Escândalos alimentam aversão ao risco nos EUA

"No atual ambiente financeiro global, as condições necessárias para a estabilidade da dívida brasileira (saldo fiscal primário 3,5% do PIB, 4% de crescimento anual, taxas juros reais de 8%, câmbio estável, etc) são, na melhor das hipóteses, difíceis de se materializar", escreveu na semana passada o economista Joaquín Cottani, do banco de investimentos Lehman Brothers, num boletim aos clientes da companhia. "Por isso a probabilidade de o Brasil ser forçado a reestruturar sua dívida pública nos próximos dois anos é muito alta (mais do que 50%)". Se não bastasse a desastrada e desnecessária declaração do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Paul O?Neill, na última sexta-feira, para tornar a situação ainda mais complicada, o Brasil enfrenta um obstáculo intransponível a curto prazo, nos Estados Unidos, para reconquistar a confiança dos investidores: no momento, eles estão temerosos de investir em seu próprio país. A sucessão quase que diária de escândalos envolvendo algumas das mais conhecidas empresas de capital aberto dos EUA, que começou com o colapso da Enron, no ano passado, e continuou na semana passada com o indiciamento de três ex-executivos da rede de farmácias RiteAid, e a expectativa de lucros modestos de várias corporações, afujentaram os investidores. Na sexta-feira, a Bolsa de Nova York fechou em baixa pela quinta semana consecutiva pela primeira vez desde os ataques terroristas de 11 de setembro. As previsões para esta semana são de continuação da aversão ao risco e de nova queda dos índices Down Jones e Standard & Poors, que recuaram mais de 10% desde o dia 17 de maio, e do Nasdaq, que perdeu 17,3% no mesmo período."Estamos num momento máximo de dificuldade", disse Stephen Massocca, da Pacific Growth Equities, de São Francisco. "O dólar está em queda, as estimativas de lucro das empresas estão sendo constantemente revisadas para pior, todo dia surge um novo escândalo envolvendo malfeitorias e manipulação da contabilidade das empresas e, no Oriente Médio, o pavio continua aceso. Ou seja, todas as grandes questões que influenciam o mercado são negativas", disse ele. BushCom a fuga dos investidores do mercado acionário americano ameaçando puxar a economia para baixo, apesar dos vários indicadores positivos divulgados nas últimas semanas, o presidente George W. Bush procurou tranqüilizar os americanos duas vezes, na semana passada. "Acho que há uma ressaca de desconfiança no mercado e as corporações precisam emendar-se, porque as pessoas precisam ter confiança nos números que elas divulgam", disse o líder americano. "Uma imensa porcentagem das companhias americanas é honesta, mas há algumas maçãs podres". Apesar da acentuada queda recente dos índices da bolsa, economistas observam que as ações continuam historicamente caras comparadas com o lucro das empresas e podem cair ainda mais se os escândalos continuarem. O professor Richard S. Tedlow, da Universidade de Harvard, disse ao Washington Post que há algo novo na atual aversão dos investidores ao risco que pode mantê-lo por mais tempo afastados do mercado: os escândalos que reduzem a confiança dos americanos no mercado acionário são mais fáceis de entender e, por isso, podem ter um efeito negativo mais prolongado sobre a confiança. "Desta vez, o foco (dos escândalos) está em indivíduos, você vê a fotografia deles nos jornais, eles têm nomes e você vê seus depoimentos perante as comissões do Congresso", disse ele. Por isso, "as pessoas entendem o que eles fizeram de errado". O melhor exemplo são as investigações iniciadas na semana passada sobre Martha Stewart. Uma das mulheres mais famosas dos EUA, que construiu um pequeno império empresarial nos últimos dez ensinando as americanas a cozinhar, decorar suas casas, receber os amigos, dar festas e serem modernas rainhas do lar. Stewart é suspeita de ter usado informação privilegiada - um crime federal - na venda de ações de uma pequena empresa de biotecnologia, a ImClone. O dono da ImClone, Samuel Waksal, que é pessoalmente próximo de Stewart, foi acusado desse crime há duas semanas. Nesse aspecto, a atual crise de confiança dos investidores é diferente da que precedeu o colapso da bolsa de Nova York em outubro de 1987 e tem mais semelhanças com o que aconteceu das décadas de 20 e 30 do século passado, quando muitas pessoas conhecidas acabaram na cadeia. Isso não significa que a economia americana esteja à beira de um desastre, esclareceu Tedlow. A exemplo de outros economistas, ele lembra que os fundamentos da economia dos EUA são hoje muito mais sólidos do que eram na época da Grande Depressão. "Mas não há dúvida de que, para as autoridades econômicas brasileiras, que já estão diante de uma situação muito difícil de administrar, a falta de confiança dos investidores americanos em seu próprio mercado é um complicador importante", disse Paulo Vieira da Cunha, economista do Lehman Brothers, em Nova York. "O ambiente, aqui, faz com que as pessoas se afastem dos mercados emergentes onde há risco".

Agencia Estado,

22 de junho de 2002 | 14h35

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