ser que ocorra no ano que vem”, comentou Guedes.

Questionado se a guerra comercial entre China e Estados Unidos poderia interferir na economia do Brasil, ele afirmou que o País estava distante do relacionamento entre as duas potências havia 30 anos. “O Brasil estava fora da festa. Agora queremos beijar os EUA e a China e participar dela com ambos”, comentou Guedes. “Não devemos nos envolver com a guerra comercial entre estes países, e queremos elevar o fluxo do comércio com estes países.”

Para o ministro, mesmo que o contencioso comercial entre os EUA e a China colabore para desacelerar a economia mundial, tal fato não será um problema sério para o Brasil. “Nós vamos crescer mais. Temos dinâmica interna. O Brasil é um país fechado e o comércio é uma parte pequena do PIB.” 

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Dólar bate em R$ 4,27 mesmo depois de intervenção do BC

Moeda americana chegou a desacelerar na sequência da operação, mas logo voltou a subir; movimento é de reação à fala de Paulo Guedes, que disse não se preocupar com o novo patamar do dólar

Fabrício de Castro e Luci Ribeiro, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2019 | 09h32
Atualizado 27 de novembro de 2019 | 07h38

BRASÍLIA -  O dólar registrou na terça-feira, 27, forte oscilação, influenciado por declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes. Mesmo após duas intervenções do Banco Central, a moeda americana atingiu a marca de R$ 4,27 durante as negociações do pregão e fechou cotada a R$ 4,24, uma alta de 0,61% – novo recorde histórico nominal, sem contar a inflação ao longo dos anos. No ano, a variação é de 9,52%, mas só neste mês o avanço chega a 5,76%.

 

Em entrevista na segunda-feira, 25, em Washington, Guedes disse que o País deve se acostumar a conviver com um ambiente de juros baixos e dólar mais alto. Foi a senha para o mercado “testar” um novo patamar para a moeda logo nos primeiros minutos de negociação. 

A manutenção desse patamar acima de R$ 4 deve gerar novas incertezas para consumidores como a assistente de ensino Beatriz Pacheco. Com viagem marcada para os EUA em janeiro, ela deixou para comprar dólares às vésperas do embarque. “Eu não comprei porque fiquei na esperança de que fosse bater R$ 4.” As empresas também reclamam de uma possível alta no preço dos insumos importados e da falta de previsibilidade para os negócios. “Sempre falo que o melhor dólar é o dólar estável, indiferente do valor”, disse o presidente da Bosch na América Latina, Besaliel Botelho.

Economistas falam em outro efeito: a desaceleração do ciclo de redução dos juros básicos em 2020. José Francisco Lima Gonçalves, do Banco Fator, é um dos que não vê cortes da Selic além de 4,5% – a taxa é hoje de 5% e o Copom ainda tem reunião em dezembro.

Como acontece nas demais economias emergentes, o dólar no Brasil tem subido puxado por fatores internacionais, como a disputa comercial entre EUA e China. Mas no caso brasileiro, segundo economistas, também tem pesado questões como a demora do governo Bolsonaro para avançar na aprovação de novas reformas.

O presidente do BC, Roberto Campos Neto, se referiu ao comportamento do mercado como “disfuncional” e acenou com novas intervenções para corrigir “movimentos de curto prazo”. “Essas intervenções não têm capacidade de alterar movimentos de longo prazo, que têm como origem bases macroeconômicas.” 

Em entrevista coletiva na embaixada brasileira em Washington, Guedes disse que o Brasil tem uma moeda forte e que flutuações no câmbio não são motivo de preocupação. "Quando você tem um fiscal mais forte e um juro mais baixo, o câmbio de equilíbrio também ele é mais alto."

O sinal do ministro reforça a percepção do mercado de que o Banco Central pode fazer o último corte de juros em dezembro. Na semana passada, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, afirmou que se o patamar da moeda americana pressionar os preços, o BC poderá atuar via política monetária (ou seja, na taxa de juros), e não via câmbio.

"Os comentários do Guedes mostram que não tem uma preocupação com a taxa de câmbio no atual patamar", disse à Reuters Camila Abdelmalack, economista da CM Capital Markets. "O mercado acaba achando que isso é uma indicação de que o BC não vai atuar."Na manhã desta terça, o presidente Jair Bolsonaro disse que "há prós e contras" com fato de o dólar ter alcançado novo valor nominal recorde. "Se você for analisar na ponta da linha, tem vantagens, prós e contra no dólar a R$ 4,21 como está agora (sic)", afirmou o presidente, na saída do Palácio da Alvorada. "Espero que caia (a cotação da moeda), torço, assim como torço para que caia a taxa Selic, torço para que aumente a nossa credibilidade junto ao mundo", acrescentou. / Colaboraram Silvana Rocha,  Luciana Xavier e Niviane Magalhães 

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Guedes deixa de mencionar câmbio, mas muda discurso sobre mix de política econômica

Ministro da Economia apontou que a composição da política econômica é 'política fiscal apertada e monetária frouxa'

Ricardo Leopoldo, enviado especial, e Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2019 | 14h39

WASHINGTON - O ministro da Economia, Paulo Guedes, alterou o discurso sobre a composição do mix de política econômica que mencionou durante entrevista coletiva dada na segunda, 15, na qual também citou o dólar a R$ 4,20 como normal, o que resultou em aumento da pressão no mercado de câmbio nesta manhã. Com os comentários, a cotação do dólar abriu em forte alta e, ao se aproximar de R$ 4,27, gerou resposta do Banco Central, com intervenção.

Também em Washington, Guedes apontou que a composição da política econômica é "política fiscal apertada e monetária frouxa", enquanto, anteriormente, tinha destacado que o mix era por juro de equilíbrio mais baixo e câmbio neutro mais alto, em palestra no Peterson Institute for International Economics. Na palestra desta terça, o ministro não fez nenhuma menção a câmbio.

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'Aposta contra o real é uma péssima aposta', diz Gesner Oliveira

De acordo com o professor da FGV e sócio da GO Associados, não há risco de explosão do preço do dólar, e pondera que o Brasil não é uma ilha e que sofre a pressão geral sobre o câmbio

Entrevista com

Gesner Oliveira, professor da FGV-SP

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2019 | 15h00

Em função das contas externas e da situação confortável da inflação, o Brasil é um país relativamente blindado à recente pressão sobre o dólar, na avaliação do economista Gesner Oliveira, professor da FGV-SP e sócio da GO Associados. “A aposta contra o real é uma péssima aposta e não há risco de explosão do preço do dólar”, afirma o especialista, ponderando que o Brasil não é uma ilha e que sofre a pressão geral sobre o câmbio. 

Apesar da situação mais favorável, com cerca de US$ 380 bilhões de reservas e inflação muito baixa, ele acredita que a alta do dólar deve ter impacto sobre preços do diesel, da gasolina, dos insumos importados. No entanto, o professor acredita que o movimento do câmbio poderá reduzir  o espaço para cortes maiores na taxa de juros no ano que vem. A seguir, trechos da entrevista.

O sr. acredita que o dólar mudou de patamar? Quais motivos levaram a isso? 

Acho que houve uma mudança de patamar. O próprio mercado reconheceu isso nas projeções reveladas pela pesquisa Focus. Isso decorre de uma situação internacional na qual você continua com um cenário de grande incerteza. Há percepção de que os focos de tensão não serão aliviados imediatamente. Prevalece a visão de que os conflitos entre China e EUA vão perdurar e vai continuar uma demanda grande por ativos mais seguros e o dólar é um deles. Aliado a isso, tem uma situação de queda dos juros. Portanto o diferencial de juros é menor, o que atrai menos capital de curtíssimo prazo. Também  há uma contração do comércio internacional, com o desempenho que ainda é folgado nas contas externas. Existe um ingresso líquido de recursos ainda grande, mas a demanda por dólar está mais forte.

Esse patamar do dólar acima de R$ 4,20 veio para ficar?

É difícil saber o intervalo do dólar. Mas claramente acima de R$ 4 é um patamar que corresponde a essa situação de demanda por ativo seguro no plano internacional, uma outra realidade nas contas externas. Por outro lado, o ciclo da economia brasileira está mudando, a recuperação ganhou corpo. A demanda por importações ganha um pouco de força. A contração no comércio internacional faz a exportação cair. Eu diria que certamente é um patamar acima de R$ 4 com a diferença, comparativamente à Argentina, pois temos uma situação confortável do ponto de vista de reservas internacionais. Há cerca de US$ 380 bilhões de reservas. É um cacife que o banco central argentino não tem, nem o do Chile. Dos países emergentes, o Brasil está uma situação relativamente confortável. 

O que pode fazer o câmbio recuar?

Se houver uma continuidade das reformas e uma aceleração e as expectativas domésticas continuarem melhorando. Eventualmente, poderíamos ter uma mudança desse patamar do câmbio para baixo. 

Existe um componente de desconfiança em relação às reformas e isso afetou o câmbio? 

Não, porque não foi isso que mudou. O que mudou foi o quadro internacional. Tanto que a desvalorização de moedas emergentes foi um fenômeno geral. Agora, se o Brasil aumentar a velocidade das reformas, tudo mais constante, daí existe um efeito positivo. Mesmo assim, a força do movimento internacional é muito grande.

Quais são os desdobramentos do câmbio acima de R$ 4,25 na vida das pessoas e das empresas?

Primeiro há uma mudança de preços relativos, os produtos nacionais ficam mais competitivos. Certos segmentos que no passado tiveram dificuldade com real valorizado, hoje têm uma situação de competitividade melhor. O segundo ponto é a pressão de preços de importados, que é inevitável. Mas estamos numa situação em que a taxa de inflação é historicamente muito baixa. Nunca tivemos expectativas de inflação sistematicamente abaixo da meta, olhando dois anos à frente. E não há grandes pressões inflacionárias, salvo o choque da carne. Então, há espaço para acomodar o choque de preços dos importados.

Existe risco inflacionário?

O risco inflacionário é pequeno mesmo com o impacto da  desvalorização do real. O dólar nesse nível não ameaça o regime de metas e tampouco a política de taxa de juros. Havia analistas fazendo projeções de continuidade de redução da Selic (taxa básica de juros) em 2020. Isso eu tenho a impressão que não deve ocorrer. Deve ter mais uma queda da Selic em dezembro e depois dessa queda, tenho impressão que vai haver  uma acomodação. 

A alta do dólar pode interromper o ciclo de queda dos juros?

De qualquer maneira, o ciclo de queda dos juros está chegando ao seu final. Acho que chega nesse nível e depois há uma certa espera para ver como a economia reage. De qualquer maneira já havia uma previsão de fase final do ciclo de queda dos juros. Com esse aumento do câmbio, isso tende a ser reforçado, pois  se trata de uma pressão inflacionária. Mais cedo ou mais tarde virão pressões sobre o preço do diesel, da gasolina, dos insumos importados. Como estamos com taxa de inflação baixa e com uma economia ainda não muito aquecida, com grande ociosidade em vários segmentos, isso não vai representar uma pressão inflacionária muito preocupante. Porém reduz o espaço para cortes maiores na taxa de juros. 

O sr. acredita que esse nível de câmbio pode acelerar o processo de substituição de importação ou a indústria nacional está muito sucateada para caminhar nessa direção? 

Sempre que a taxa de câmbio sobe, é natural que haja uma substituição de importações. Não é um processo generalizado porque o câmbio é volátil. Sempre abre espaço para o fornecedor local. Com o dólar mais alto, o custo do importado fica maior e compra-se mais internamente.

Qual o reflexo para as empresas que têm custo em dólar? Vão ter as margens mais apertadas pela dificuldade de repasse?

É preciso analisar caso a caso e fazer um estudo mais global. As empresas têm impactos sobre custos. É preciso avaliar a capacidade de repassar para os preços e também é preciso levar em conta o efeito patrimonial. Isto é,  qual é o endividamento da empresa em dólar. Brasil não é uma ilha. Ele sofre a pressão geral sobre o dólar. Mas em função das contas externas e da situação da inflação é um país relativamente blindado a essa forte pressão sobre o dólar. Embora a gente esteja num patamar mais alto, a aposta contra o real é uma péssima aposta. Não há risco de explosão do preço do dólar. 

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