Escolas particulares reduzem preços

As dificuldades financeiras enfrentadas pelas escolas particulares do ensino médio acabaram se transformando em fator de alívio para a taxa de inflação na cidade de São Paulo em janeiro. A avaliação é do professor de economia da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), Heron do Carmo. O IPC-Fipe fechou o mês passado com alta de 0,57%, taxa bastante elevada se comparada com a variação de 0,38% de janeiro de 2001, mas aquém das projeções para janeiro deste ano que consideravam além da sazonalidade do mês, os efeitos climáticos - seca no Sul e fortes chuvas no resto do País. De acordo com Heron do Carmo, além da redução no preço da gasolina entre outras quedas, contribuíram para o não estouro da inflação em janeiro os descontos que as escolas particulares do ensino médio têm concedido como forma de reduzir o êxodo de seus alunos para escolas mais baratas e até públicas. Este ano as escolas reajustaram suas mensalidades em 5,13%, abaixo da inflação acumulada de 7,13% de janeiro a dezembro de 2001. O presidente do Grupo - Associação das Escolas Particulares de São Paulo -, Sílvio Gomide, admite que as escolas passam por um momento muito difícil e que há de fato um "down grade" no setor, com a fuga dos alunos para os estabelecimentos mais baratos, em especial os religiosos. "Mas discordo que há alunos saindo das escolas privadas para as públicas", contesta Gomide. Eugênio Machado Cordaro, diretor da CNA Consultores, entidade que presta consultoria para as escolas privadas, também discorda de que as escolas particulares estejam perdendo alunos para a rede pública. "Nos últimos dez anos até 2001 o número de alunos tem até crescido", diz Cordaro, exibindo dados da Secretaria da Educação de São Paulo sobre o número de alunos matriculados nas escolas privadas. Segundo estes dados, em 2001 a rede privada tinha 1.385.302 alunos, com um crescimento de 2,74% sobre os 1.348.332 alunos matriculados em 2000. "O que acontece é que houve um aumento de cerca de 70% na oferta de novos cursos nas escolas nos últimos cinco anos. É o que chamamos de integração vertical, ou seja, as mesmas escolas passaram a oferecer novos cursos. Quem tinha só o primeiro grau passou a oferecer também o segundo" explica Cordaro, lembrando ainda que desde 1986 o número de jovens no País vem caindo proporcionalmente ao conjunto da população.Gomide atribui ao rodízio de alunos no setor à isenção de impostos que as escolas religiosas e filantrópicas recebe e que chega a até 35%. Segundo ele, estas escolas, mesmo mantendo um ensino de boa qualidade, podem cobrar até 35% menos. Para Heron do Carmo, os donos das escolas particulares só estão colhendo parte daquilo que plantaram no decorrer de muitos anos. "Estas escolas vinham aumentando seus preços acima da inflação desde 1980. Agora esta história vai acabar porque o poder aquisitivo das famílias está bem abaixo", diz Heron. Segundo ele, os donos de escolas compravam prédios e jogavam os custos da expansão nas costas dos pais. O coordenador da Fipe diz que na sua própria família já há casos de transferência de alunos da escola particular para a rede pública. "Se a mensalidade é aumentada em 10%, isso eqüivale a mais ou menos R$ 70,00, que já dá para pagar uma conta de luz. Este valor acumulado no ano já paga um aparelho de televisão", calcula o coordenador da Fipe.FusõesPara o diretor da CNA Consultores, Eugênio Machado Cordaro, a situação das escolas da rede privada é muito difícil porque tudo que os empresários do setor tinham de gordura nas suas contas foi queimado até 1992. De lá para cá as escolas começaram a cortar pessoal. Mas essa alternativa também já se esgotou garante Cordaro. "Quando uma escola aumenta seu número de alunos, suas despesas fixas são elevadas. Mas quando vão embora, eles não saem da mesma sala e isso impede que gastos com funcionários, luz, água e materiais, entre outras despesas sejam cortadas", diz Cordaro.A saída encontrada pelo setor para equilibrar perda de receita com gastos foi a fusão. Mas o processo, de acordo com o diretor, é muito lento porque requer alguns requisitos bastantes peculiares como a similaridade de propostas pedagógicas e proximidade entre as unidades de ensino. "Não adianta uma escola da Zona Sul ter a mesma proposta de ensino de uma escola localizada na Zona Leste, por exemplo", pondera Cordaro. Segundo ele, apesar da lentidão o processo de fusão no setor está em andamento e cada vez mais ganha força como uma tendência. A cidade de São Paulo tem cerca de cinco mil escolas particulares. Contudo, o número de fusões é muito pequeno. Na Zona Oeste da cidade de São Paulo, a Escola Oswald de Andrade, da Lapa, se fundiu com a Caravelas, de Pinheiros. Os alunos de 1ª à 4ª séries ficaram em Pinheiros e os de 5ª à 6ª séries estão na Lapa. No ABC Paulista, segundo Cordaro, as escolas Quarup e Novo Mundo se juntaram para reduzir seus custos e poderem oferecer mensalidades mais adequadas ao padrão atual dos pais de alunos. Em Moema, o processo alcançou as escolas Novo Esquema e Novo Ângulo. "O processo de fusão está ocorrendo e é uma tendência no setor, apesar de sua lentidão", conclui Cordaro.

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