Tiago Queiroz/Estadão - 4/7/2021
Tiago Queiroz/Estadão - 4/7/2021

Escassez de energia é um problema que já aconteceu há 20 anos, mas ainda carece de soluções

Se tivéssemos, há cinco anos, feito o leilão de térmicas a gás e realizado o leilão da Eletrobras, não estaríamos agora com o risco de faltar energia

Adriano Pires*, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2021 | 04h00

Déjà-vu (que significa “já visto” em francês) é a expressão usada para descrever aquela sensação de que você já esteve em determinado lugar ou já fez a mesma coisa antes. Muitos lembram de 2001 por causa do ataque às Torres Gêmeas. No Brasil, o ano de 2001 foi marcado pelo racionamento. Após 20 anos de crise elétrica, estaríamos vivendo um déjà-vu?

No 1.º trimestre de 2001, a crise de abastecimento se tornava realidade, com níveis de chuva aquém do esperado, o nível de armazenamento dos reservatórios começava a cair e o temor do racionamento era crescente. A causa do racionamento de 2001 foi a oferta insuficiente de energia, durante a crise hídrica, para suprir a demanda, a falta de térmicas e um sistema de transmissão ainda pouco integrado. O Plano de Desenvolvimento Decenal em 1990 já apontava para riscos de racionamento na próxima década, em razão da alta vulnerabilidade ao clima do sistema energético brasileiro.

Não existe fonte de energia melhor ou pior, mas, sim, um planejamento ruim. O que tem se notado nos últimos anos é a falta de um planejamento que considere o legítimo atributo que cada fonte primária de energia pode desempenhar na matriz elétrica brasileira. Com isto, as políticas praticadas não maximizam a utilização das diferentes fontes para a geração de energia elétrica, desperdiçando a vantagem comparativa da diversidade energética existente no Brasil.

O setor elétrico tem mentes brilhantes e, certamente, temos muitos acertos ao longo do tempo. Não se trata, portanto, de afirmar que é necessário reconstruir tudo do zero, mas é o caso, sim, de argumentar que é necessário adotar uma nova postura de olhar o setor de forma mais integrada, em particular gás e energia elétrica. E dando uma atenção especial ao chamado mercado cativo. O desafio não é pequeno. É um complexo movimento que só será possível por meio de discussões técnicas, debates que ampliem nosso raio de visão e de opiniões, capacidade de integração e aceitação de objetivos comuns. Precisamos encontrar maneiras de promover diálogos de profissionais com visões diversas, mas que estejam todos de acordo em direcionar suas energias em nome de um bem comum, que é o setor elétrico do futuro. É urgente, por exemplo, a correta aplicação do tripé confiabilidade/adequabilidade do sistema – preço – atributos de fontes de geração convencionais e renováveis, de forma a garantir a segurança energética e a modicidade tarifária.

A ausência desse tripé nos levou, mais uma vez, a uma crise elétrica. Após 20 anos nos encontramos discutindo o mesmo problema e compartilhando as mesmas soluções. A busca de soluções deve ultrapassar o ritmo que será imposto pela corrida eleitoral no País em 2022, o que pode ser crucial para a decisão nas urnas. É preciso comunicação transparente com a sociedade. Não podemos ter medo de discutir tarifas nem um possível racionamento. 

É bom que fique claro que o racionamento de 2001 se deu por ausência de térmicas e a crise que estamos vivendo em 2021 não é resultado de chuvas abaixo da média, mas, sim, de um planejamento que vem há alguns anos demonizando as térmicas, sejam aquelas a gás natural, sejam as nucleares, deixando o País refém do clima com hidrelétricas a fio d’água, eólicas e solares. Se tivéssemos, há pelo menos 5 anos, feito o leilão de capacidade com térmicas a gás, que será feito agora no final de 2021, e tivéssemos realizado o leilão da Eletrobras com os 8 GW, também, a gás natural, que deverá ser realizado no primeiro trimestre de 2022, não estaríamos agora com tarifas tão elevadas, com reservatórios vazios e, tampouco, com o risco de faltar energia. Nada contra as eólicas e as solares, ao contrário, mas voltamos a repetir que, se não levarmos em conta os atributos de cada fonte de energia, o setor elétrico permanecerá sendo um ponto de estrangulamento ao crescimento econômico.

Com as usinas térmicas, há a possibilidade de garantir um volume específico de geração e o tempo de produção. É necessário fortalecer o mercado de gás natural a fim de estimular a geração termoelétrica e os projetos de cogeração. A dúvida do apagão, e de como chegamos até aqui, é como o sentimento associado ao déjà-vu clássico, não é o de confusão ou de dúvida, mas sim o de estranheza de por que temos de repetir os erros passados. 

*DIRETOR DO CENTRO BRASILEIRO DE INFRAESTRUTURA (CBIE)

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