EFE/ Koichi Kamoshida
EFE/ Koichi Kamoshida

‘Escapei da injustiça e da perseguição política’, diz Carlos Ghosn após deixar prisão no Japão

Ex-presidente da aliança Renault-Nissan confirmou que está no Líbano e acusou sistema judicial japonês de parcial

The New York Times

31 de dezembro de 2019 | 08h45

Numa fuga espetacular, com lances de filme de ação, o brasileiro Carlos Ghosn, ex-presidente da Nissan-Renault, escapou do Japão e se refugiou no Líbano entre a noite do último domingo e segunda-feira. Ele enfrenta acusações de ter cometido irregularidades financeiras e alega ter escapado do que considera “injustiça e perseguição política”.

Ghosn, de 65 anos, é cidadão do Líbano, estando protegido contra extradição, bem como da França e do Brasil. Ele passou boa parte de sua juventude na capital, Beirute, onde tem amplo apoio público. Um outdoor na cidade expressou solidariedade ao executivo logo após sua prisão, em 2018.

Ele foi acusado pelas autoridades japonesas de esconder ganhos e transferir prejuízos financeiros pessoais para a Nissan, e deveria ser julgado no Japão ainda este ano. A empresa também foi indiciada por denunciar indevidamente os rendimentos de Ghosn e disse que cooperaria com os promotores.

O brasileiro foi preso junto com Greg Kelly, do conselho da Nissan e que é cidadão dos Estados Unidos. Kelly foi libertado da prisão há um ano, por problemas de saúde, e ainda está em Tóquio, segundo seu advogado.

A ida de Ghosn ao Líbano é uma reviravolta dramática em uma história de ascensão e queda de um dos executivos mais importantes da indústria automobilística. Ele havia pago uma fiança de US$ 9 milhões e estava em prisão domiciliar.

Segundo a imprensa libanesa, ele chegou ao país em um jato particular, vindo da Turquia. A esposa, Carole, estaria com ele em uma casa protegida por guardas armados. 

“Agora não serei mais refém do fraudulento sistema judicial japonês, em que se presume a culpa, a discriminação é galopante e direitos humanos básicos são negados”, disse Ghosn, em um breve comunicado divulgado por um porta-voz. “Não fugi da Justiça, escapei da injustiça e da perseguição política. Agora posso me comunicar livremente com a mídia e estou ansioso para começar a fazer isso na próxima semana.”

Um advogado do ex-executivo no Japão, Junichiro Hironaka, disse ontem que soube da fuga pelo noticiário. Ele também afirmou que a equipe jurídica de Ghosn estava em posse de todos os seus três passaportes. “É difícil que ele tenha conseguido fugir sem a ajuda de uma grande organização”, disse o advogado, em entrevista coletiva. 

Uma das hipóteses, segundo a emissora japonesa NHK, é que o ex-executivo tenha escapado para o Líbano usando uma identidade falsa, mas essa informação não foi confirmada pelos serviços de imigração.

Representantes da Nissan, promotores japoneses e embaixadas libanesas em Tóquio e Washington não responderam aos pedidos de entrevista. Os escritórios do governo e a maioria das empresas no Japão foram fechados antes do dia de Ano Novo, considerado o feriado mais importante do país.

Prisão

Ghosn tem entrado e saído da prisão desde que foi preso pela primeira vez, em 2018, por mais de cem dias. Em março de 2019, sob o pagamento de uma fiança de R$ 33,8 milhões, ele foi solto. Menos de um mês depois, foi preso novamente, após sofrer outras acusações. No final de abril, um tribunal em Tóquio aprovou a soltura de Ghosn sob fiança de R$ 18 milhões. Em prisão domiciliar, aguardava julgamento.

Os promotores impuseram outra condição para sua libertação após a prisão de abril: o brasileiro Ghosn foi proibido de se comunicar com a esposa – durante sete meses, os dois não trocaram nenhuma palavra. 

Carole Ghosn, se posicionou publicamente dizendo que seu marido foi maltratado pelas autoridades japonesas. Em entrevista ao jornal The New York Times, depois da prisão de abril, ela disse que autoridades invadiram seu apartamento e levaram alguns de seus pertences, como celular, passaporte, diário e cartas que ela escreveu para o marido enquanto ele estava na prisão. 

Em junho, a Renault denunciou Ghosn por gastos suspeitos de € 11 milhões. No mês seguinte, o executivo entrou com uma ação contra a Nissan e a Mitsubishi Motors, por violação abusiva de seu contrato em uma empresa com sede na Holanda. Ele pediu uma indenização de quase R$ 63 milhões.

Em setembro, a Nissan e Ghosn assinaram um acordo para pagarem juntos US$ 16 milhões à Comissão de Títulos e Câmbio (SEC, na sigla em inglês) e liquidar a ação civil a que respondem por esconder de investidores mais de US$ 140 milhões em compensações e benefícios.

Justiça

Esse caso envolvendo Ghosn ganhou atenção internacional e levantou questões sobre o sistema de justiça do Japão. Advogados do ex-executivo dizem que não receberam autorização para acessar grandes volumes de informações que os promotores coletaram da Nissan para construir o caso. 

Os advogados de Ghosn reclamam que os tribunais e os promotores puseram o ex-executivo em desvantagem, tornando sua defesa quase impossível. Em contrapartida, os promotores argumentam que não puderam compartilhar materiais fornecidos pela empresa, por serem “muito sensíveis”. 

Desde sua prisão, Ghosn teve de deixar a presidência das três companhias. A Renault, a Nissan e a Mitsubishi têm se esforçado para retomar a aliança das empresas. No mês passado, anunciaram uma nova estrutura, nomeando um secretário-geral para liderar a parceria e acelerar os negócios. 

A reestruturação das empresas acontece enquanto as companhias tentam melhorar a lucratividade diante de mudanças radicais que estão transformando o setor, incluindo a corrida para lançamentos de veículos elétricos. 

As três empresas tiveram queda acentuada nas vendas no mundo todo e hoje enfrentam novos desafios à medida que outras montadoras se unem para ganhar eficiência a nível global./COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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