Jorge Silva/Reuters
Jorge Silva/Reuters

Escândalo da Odebrecht prestou ótimo serviço à região, diz Mario Vargas Llosa

Em entrevista à revista 'The Economist', peruano Nobel de literatura diz que investigação ajudará a limpar as democracias da região de corrupção

Célia Froufe, Correspondente

26 Abril 2018 | 15h44

LONDRES - Em entrevista à revista britânica 'The Economist', o escritor peruano Mario Vargas Llosa avaliou que os escândalos de corrupção ligados à construtora brasileira Odebrecht "prestaram um ótimo serviço" e ajudarão a limpar as democracias de corrupção da região, expondo-as. Este é um trecho da longa conversa com o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 2010 sobre seu novo livro "La Llamada de la Tribu" e sobre o liberalismo na América Latina.

+ Odebrecht recorre a prazo de carência e não paga dívida de R$ 500 mi

O encontro foi realizado em sua casa em Madri, na Espanha, no dia 4 deste mês. A entrevista foi resumida pela coluna Bello, que trata sempre de temas latinos, mas também pode ser encontrada na versão online do veículo britânico uma grande transcrição editada da conversa. "Não é todo romancista que se senta para escrever um trabalho sério de filosofia política. Mas Mario Vargas Llosa sempre foi tanto um animal político quanto literário. Ele descreve 'La Llamada de la Tribu', publicado em fevereiro, quando o autor completou 82 anos, como um relato de sua própria história intelectual.

+ Justiça do Peru revoga prisão preventiva do ex-presidente Humala e de sua mulher

O resumo cita que se tratou de uma jornada que contou com o flerte juvenil com o comunismo e o existencialismo; entusiasmo e depois desencanto com a revolução cubana; seguido por uma conversão ao liberalismo no sentido britânico. "Essa postura o torna excepcional entre os intelectuais latino-americanos, muitos dos quais ainda estão enfeitiçados pelo antiimperialismo e pelo socialismo", escreve a The Economist.

O livro é um relato das vidas e do pensamento de sete filósofos liberais. Além de Adam Smith, incluem Karl Popper e Isaiah Berlin, ambos os quais o autor conheceu (como fez com Margaret Thatcher, que também o impressionou) quando morava em Londres, na década de 1970. Também estão na lista Raymond Aron, da França, e José Ortega y Gasset, da Espanha. A revista comenta que alguns leitores podem questionar a ausência de John Stuart Mill ou John Rawls, mas explica, usando palavras do entrevistado, que o livro não é "uma história do liberalismo", mas sim um "relato pessoal de escritores que causaram maior impressão em mim".

No livro, ele enfatiza as crenças fundamentais do liberalismo: liberdade econômica, política e cultural, que vê como indivisível, mas também tolerância ao desacordo e à igualdade de oportunidades - e, portanto, à importância da educação. Ele é particularmente crítico daqueles que reduziriam o liberalismo simplesmente ao livre mercado, embora isso seja parte integrante dele. O liberalismo foi traduzido e distorcido, diz ele, ao ser apresentado como idêntico ao conservadorismo reacionário quando é, na verdade, "a forma mais avançada e progressiva de democracia".

Essa "ignorância" do liberalismo é uma das razões pelas quais a tradição liberal é tão fraca na América Latina, diz Vargas Llosa. Outros são a profunda desigualdade da região, o fato de que seus liberais do século XIX "não acreditavam no mercado livre" e a apropriação mais recente do termo por ditaduras como as de Pinochet.

O autor vislumbra hoje "uma grande oportunidade" para o liberalismo na América Latina porque seus rivais, de ditaduras militares ao socialismo cubano e venezuelano, falharam completamente. Isso destruiu "o modelo utópico, socialista e coletivista", diz ele. "Quem quer que o seu país seja uma segunda Venezuela? Ninguém em sã consciência".

"La Llamada de la Tribu" é um lembrete de que as ideias são importantes. Seu autor colocou essa crença em prática concorrendo, em 1990, à presidência no Peru. Foi um empreendimento quixotesco, segundo a revista, que terminou em derrota nas mãos de Alberto Fujimori, presidente do país por dez anos. Mas ele escreve que "muitas das ideias que defendemos ... e que estão neste livro, longe de desaparecer ... constituem parte da agenda política de hoje no Peru".

Recentemente Vargas Llosa falou em comícios para a massa em Barcelona contra o separatismo catalão. Ele fez isso, explicou, porque "o grande perigo em nosso tempo é o nacionalismo". Enquanto o fascismo e o comunismo estão ultrapassados, o nacionalismo ainda está vivo, "disponível em tempos de crise para a exploração por demagogos".

Muitos latino-americanos que se dizem liberais são na verdade conservadores ou libertários, conforme a revista. "Eles abençoam um status quo que incorpora a injustiça herdada ou se opõem à ação estatal para remediá-la. Muitos outros latino-americanos permanecem escravizados pelo populismo ou pelas versões arcaicas do socialismo. Isso faz com que o livro de Vargas Llosa seja relevante. O desafio é tornar suas ideias atraentes para as massas latino-americanas."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.