Rebecca Cook/ Reuters
Rebecca Cook/ Reuters

Escassez global desafia fábrica ‘enxuta’

Após sofrer com a falta de peças provocada pela pandemia, indústria reavalia modelo de produção que opera quase sem estoques

The New York Times,

05 de junho de 2021 | 05h00

Na história de como o mundo moderno foi construído, a Toyota se destaca como a mente por trás de um avanço extraordinário na eficiência industrial: a montadora japonesa foi pioneira na chamada produção “Just In Time”, na qual as peças são entregues às fábricas exatamente quando são necessárias, reduzindo a necessidade de estoque.

Ao longo dos últimos 50 anos, essa abordagem cativou empresas em setores muito além do automotivo. Da moda ao processamento de alimentos, passando pelos produtos farmacêuticos, as companhias adotaram o modelo Just In Time para se manterem ágeis, possibilitando que se adaptassem às novas demandas do mercado e, ao mesmo tempo, cortassem custos.

Mas o desarranjo provocado pela pandemia colocou em xeque as vantagens de reduzir os estoques, e alguns setores ficaram muito vulneráveis a interrupções. A economia de muitos países ao redor do mundo se viu atormentada pela escassez de uma vasta gama de produtos – de eletrônicos a madeira e roupas. Em uma época de turbulência na economia global, o Just In Time está atrasado.

“É como se a cadeia de suprimentos ficasse descontrolada”, disse Willy C. Shih, especialista em comércio internacional da Harvard Business School. “Na corrida para chegar ao menor custo, as empresas concentraram o risco. Estamos vivendo a conclusão lógica de tudo isso”.

O exemplo mais visível da dependência excessiva ao Just in Time está na própria indústria que o inventou: as montadoras foram prejudicadas pela escassez de chips – componentes vitais para automóveis, produzidos principalmente na Ásia. Sem produtos suficientes, as fábricas de automóveis da Índia até os Estados Unidos e o Brasil se viram forçadas a interromper as linhas de montagem.

Mas a amplitude e a persistência da escassez revelam até que ponto a ideia do Just in Time veio a dominar a vida comercial. Ela ajuda a explicar por que a Nike e outras marcas de vestuário estão sofrendo para estocar produtos no varejo. E é uma das razões pelas quais as construtoras estão tendo problemas para comprar tintas. O Just in Time foi uma das principais causas da trágica escassez de equipamentos de proteção individual no início da pandemia, o que deixou os profissionais de saúde da linha de frente sem equipamento adequado.

Caos nos mares

A escassez na economia mundial decorre de fatores além dos estoques. A covid-19 afastou trabalhadores portuários e caminhoneiros, impedindo a descarga e distribuição de mercadorias que eram feitas em fábricas na Ásia e que chegavam de navio. A pandemia desacelerou as operações de serraria, causando uma escassez de madeira que impediu a construção de casas nos EUA. E tempestades de neve, que fecharam fábricas petroquímicas no Golfo do México, restringiram produtos-chave. 

Algumas empresas ficaram especialmente expostas, uma vez que já estavam funcionando com margens enxutas quando a crise começou. E muitas combinaram sua dedicação ao Just In Time com a dependência a fornecedores em países de baixos salários, como China e Índia, transformando qualquer interrupção no transporte global em um problema imediato. 

Agora, os mesmos consultores que promoviam as virtudes dos inventários enxutos pregam resiliência – a palavra da moda – para a cadeia de suprimentos. E a simples expansão dos estoques talvez não seja o suficiente, segundo Richard Lebovitz, presidente da LeanDNA, uma consultoria de cadeia de suprimentos. As linhas de produtos estão cada vez mais customizadas. “É cada vez mais difícil prever qual estoque você deve manter”, disse ele.

Em última análise, é provável que as empresas continuem adotando o sistema enxuto pela simples razão de que ele gera lucros. “A verdadeira questão é: vamos parar de perseguir o baixo custo como único critério de avaliação empresarial?”, disse Shih, o professor de Harvard. “Sou cético quanto a isso. Os consumidores não vão querer pagar por resiliência quando não houver crise.” / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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