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Escolas para uma inovação frugal

As boas ideias de empreendedores sul-africanos para tornar o ensino particular acessível à baixa renda; estratégia é 'ganhar escala' e 'explorar possibilidades da tecnologia'

The Economist

24 de dezembro de 2015 | 05h00

Muitos alunos de MBA sonham em ficar ricos. O sonho de Stacey Brewer era reformar a educação. Brewer se preocupava com o fato de que, com sua combinação de escolas públicas de má qualidade, frequentadas pela maioria negra, e escolas particulares de primeira linha, a que só a minoria majoritariamente branca tem acesso, o sistema educacional da África do Sul estava perpetuando as divisões raciais do país. Por isso, na tese que defendeu em 2011, ao concluir seu MBA na GIBS Business School, de Johannesburgo, Brewer apresentou um modelo de rede de ensino estruturado em torno de ferramentas tipicamente empresariais (tais como economias de escala e inovações tecnológicas), a fim de oferecer um ensino particular de baixo custo, acessível às camadas mais pobres da população. Essa rede de ensino, batizada de Spark, atualmente opera quatro escolas, e deve inaugurar outras quatro em 2016.

Na Spark de Bramley, um bairro social e racialmente heterogêneo de Johannesburgo, sente-se no ar o desejo de desenvolvimento pessoal e ascensão social. A diversidade racial entre os alunos é grande — cerca de 80% são negros; os demais são brancos ou “coloured”, para usar uma expressão local de mau gosto (que designa indivíduos “pardos”) —, mas todos trajam os mesmos uniformes vistosos. A escola tem algo da atmosfera de instituições particulares convencionais, com sua ênfase na formação do caráter do aluno e no respeito à disciplina. Mas também emprega uma série de métodos heterodoxos, como música e dança. Todos os dias, no início da aula, as crianças recitam versos que incluem a frase: “Sou um estudante Spark e vou para a universidade” (em que o tom motivacional é reforçado pelo sentido de “centelha” que a palavra spark tem em inglês).

O objetivo da Spark é oferecer ensino particular por menos do que os 18 mil rands (US$ 1,2 mil) que são gastos por ano pelo Estado na educação de um aluno da rede pública. As escolas da Spark são especializadas na “aprendizagem mista”, com os alunos passando parte do período letivo em salas de aula convencionais e outra parte em salas de computadores, onde fazem seus deveres. Para controlar os custos, as unidades da rede alugam suas instalações, operam com uma administração centralizada, recorrem ao auxílio dos pais para executar atividades de manutenção e remuneram seus professores com salários inferiores aos pagos pelas escolas públicas.

Brewer e seu sócio, Ryan Harrison, que também fez um MBA na GIBS Business School, pesquisaram experiências educacionais em todo o mundo. A maior inspiração da Spark são as escolas Rocketship, uma rede de charter schools(instituições criadas por professores, pais ou grupos comunitários, que recebem recursos governamentais, mas têm administração autônoma e não integram a rede pública de ensino) da Califórnia. Para avaliar o progresso dos alunos, a ideia é comparar seu desempenho com o dos estudantes que apresentam, mundialmente, os melhores resultados educacionais: os britânicos em língua inglesa e os cingapurenses em matemática. Brewer e Harrison acreditam que, fazendo uso da tecnologia, poderão expandir a rede em ritmo muito mais acelerado do que antes era viável fazer na educação: os professores podem compartilhar materiais pela internet e as pessoas que apoiam a escola podem promover sua marca nas redes sociais.

Desde o fim do apartheid, observa-se aumento enorme no número de escolas particulares de baixo custo na África do Sul, diz Ann Bernstein, do Centre for Development and Enterprise, um dos mais importantes centros de estudos e pesquisas sul-africanos. O país investe generosos 6,2% de seu PIB em educação pública. Mas os resultados são decepcionantes: de cada 100 crianças que iniciaram seus estudos em 2003, por exemplo, apenas 48 realizaram o exame de conclusão do ensino médio, 36 foram aprovadas e 14 conseguiram ingressar no ensino superior. Uma das principais razões disso é que os princípios da transparência e da prestação de contas não são devidamente observados no interior do sistema educacional. Segundo a National Planning Commission, agência de planejamento do governo sul-africano, os professores da rede pública do país estão entre os mais bem pagos do mundo, pelo critério da paridade de poder de compra. Mas, como os salários de ingresso no magistério são elevados e os sindicatos são poderosos, não há como recompensar os professores que trabalham bem ou demitir os que trabalham mal. “Você faz o que quiser e ainda recebe o salário no fim do mês”, diz um professor, que prefere não ser identificado. “Às vezes, a pessoa morre e continua a receber.”

Muitas das primeiras escolas particulares de baixo custo surgiram de forma improvisada, ocupando fábricas abandonadas, edifícios residenciais sem uso e instalações similares. Agora, porém, algumas instituições recorrem a capital e sofisticação. Fazem isso de três formas. Um primeiro grupo tem ações listadas em bolsa, como as redes de ensino AdvTech e Curro. A AdvTech atua no mercado de escolas de primeira linha, cobrando mensalidades caras; mas pretende entrar no segmento que atende famílias menos abastadas, repetindo o movimento feito por cadeias hoteleiras que se expandem com hotéis de baixo custo. A Curro foi criada em 2011, mas já tem 42 escolas. Um segundo grupo é formado por escolas de capital fechado, com fins lucrativos, como a Spark e instituições similares. O terceiro e maior grupo reúne as escolas sem fins lucrativos, conhecidas como escolas independentes, que cobram mensalidades, mas também recebem recursos do governo. Por vários anos, muitas dessas instituições se dedicaram a suas atividades sem chamar atenção: o BASA Educational Institute foi criado por um grupo de empresários negros em 1993; mas, com o intuito de promover sua expansão, recentemente captou investimentos junto a bancos, como o Old Mutual, e fundos de pensão do funcionalismo público.

Para além da mera sobrevivência. Nem todo mundo se impressiona com a conversa de “ganhar escala” e “explorar as possibilidades da tecnologia”. Helenne Ulster leciona há vinte anos na United Church School, uma escola independente. A instituição fica em Yeoville, bairro em que as condições são muito mais difíceis do que no da Spark Bramley. Para entrar na escola, os alunos precisam passar por um portão de ferro duplo. Do lado de fora, pequenos traficantes vendem “dagga” (maconha). Mais de metade dos alunos são imigrantes, oriundos de países vizinhos. A assistente social da escola frequentemente encontra sinais de violência física e abuso sexual. Ulster acha graça quando alguém fala na “mágica da tecnologia”: mesmo que a escola tivesse condições de adquirir iPads, diz ela, os aparelhos seriam roubados num minuto, se os alunos fossem para casa com eles. Em sua opinião, não há diretores carismáticos ou professores motivados em número suficiente para criar redes escolares bem-sucedidas: “As pessoas já gastam bastante energia só tentando continuar vivas”.

Tendo em vista o entusiasmo exagerado que costuma cercar as iniciativas educacionais, esse ceticismo é saudável. Mas o ensino particular tem muito espaço para crescer na África do Sul. Sua presença está muito aquém da que se observa na Índia, em cujas áreas urbanas, 40% das crianças frequentam escolas particulares, ou na província do Punjab, no Paquistão, onde o Estado distribui vales educacionais que podem ser usados em escolas públicas ou particulares. Além disso, a expansão do ensino particular deve aumentar a capacidade de atendimento da rede pública, que está sobrecarregada: entre 2000 e 2010, o número de escolas públicas na África do Sul diminuiu em 9%, ao passo que o de escolas independentes teve aumento de 44% (a partir de uma base de comparação muito menor). As escolas particulares também podem funcionar como laboratório para novas ideias: as unidades do BASA Institute usam tecnologia em sala de aula, muito embora algumas delas estejam situadas em lugares tão socialmente problemáticos quanto Yeoville. Mas a contribuição mais importante que escolas como as da rede Spark podem dar é fazer com que os desejos de desenvolvimento pessoal e ascensão social se disseminem entre as crianças sul-africanas, não ficando mais restritos aos filhos da elite do país.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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